quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Black Friday brasileiro é uma farsa

Brasileiros adoram imitar os ianques. Mas nunca imita nas coisas que eles tem de melhor. E depois do Natal (O que o Papai Noel da Coca-Cola tem a ver com o nosso clima de verão?) e do Halloween (se pelo menos fosse com personagens do folclore brasileiro...), agora os brasileiros inventaram a sua filial tupiniquim da Black Friday.

Mas conhecemos a ganância do empresariado brasileiro, preocupado em lucrar muito pagando o menos possível. Percebendo a proximidade da data, as empresas logo trataram de aumentar os preços e diminuí-lo novamente hoje, para um nível que esteja dentro do preço de mercado. Ou seja, não houve desconto e sim o retorno ao preço anterior.

Ou seja: BLACK FRAUDE!!! Pague pelo preço normal após o aumento abusivo do produto desejado! Claro, isso fora um festival de pseudo-descontos feitos aproveitando a ignorância da maior parte da população. É bom para os empresários que toda a nação esteja mergulhada na burrice crônica. Aí você pergunta porque a Educação nunca melhora e não sabe porquê.

Tá, é certo que um e outro estabelecimento sério vai fazer descontos reais no dia de hoje. Mas são exceções. Boa parte das promoções será uma farsa e você poderá estar pagando bem mais do que está pensando, se observar com mais atenção.

Mas o que acontece é que esse Black Friday é em si uma propaganda. Estimula as pessoas a irem às lojas maciçamente para quando chegar, perceber que não houve promoção alguma e que isso era apenas uma isca para aumentar a demanda no interior das lojas.

Portanto o conselho é o mesmo dos dias sem promoção: ande, vá a vários estabelecimentos, pechinche se for possível e observe a necessidade de obter tal produto. É comprovado que compras por impulso levam muitos à falência. E você não quer trocar a sexta negra por dias em vermelho, certo?

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Thomas Piketty: 10 recomendações para acabar com a desigualdade na economia


OBS: Thomas Piketty é um dos maiores intelectuais da atualidade. De orientação progressista, ele tem se esforçado em propor soluções para resolver os problemas econômicos da atualidade. Sempre é bom dar ouvidos a ele.


Thomas Piketty: 10 recomendações para acabar com a desigualdade na economia

Publicado no Instituto Humanitas Unisinos

Thomas Piketty é um dos economistas mais reconhecidos do nosso tempo. De origem francesa, Piketty se especializou sobretudo no estudo da desigualdade econômica em sua relação com o capitalismo.

A reportagem é publicada por PijamaSurf, 24-10-2019. A tradução é do Cepat.

Piketty é uma das poucas vozes que, apoiado em estudos e medições rigorosas, apontou o efeito nocivo que práticas econômicas como a herança de bens, a acumulação excessiva de capital, os paraísos fiscais e outros têm sobre o bem-estar geral.

Além disso, diferentemente de outros, o economista não hesita em atribuir ao Estado uma relevância decisiva na regulação da economia, principalmente para influenciar nos efeitos que, por sua própria lógica, gera o sistema econômico em que vivemos. Segundo Piketty, é necessário que exista uma entidade que atue sobre tal inércia do capitalismo para conduzi-lo em outra direção.

Nesse sentido, em um livro publicado recentemente na França, Capital et Idéologie (Capital e Ideologia), Piketty oferece algumas recomendações pontuais para diminuir a lacuna existente hoje, em todos os países, entre pessoas com abundantes recursos materiais e financeiros, e outras que têm pouco ou nada. Ou seja, em outras palavras, são ações cujo objetivo geral é melhorar a distribuição da riqueza. Resumidas pelo jornal “L’Obs”, estas são as suas propostas:

1. Propriedade social e cogestão das empresas: os empregados recebem 50% das vagas nos conselhos de administração e os direitos de voto dos principais acionistas ficam limitados (por exemplo, 10% nas grandes empresas).

2. Propriedade temporária: criação de um imposto anual progressivo sobre a propriedade, com taxas que variam de 0,1%, para as pequenas heranças (até 100.000 euros), até 90% para heranças de mais de 2 bilhões de euros.

3. Dotação de capital universal e circulação de bens imóveis. Aos 25 anos, toda pessoa recebe o equivalente a 60% do patrimônio médio, ou seja, 120.000 euros, financiado pelo imposto progressivo sobre bens imóveis.

4. Aumentar as taxas máximas de impostos sobre a renda e o patrimônio (até 90%).

5. Constitucionalização do princípio da tributação progressiva.

6. Justiça educacional: reequilíbrio eficaz e verificável do gasto educacional em favor de regiões desfavorecidas.

7. Introdução de um imposto individual e progressivo sobre o carbono, graças a um “cartão de carbono” que permita medir o consumo de cada um.

8. Financiamento da vida política. Os cidadãos recebem “bônus de igualdade democrática” do Estado para entregar aos partidos de sua escolha. Limitação drástica de doações privadas.

9. Inclusão de objetivos fiscais e ambientais quantificados e vinculantes em acordos comerciais e tratados internacionais. Suspensão de acordos e tratados (inclusive europeus) que não atendam estas condições.

10. Criação de um registro financeiro internacional que permita às administrações fiscais saber quem é o proprietário de algo. Suspensão da livre circulação de capitais que não cumpram essas condições.

Como podemos ver, essas são medidas pouco comuns e até inéditas, pois várias delas não foram tentadas na história ou apenas em situações esporádicas. No entanto, mesmo uma breve reflexão sugere que várias delas, se aplicadas de forma sustentável, poderiam realmente promover uma mudança maior no modo de vida geral da humanidade. O que você acha disso?

domingo, 3 de novembro de 2019

"Funk" brasileiro: sem limites para investir

O que vou dizer aqui pode parecer delírio aos olhos de gente ingênua (e os poderosos estimulam que essa gente pense assim), mas ao investigar várias fontes, cheguei a conclusão de que o que vou lhes dizer é um triste fato. A população brasileira precisa saber disso e se virar contra, para que não perca definitivamente a sua cultura.

A mídia oficial e a mídia não oficial estão tentando empurrar goela abaixo o tal do "funk" brasileiro, ritmo mais ridículo e grotesco que já apareceu na face da terra, promovendo a volta do guturalismo troglodita dos tempos da pré-história, em contradição à evolução tecnológica.

Mas como algo explicitamente ridículo, tosco e grotesco, criado por pessoas sem o mínimo de discernimento e informação cultural, está tendo esta aceitação toda em uma sociedade que pensa estar "evoluída"? Só mesmo a custa de muito dinheiro (suborno?) para que essa atrocidade cultural seja possível.

Já foi denunciado várias vezes por artistas sérios o fato de que a CIA esteja disposta a destruir a cultura brasileira. O Brasil, embora muitos finjam ignorar isso, é um potencial inimigo dos EUA, por ter características muito parecidas com o país que pensa em governar o mundo. Acredito que a longo prazo os EUA possam entrar em uma guerra contra o Brasil, mas ainda não há indícios disso, embora não falte motivos.

Dominar culturalmente é mais eficiente que dominar politicamente

Os EUA instalaram a ditadura militar no Brasil na tentativa de imobilizar a população. Não conseguiu. Com a redemocratização do país, em 1985, era necessário encontrar outro modo de impedir que o povo brasileiro evoluísse e passasse a pernas nos americanos. Foi permitido a Antonio Carlos Magalhães, o famoso ACM, então ministro das comunicações, a vender concessões de rádio e TV para um monte de gente sem vocação para meios de comunicação, que só queria ganhar dinheiro com isso. 

E isso fez com que nos anos 90, a música de má qualidade, conhecida como "brega" se expandisse e ganhasse força. Não vou ficar alongando sobre o que aconteceu, mas em 1993 foi construído o cenário que acabou se resultando nessa miséria cultural que vemos hoje. 

Os poderosos então, descobriram que manipular a população através da cultura era mais eficiente do que através da política. Na ditadura militar, muito sangue foi derramado e a população continuava se conscientizando. Já a manipulação através da cultura não desperta desconfiança, já que há uma aura positiva de alegria e diversão em torno dela, que esconde facilmente todo o lado triste da anti-democratização.

Manipular através da cultura é eficiente porque, além de não despertar desconfiança (a não ser em pessoas altamente esclarecidas), interfere diretamente no cotidiano das pessoas, impedindo que algum germe intelectualizante se desenvolva. Tudo isso sendo feito discretamente e com atividades descontraídas, para ninguém parecer vilão.

E o que garante o sucesso desse tipo de manipulação é fazer tudo parecer que a cultura não está sendo destruída. Impedidos de raciocinar plenamente, as pessoas se tornam passíveis de aceitar teses absurdas e contradições sem contestar e o que é pior: considerar a burrice como nova forma de inteligência.

Cultura fraca gera povo fraco

Empresas estrangeiras não medem gastos para que a cultura dos países emergentes como o Brasil se enfraqueçam. Colocar tendências alienantes como nova forma de cultura, junto com um conjunto de valores sociais que desestimulem o intelecto e o altruísmo verdadeiro, tem sido a mais bem sucedida forma de dominação já feita. Tem atingido os objetivos de dominadores sem precisar derramar uma só gota de sangue. E como falei, a aura positiva que envolve o domínio cultural ajuda a desviar suspeitas. Por isso mesmo, muita gente vai ler esta postagem achando que eu estou inventando. Mas o que eu digo é resultado da montagem de um quebra cabeças macabro que quase todos insistem em ignorar.

Tradicionalmente se sabe que cultura fraca torna o povo fraco. O jornalista David Tame havia dito isto. Embora eu ficasse pasmo ao pesquisar no Google as expressões "cultura fraca" e "povo fraco" e não encontrasse quase nada a respeito, além do que eu e meu irmão Alexandre (do Mingau de Aço) havíamos escrito. Triste viver em um país que enfraquece a sua cultura pensando estar fortalecendo-a.

E sabendo que povo inculto é mais fácil de manobrar, as empresas dos EUA sob orientação da CIA, principal interessada no enfraquecimento das nações emergentes,  não tardaram em investir em projetos que deturpem os movimentos culturais, substituindo qualquer forma de cultura intelectualizante por formas alienadas, mas protegidas com um discurso falso que as faça parecer tão intelectualizadas que as formas que foram derrubadas. Fundações como a Ford, a Rockfeller e especuladores financeiros como George Soros atuam sob as orientações da CIA investindo muita grana no parasitismo cultural de países emergentes, sobretudo o Brasil, enriquecendo qualquer um que esteja disposto a aniquilar a cultura brasileira.

Por isso muitos doutores, sobretudo antropólogos, sociólogos e historiadores são remunerados em seus projetos de pesquisa para que criem um discurso que tente criar teses absurdas que tentem provar, através de um discurso rebuscado e prolixo que as manifestações alienadas são "na verdade", formas de "nova intelectualização cultural", como se não precisasse ter discernimento e informação para ser inteligente.

Esses argumentos servem para dar um caráter de seriedade a algo claramente patético que seria inofensivo se não fosse levado a sério. Mas levar a sério é a meta, já que isso faz com que as formas de cultura mais legítimas sejam abafadas e soterradas por essas formas alienantes. E bingo! A dominação da população está feita, transformando as pessoas em um monte de carneirinhos que aceitarão passivamente os abusos dos poderosos e a manutenção dos problemas cotidianos gerados por esses abusos.

Domínio cultural não é só música, TV e cinema. É tudo

Claro que no "funk" brasileiro isso é mais evidente. mas o domínio cultural não se restringe a isso. Nem se limita a música. Drogas lícitas e ilícitas, esportes e religião também fazem parte do pacote de manipulação através da cultura, pois são todas também formas de manifestação cultural. 

É praticamente impossível haver algum brasileiro que não seja manipulado em alguma manifestação. Torcedores de futebol que odeiam "funk", ateus que enchem a cara, esquerdistas iludidos pela decadência cultural, são exemplos de que não existe algum totalmente imune a manipulação ideológica. Sempre há alguém disposto a agradar o sistema. Praticamente somente eu, meu irmão e pouquíssimas pessoas estão dispostas a romper não com uma e outra, mas com todas as formas de manipulação.

"Funk" carioca, o rimo do sistema

E por ser a mais grotesca forma de "cultura", derrubando de uma só vez todos os valores sérios que uma sociedade deveria ter, o "funk" é o carro chefe no auge na dominação cultural das massas, pois garante a alienação total da humanidade, através da confusão entre "grosseria" com "rebeldia", fazendo todos pensarem que estão indo contra o sistema, mas fazendo tudo o que ele quer.

Esse falso rebeldismo, sem causa e sem consequência, acaba por substituir a verdadeira rebeldia, deixando tranquilos os poderosos que poderão enriquecer facilmente às custas de uma sociedade injusta, problemática e cada vez mais burra e grotesca, jogando fora no lixo todo o aprendizado que tivemos durante séculos e séculos, achando que o homem do futuro é um troglodita ainda mais imbecilizado que os primeiros homens que habitaram esse planeta.

A exaltação do "funk" brasileiro é um retrocesso imenso que ira nos cobrar futuramente um valor muito caro. Quem viver (e eu não viverei para ver isso), chorará.

sábado, 2 de novembro de 2019

Música linda, mulher linda, longe de nós

Hoje é finados e resolvi mostrar um video com uma das músicas que eu mais amo e que foi gravada por uma belíssima cantora folk que infelizmente não está entre nós desde 1997.

A cantora é Nicolette Larson e a música, Lotta Love (muito amor). composta pelo gênio canadense Neil Young. A gravação é de 1980 (há exatos 30 anos) e eu tinha o álbum original (alô, Warner, quero o cd!) em vinil, comprado em 1990, 10 anos depois do lançamento. A música me traz muitas ótimas lembranças do interior do RJ, pois morava lá na época em que a música foi lançada. Eu tinha apenas 9 anos de idade.

Vendo esse vídeo, é de entristecer saber que uma mulher tão bonita e cantora competente vive na outra dimensão da vida. Nicolette, estamos com saudades!

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

A corrupção nos tempos da ditadura

OBS: O analfabetismo histórico-político que caracterizou os movimentos anti-esquerda no país cometeu uma série de equívocos. Com raiva dos acertos dos governos petistas, mas ao mesmo tempo com desespero em relação a isso, os manifestantes se perderam na hora de oferecerem uma alternativa que pudesse resolver os problemas resultantes da incompetência administrativa de alguns gestores governamentais a sabotar os governos petistas.

Muitos propuseram a volta da Ditadura Militar (suavizada pelo pomposo nome de "Intervenção Militar"), para tentar resolver os erros governistas. Se esquecem os manifestantes que a Ditadura Militar foi a pior época política do Brasil e que a corrupção era muito forte, pois além de silenciosa, era por muitas vezes necessária, para que os generais governantes e os empresários patrocinadores  sim, a ditadura surgiu a pedido de grandes empresas, lideradas por gente "de bem", que produz o que você consome no dia-a-dia - pudessem ter os seus interesses satisfeitos.

Este texto abaixo merece ser lido com atenção para que todos entendam de uma vez só que eliminar a democracia sempre é a pior opção para resolver qualquer problema de origem política.

A corrupção nos tempos da ditadura

Por Paulo Fonteles Filho, Blog do Paulo Fonteleles

Na atualidade, os áulicos da direita promovem raivosa cruzada contra as forças progressistas e, patrocinados pela mídia conservadora, trombeteiam que o período ditatorial fora pródigo no combate à corrupção e aos corruptos. Acontece que, com os poderes Legislativos e Judiciários aviltados como instrumentos de fiscalização e punição, a perversão dos recursos públicos e as transgressões do poder aumentaram exponencialmente no período mais sangrento do Regime Militar.

É mais que sabido que a malversação dos recursos que pertencem a toda a sociedade não decorre apenas de graves falhas individuais, mas, sobretudo, têm em suas raízes as causas de seu tempo e os aspectos políticos, econômicos, sociais, culturais e ideológicos que demarcam e tipificam cada regime político. A sangria e o desmazelo com o que é público, ou seja, de toda a sociedade, se desenvolvem de acordo com as peculiaridades de cada regime e, fundamentalmente estão ligados à quadra histórica dessas experiências.

No país tupiniquim a corrupção sempre esteve presente e alcançou dimensões gigantescas durante mais de vinte anos de Regime Militar, evento histórico marcado pela censura, assassinatos, torturas, exílios, entrega das riquezas nacionais e desaparecimentos forçados.

Mas o alcance da corrupção também teve, em seus horizontes, aquilo que ensina a historiadora Herloisa Starling, na medida em que ela “ (...) se inscreve na natureza do regime militar também na sua associação com a tortura – o máximo de corrupção de nossa natureza humana. A prática da tortura política não foi fruto das ações incidentais de personalidades desequilibradas, e nessa constatação reside o escândalo e a dor. A existência da tortura não surgiu na história desse regime nem como algo que escapou ao controle, nem como efeito não controlado de uma guerra que se desenrolou apenas nos porões da ditadura, em momentos restritos.

Ao se materializar sob a forma de política de Estado durante a ditadura, em especial entre 1969 e 1977, a tortura se tornou inseparável da corrupção. Uma se sustentava na outra. O regime militar elevou o torturador à condição de intocável: promoções convencionais, gratificações salariais e até recompensa pública foram garantidas aos integrantes do aparelho de repressão política. Caso exemplar: a concessão da Medalha do Pacificador ao delegado Sérgio Paranhos Fleury (1933-1979)”.

A corrupção assegurou aos torturadores, além da cumplicidade, a legitimação de seus resultados porque, para a tortura funcionar é decisivo que na máquina judiciária existam servidores públicos dispostos a dar legalidade a processos estapafúrdios, confissões falsas, laudos periciais forjados e autópsias fraudadas. Ainda, na miríade da mais covarde das violências, nunca haveremos de esquecer o financiamento de todo esse processo cruento, notadamente realizado por grandes empresários, como Boillensen, sempre dispostos em fornecer dotações extra-orçamentárias para que a máquina da repressão política estivesse sempre azeitada para triturar opositores. Com base nesse tipo de financiamento é que surgiram o fenômeno dos grupos de extermínio, como a Scuderia Le Coq, de São Paulo.

Um dos aspectos para o agravamento da corrupção, seja na máquina de suplício instalada, seja pela roubalheira - termo chulo que explica - foi à redoma protetora sob a qual, os generais e seus aliados civis exerceram o poder no Brasil.

O fato é que as decisões mais importantes da nacionalidade e dos destinos de todos os brasileiros passaram a ser de competência exclusivíssima de um seleto grupo de militares, políticos, grandes empresários e burocratas que, com todos os canais de respiração da vida democrática açodados, atuaram, também, para transferir as riquezas produzidas pelos trabalhadores brasileiros para as mãos de bem poucos, sejam eles nacionais ou estrangeiros.

Ocorre que a imprensa, mesmo os apoiadores de primeira hora da quartelada de 64 como é o caso da Folha de São Paulo, fora submetida à censura durante anos e, no momento em que a ditadura experimentava seu período mais ufanista, cuja propaganda revelava um crescimento econômico de 10% ao ano no curso do sanguinário governo de Garrastazu Médici (1969-1974), desconfiar e fiscalizar os governantes, exigir prestações de contas e indicar abusos na administração estatal era considerado crime contra a ‘segurança nacional’, passível às mãos de febrentos verdugos.

No entanto, com a distensão política do regime no período do governo Geisel (1974-1979), as ‘tenebrosas transações’, como ensina o samba libertário de Chico Buarque de Holanda, vieram à tona e a opinião pública começou a perceber qual o feitio dos dirigentes brasileiros de então. Porém, mesmo depois de iniciado o processo de ‘abertura’ do governo Figueiredo (1979-1985), a fiscalização social sobre o poder público permaneceu indubitavelmente limitada.

O curso dos anos indicou que o Regime Militar promoveu um conjunto de reformas nos poderes Legislativo e Judiciário no sentido de que tais esferas se domesticassem e, inofensivas, jamais poderiam atuar enquanto instrumentos de fiscalização ou mesmo promover a punição dos representantes do poder estatal ou da iniciativa privada flagrados em atos lesivos aos interesses coletivos.

Não obstante às crescentes denúncias, que estouraram a partir de 1974, o número de pessoas punidas e de casos esclarecidos foi absolutamente pequeno, assim como nenhum integrante do alto escalão do poder fora punido, mesmo diante de escândalos de alta-voltagem como o da Capemi (Caixa de Pecúlio dos Militares), que ganhou concorrência suspeita para a exploração de madeiras nobres no Pará, além dos desvios da ponte Rio-Nitéroi e da Rodovia Transamazônica.

Importante indicador das medidas ‘defensivas’ estabelecidas pelo regime despótico, que ensejaram tranqüila desenvoltura de seus próceres pelo submundo das negociatas e irregularidades administrativas é o número de requerimentos para a constituição de Comissões Parlamentares de Inquérito encaminhados à mesa da Câmara dos Deputados até 1968, crescentes, mas que, com a Reforma Constitucional de outubro de 1969, promovida pela Junta Militar que sucedeu Costa e Silva (1967-1969) determinou seriíssimas restrições aos instrumentos legais de investigação parlamentar.

Além disso, com a edição do Ato Institucional n° 5 (AI-5), em dezembro de 1968, o Congresso sofreu inúmeras cassações contra parlamentares atuantes e dispostos, mesmo nas limitadas condições da minoria oposicionista, em enfrentar o regime tirano. Assim, depois de mais de duas décadas de intensa atividade investigativa, entre 1946 até 1968, a Câmara dos Deputados ficou os anos do ‘milagre brasileiro’ (1969-1972) sem instalar sequer uma CPI.

Somente após 1975 é que a Câmara retoma, timidamente, seu papel investigativo, sobretudo depois da vitória do MDB no pleito de 1974: uma CPI para apurar irregularidades no Instituto Nacional de Previdência Social (INPS).

Apenas em 1980, entretanto, é que foi aprovada uma CPI requerida pela oposição, o famoso caso Lutfalla, envolvendo o então governador paulista, Paulo Maluf. O escândalo - investigado pela Comissão Geral de Inquéritos (CGI), instrumento criado pelo Poder Executivo - girava em torno de empréstimos realizados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDE) as empresas de Maluf, em crise falimentar.

O embaraço principal para os mais estreludos generais era o fato de que aquele ex-governador, reconhecidamente corrupto, se utilizava de enorme influência junto aos militares para emplacar interesses obscuros.

As obstruções governistas e as manobras regimentais, próprias da luta parlamentar, não foram os únicos fatores de entrave ao pleno funcionamento das CPI’s, seja no caso Lutfalla, seja em outros. 
Em alguns casos, quando militares foram convocados para prestar depoimentos, estes se recusaram a dar qualquer informação relevante, como o ocorrido com o coronel Raimundo Saraiva, que depôs na CPI da Dívida Externa de 1983. O caso, esquecido no curso de mais de trinta anos, indicava o envolvimento do ministro Delfim Netto em transações irregulares com banqueiros franceses. Naqueles dias o coronel Saraiva era embaixador do governo Geisel em Paris.

Em outro caso, como o do general Newton Cruz, instado a dar esclarecimentos na CPI da Capemi, lançou mão da legislação que o protegia e não foi depor.

O Poder Judiciário que, em última instância poderia ter sido o instrumento de controle social sobre o poder, os bens e o erário público também sofreu limitações profundas, como foi à reforma do Judiciário de 1977, embutido no chamado Pacote de Abril. O produto do intento, no essencial, fez concentrar a força do judiciário na esfera federal.

O Supremo Tribunal Federal (STF), cujos juízes são nomeados pela Presidência da República aumentou seu poder em prejuízo dos tribunais estaduais e o Procurador Geral da República, representante do Executivo junto ao Judiciário, ampliou as suas atribuições. Qual resultado senão o açodamento do Judiciário e o aviltamento de suas funções? Em última instância, o Pacote de Abril deu ao despotismo militar o poder de interpretar as leis segundo suas conveniências.

Os que conspiraram para depor o governo legítimo de João Goulart (1961-1964), com o apoio a CIA através do Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD) e do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), assim o fizeram sob o discurso de combater o comunismo e a corrupção. Ocorre que, os homens que tomaram o poder em 1964, utilizaram-se de métodos terroristas para combater qualquer resistência democrática, mas, na luta contra a corrupção, pouco ou nada fizeram.

Referências Bibliográficas:

- AVRITZER; BIGNOTO, GUIMARAES, STARLING (Orgs) Corrupção ensaios e críticas, Editora UFMG, 2008.
- FICO, Carlos. Como eles agiam: os subterrâneos da ditadura militar. Rio de Janeiro: Record, 2001.
- GASPARI, Elio. Coleção As Ilusões Armadas. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
- RIBEIRO, Renato Janine. A sociedade contra o social: o alto custo da vida pública no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

* Paulo Fonteles Filho é membro do Grupo de Trabalho Araguaia do Governo Federal e Vice-Presidente do Comitê Paraense pela Verdade, Memória e Justiça.

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