sábado, 29 de fevereiro de 2020

A confiança cega nos meios de comunicação

ENCORPANDO A VITAMINA: Este texto eu escrevi anos atrás e o tema ainda está valendo. Embora no texto eu não falei muito da influência política da mídia corporativa brasileira que conseguiu enganar toda uma população a ponto de fazê-la lutar contra os seus próprios direitos.

A grande mídia sempre foi a porta-voz do grande empresariado. Não somente os donos mas também os patrocinadores exigem que a grande mídia somente veicule informações sob o ponto de vista das elites, o que frequentemente consegue distorcer a informação difundida, escondendo a realidade do receptor da tal informação.

A mídia alternativa, aquela que não é sustentada por gigantescos empresários, tem se esforçado em divulgar a realidade como ela é, mas não somente os recursos mas também o alcance dela é muito reduzido. Há muita gente no Brasil que só tem a grande mídia como única fonte de informação, pois ela, cheia de recursos, consegue penetrar nos lugares mais longínquos e isolados do país.

É preciso que a educação prepare o individuo brasileiro a ão engolir a informação como ela é difundida, mas compará-la com os fatos e com a lógica. Se estivéssemos acostumados a pensar - e o brasileiro sempre foi desestimulado a pensar, embora gostasse de ser chamado de inteligente - analisaríamos tudo que nos chega aos nossos olhos e ouvidos e não aceitaríamos quaiquer informações vindas de um meio que ainda consideramos confiável, mas que atende plenamente os interesses particulares de uma classe de que a maioria dos brasileiros não faz parte.

A confiança cega nos meios de comunicação

Marcelo Pereira - Planeta Laranja, 24/11/2014

Não é a toa que chamam a imprensa de "quarto poder". Não somente pelo poder político que os donos dos meios de comunicação possuem, como pelo fato da imprensa ter se transformado em uma "instituição respeitável", quase como uma espécie de "sinônimo" de democracia. A democracia só é possível, de fato, na Anarquia, mas por representar uma ideia nobre e benéfica, a população resolveu pegar emprestado e "apelidar" a imprensa com esse nome.

Trocando em miúdos: encaixotaram a utópica ideia de que a democracia só é possível com a existência da liberdade de imprensa, como se quem controlasse a imprensa fosse gente como eu, você e seu cachorrinho de estimação. Não é.

Como seria lindo se houvesse uma imprensa que nos representasse. Mas isso não é a realidade. Quem possui e controla a imprensa são empresários com sede de poder político. Agem como políticos, sim, mas da iniciativa privada. Agem como políticos, pensam como políticos, mas sua única diferença é que o salário deles não vem dos impostos que pagamos e sim dos lucros que eles obtém graças a venda de seu maior produto: notícias.

Tratar notícias como mercadoria compromete muito a verdade e a imparcialidade que deveriam ser características da imprensa. E o produto, para vender deve ser moldado - alterado - para que possa ser aceito e que o receptor possa "comprá-lo, garantindo o lucro do emissor da notícia. Estamos cansados de saber que verdade não rende dinheiro. Que se divulgue não os fatos e sim aquilo que os donos da mídia querem que o povo saiba.

Voltamos aos tempos do leitor de pergaminho medieval (Idade Mídia?) contratado pelo rei a noticiar as coisas do ponto de vista das elites dominantes. A imprensa, de fato, é a voz do dono e acreditar que ela representa a população é de uma tolice pueril que já deveria ter desaparecido de nossas mentes quando completamos 7 aninhos de idade.

Como achar que empresários riquíssimos e com poder político suficiente para mandar em presidentes da república (exceto nas "ditaduras" que resolveram disciplinar a atividade midiática em seus países) possam representar os interesses do mais rudimentar integrante da plebe social?

Curiosamente quem defende a ideia de que a imprensa nos representa são os defensores do Capitalismo e das ideias de direita, que tratam os poderosos donos dos meios de comunicação como se fossem trabalhadores tão sofridos quanto o mais humilde faxineiro. Com a onda direitista surgindo em nossa sociedade nos últimos anos, a confiança cega na imprensa tem aumentado bastante, após uma vertiginosa queda durante longo tempo. Reaprendemos a confiar nas mentiras que a mídia, nossa reguladora social, controlada por gente que não quer o nosso benefício, diz.

Há muito a imprensa NÃO nos representa. A mídia age como regulador social e a liberdade sem freio da imprensa é a liberdade do poder de manipulação social. Talvez queiramos que a imprensa seja livre para que possamos continuar sendo manipulados. Para que nossas ilusões possam se manter intactas, freando a evolução social, nos mantendo na eterna infância que permite que vivamos num mundo de faz-de-conta, onde grandes homens de negócios, ignorantes de nossa existência, possam nos representar na hora de exigirmos nossos direitos.

Até porque, seja por preguiça, seja por tradicional modismo, recusamos a querer lutar pela resolução de nossos problemas, preferindo entregar a outrem a responsabilidade de melhora as nossas vidas. E ninguém melhor que os donos da imprensa para "lutar" pelos nossos sonhos (leia-se ilusões).

Não confio na imprensa e sou a favor de seu controle. Controle não é censura e sim o ato de disciplinar a responsabilidade midiática. Tolice acreditar que dar liberdades a um poderoso empresário de comunicação é dar liberdade à sociedade. Até porque a liberdade do empresariado limita a liberdade da população e vice-versa. Alguma coisa precisa ser feita para conter os abusos empresariais dos donos da mídia.

Com o fim da ditadura militar, perdemos o verdadeiro sentido da palavra democracia. A mídia quer nos convencer de que a democracia é a própria mídia e pede para que lutemos por ela, pensando estar lutando pelos interesses da coletividade. Mas no fim, um empresário trancafiado em um escritório luxuosos e refrigerado em sua gigantesca mansão, terá a sua privilegiada condição de vida ampliada por causa de milhões de ingênuos a acreditar que a empresa dele seria a porta voz de nossos interesses. Povo tolo. 

A imprensa é o nosso Don Quixote. Move moinhos, mas não resolve problemas. Mas é considerada a nossa maior "salvadora". Mesmo que seja para nosso mal.

Sobra verbo contra Bolsonaro, mas ainda falta povo

OBS: Este texto, publicado pelo 247 - site que recomendamos plenamente - é um dos melhores já publicados pelo assunto. Bolsonaro realiza um festival de estragos e ofensas e as ditas esquerdas não movem um só dedo para arrancá-lo do poder. Se limitam a defender causas identitárias e falar mal de Bolsonaro pelas costas. Do jeito que Bolsonaro gosta. Afinal, falar mal dele o coloca em evidência.

As esquerdas brasileiras odeiam ruptura, pois são bem conservadoras. Além de manter velhos paradigmas sociais - são adeptos do casamento, da religiosidade e daquela "saudável" conversinha de bar, entre outros costumes antiquados - as esquerdas ainda confiam nas instituições e por isso insistem em esperar delas alguma iniciativa de retirada do ogro militarista et caterva do poder.

Mas ninguém se mexe. As esquerdas esperando algo das instituições. As instituições, sob o comando do Grande Capital, esperando as ordens deste. O Grande Capital, agarrado ao Capital Estrangeiro, também nada faz. E o povo brasileiro segue tentando sobreviver em um cenário de desolação típico de um Mad Max. 

É preciso cobrar das esquerdas alguma ação, pois a direita está agindo. É fácil para uma sociedade mal escolarizada e mal informada acreditar nas mentiras ditas pela extrema-direita, que contradizem realidade e ficção, fazendo muita gente acreditar que um ogro sádico ainda tem condições de beneficiar a população brasileira e fazer o país crescer.

Bolsonaro já está montando seu exército de apoio. As esquerdas assistem a tudo pasmas, sem saber o que fazer. Dá para perceber quem ganhará esta guerra. E não será o povo brasileiro.

Sobra verbo contra Bolsonaro, mas ainda falta povo

Moisés Mendes - Brasil 247

Quase todas as manifestações dos contrariados com a ameaça de golpe são protocolares. As exceções são, apenas pelo tom mais alto, como sempre foram, as que partem das esquerdas.

Não há variação relevante na retórica e na capacidade de dizer e fazer algo mais contundente. Porque falta às esquerdas o elementar numa hora dessas, a vontade de ação do povo.

O povo saiu do Carnaval exausto de tanto protesto nas escolas de samba, nos blocos, nos trios. Mas vá contar com o povo para protestos mais consequentes. Por enquanto, parece que não dá. É a realidade que incomoda as esquerdas desde antes do golpe de agosto de 2016.

O que o Brasil pensa de Bolsonaro já foi dito tantas vezes que há cansaço também com a repetição. Bolsonaro já foi alvejado por todo tipo de adjetivo. Já disseram o que é preciso dizer e como agir em defesa das instituições. Sobram verbos e adjetivos.

É possível antecipar, a cada crise, as frases feitas dos que reagem e são quase sempre os mesmos. Os que produzem os panos, os que passam os panos, os que pedem panos emprestados e os que, como minoria, tentam rasgar os panos.

Bolsonaro sabe que pode até distribuir um vídeo com a convocação para o dia 15, para que seu gesto funcione como teste. Poderia ter terceirizado a tarefa, para eliminar riscos. Mas Bolsonaro não avalia riscos como o político comum acha que deve avaliar.

O vídeo foi passado adiante porque até a ideia do golpe funciona como trollagem. Bolsonaro sabe que a oposição (e os que se aliarem às reações, como Fernando Henrique) não conta com o que ele ainda tem.

Bolsonaro dispõe da fidelidade de pelo menos 20% do eleitorado e imagina que esse contingente pode funcionar por enquanto nas redes sociais como claque da ideia de golpe. Dependendo do teste, ele pode avançar mais um pouco.

Bolsonaro sabe que os indignados não conseguem dimensionar sua base popular. Acham que contam com as instituições e com a prevalência da sensatez. Mas não inspiram e não mexem com o povo.

Falta às esquerdas daqui o que sobra no Chile. Assustar, meter medo, incomodar e ameaçar derrubar. Mas com a fúria das ruas, mesmo com repressão.

Anunciam no Chile que as manifestações de março serão as mais grandiosas desde o começo dos protestos, em outubro. E que Sebastián Piñera, hoje com apenas 6% de aprovação, não resistirá em meio à campanha do plebiscito que decidirá pela convocação ou não de uma Constituinte.

Aqui, a última grande manifestação contra um governo foi a marcha contra Michel Temer, na noite da divulgação da conversa do “tem que manter isso aí” com Joesley Batista.

Foi no 17 de maio de 2017.O povo correu às ruas em todas as capitais, porque achou que derrubaria o habitante do Jaburu. Não derrubou, e no dia seguinte os que foram de novo às esquinas, para repetir a dose com mais força, encontraram-se com meia dúzia de amigos. Foi trágico.

Desde então o povo dito progressista só promove aglomerações em redes sociais, feiras de produtos orgânicos, marchas da maconha, paradas gays e outras manifestações identitárias. É a realidade. É o drama que constrange e consome as esquerdas.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

O mito que consagra Niterói como uma cidade perfeita

Niterói é uma cidade estranha. Nem os de dentro, nem os de fora conhecem a cidade. Os de dentro são compostos por uma classe média que só vive fora e os trabalhadores humildes que moram em São Gonçalo. Os de fora são todos que não tem o seu cotidiano envolvido com a cidade. 

Por ser uma cidade-dormitório (usada apenas para as pessoas descansarem ou dormirem), a mesma acaba se tornando uma cidade-fantasma com gente, que age como zumbi sem saber o que fazer.

Mas a fama de Niterói, que hoje tem a oportunidade de se alegrar com um supérfluo título no Carnaval, é a de uma cidade perfeita, onde tudo funciona impecavelmente e nada mais precisa ser feito para melhorar. Bom para o inerte prefeito, que não precisa mexer naquilo que aparenta estar "perfeito". Afinal, o que melhorar em uma cidade que "já possui tudo"?

Muita gente de fora comenta coisas maravilhosas sobre a cidade que ainda vivo. Mas aqui nada tem de maravilhoso. Por ser uma cidade dormitório, quase tudo é escasso. Não raramente você depende de atravessar a ponte para conseguir algo. E atravessar a ponte é tarefa cara, exigindo no mínimo R$15,00 para ir e voltar. Já pensou gastar isso todos os dias, durante um mês? São cerca de R$ 450,00  de seu mísero salário que vão para o espaço.

A cidade tem um cacoete bem peculiar: na hora de criar um plano de melhoria para a cidade, faz um projeto maravilhoso, pomposo mas com soluções realmente eficientes. Na hora de por em prática tal projeto, o faz de forma rudimentar e precária, saindo muito aquém do planejado. Em 2010 fizeram um belíssimo projeto para a cidade que estaria pronto em 2014. Hoje, em 2020, a cidade está capenga, suja, feia e com serviços bastante precários.

O povo daqui age como zumbi, como se não se importasse com a decadência da cidade, que usou uma pesquisa malfeita (ou falsa?) de IDH para se fingir de perfeita, a ponto de ser conhecida pelos não-niteroienses como "a Curitiba do Sudeste", o sumo do sumo da perfeita perfeição. 

Insensíveis e elitistas, os niteroienses são bem alienados e preferem fugir da realidade do que resolvê-la, seja através de viagens para outros lugares, seja através da tríade futebol-cerveja-religião, que ajudam bastante a fugir do mundo real. 

Na verdade, os incomodados que se mudem. Eu, como incomodado, já preparo as malas para sair de Niterói. Ainda mais que a vitória no Carnaval vai fortalecer a ilusão de perfeição e criar uma estagnação crônica que impedira o alcance de algum progresso para a cidade. Afinal, venceu no Carnaval, para quê vencer no resto?

Uma pena ver que a cidade que já foi um dia capital de estado, se encontrar tão precária, mas fingindo estar mais que prefeita. Uma cidade em completo abandono, pelas autoridades e também pelo povo.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Escola niteroiense vence o Carnaval falando sobre Salvador

Eu não sou muito fanático por Carnaval, apesar de gostar um pouco. Não acompanhei as escolas de samba, como faço todos os anos, pois aproveito os festejos momescos para fazer minhas coisas pessoais. Mas estava torcendo pela Mangueira, a escola mais popular do Brasil, por causa do tema que contestava mitos religiosos. Embora normalmente tenha simpatia pela Portela.

Mas a Mangueira nem chegou perto. O tema religião é tabu no Brasil e muitos seguidores não admitem quaisquer alterações na interpretação dos dogmas, que eles acreditam serem verdadeiros, por mais surreais que possam parecer. Pena. A disputa pelo primeiro lugar ficou entre a Grande Rio, de Duque de Caxias e a Viradouro, de Niterói, cidade onde ainda moro, por enquanto.

Eu nem sabia qual era o tema do samba-enredo deste ano da Viradouro até saber da vitória tensa (disputou pau-a-pau, com oscilações, com a Grande Rio) da escola, que não ganha há 23 anos. O tema, pasmem, foi sobre as mulheres ex-escravas de Salvador, Ganhadeiras de Itapuã. Niteroienses falando sobre Salvador! O que eu tenho com isso? Na verdade, tudo.

É uma coincidência uma escola de samba de Niterói ganhar um campeonato de escolas de samba falando sobre Salvador, justamente quando estou prestes a sair de uma cidade para ir para outra. Estou arrumando a minha vida para favorecer o meu retorno a Salvador, onde vivi entre 1990 e 2008, por motivos pessoais, facilitando interesses particulares meus.

O povo que mora em meu bairro gritou com satisfação pela vitória da escola. Fiquei feliz com isso, embora não estivesse torcendo por ela, por desconhecer seu enredo. Mas deveria ter conhecido, pois seu soubesse do tema, teria torcido pela Viradouro.

Aliás, foi um enredo que na verdade, foi tão politizado quanto os das outras escolas mais destacadas,  apesar de não tão impactante. Pois a Viradouro optou por se manifestar contra a escravidão, que voltou agora sob o nome de "reforma trabalhista", embora seus defensores insistam em desfazer a associação entre os termos. Nossas elites são tão escravocratas quanto os senhores de engenho do Brasil colonial, afinal são formadas por herdeiros e/ou sucessores deles.

Interessante esta coincidência de ver uma escola niteroiense falando sobre Salvador. Seria uma forma gentil de despedida para mim, após viver cerca de 11 anos - na fase recente. Já morei em Niterói entre 1972-1977, 1981-1990 e entre 2008 e possivelmente 2020. E me encontro na esperança de voltar a terra que eu tanto subestimei e que ajudou outra cidade a ganhar o Carnaval. Valeu, Viradouro!

A paranoia da anti-pedofilia

O tema pedofilia é um assunto muito delicado. Concordamos que a infância é uma fase essencial e deve ser respeitada. Mas não devemos confundir infância com adolescência e muito menos a atração por crianças com atração por jovens superdesenvolvidas. São coisas muito diferentes.

Por ser um assunto delicado, vamos tratá-lo com um certo detalhismo, para que tudo fique claro. Mas parece que o conceito da palavra pedofilia mudou e ninguém percebe. O que significava atração por crianças ou por elas aparentadas, virou atração por menores de idade. Um erro semântico que tem causado muita polêmica e levando muitos inocentes aos tribunais.

Além da confusão com o significado da palavra pedofilia, em vários países, inclusive no Brasil, a legislação não separa crianças de adolescentes. Para a lei, um rapagão de 17 anos, na beira da maioridade, é tão ingênuo quanto um bebê de 2 anos de idade. Pasmem, é o que a lei diz e até agora não apareceu alguém disposto a corrigir este grave erro. E este erro reforça as polêmica que envolvem pedofilia.

O caso Millie Bobby Brown

Um exemplo de toda a polêmica em torno do que signifique ou não pedofilia tem sido o caso envolvendo a admiração pela jovem atriz inglesa Millie Bobby Brown, protagonista do seriado estadunidense Stranger Things.

Millie é muito bonita e charmosa e tem atraído a admiração de muitos fãs, vários bem mais velhos que ela. A polêmica em torno dela continua, mas ela nada tem de criança. A atriz completou na semana passada, 16 anos, que é o início do processo de maioridade nos países de língua inglesa. 

Nesses países, o processo de maioridade é lento e se dá através da conquista gradativa de direitos. Brown, por exemplo, se encontra em condições legais de dirigir carros. Lembrando que a lei, tanto do Brasil como as leis dos países de língua inglesa, autorizam menores de idade a se envolver com maiores desde os 14 anos, com autorização dos pais.

Mesmo assim, a atriz é tratada como se fosse uma menininha, embora seu corpo tivesse se desenvolvido com uma rapidez assustadora. Concordamos plenamente que seria pedofilia se Millie Brown tivesse sido admirada no começo de sua aparição no seriado, quando tinha realmente aspecto de criança. Mas hoje ela parece uma adulta, ainda não sendo porque a lei não deixa. 

Mas a atriz, que namorou várias vezes e voltou a namorar, certamente sabe sobre sexo muito mais que vários integrantes da equipe que mantém este blog. A não ser que para a legislação, ela arrume namorados para brincar de casinha e contar 1-2-3. Na verdade ela namora para "brincar de médico", o que prova que mentalmente, ela não é nenhuma pirralha.

Nanismo raro que atrofia o desenvolvimento

Por outro lado, a lei não vê problema nenhum em admirar um adulto que por problemas orgânicos chegue à vida adulta com aspecto de criança. Há doenças graves que impedem o desenvolvimento físico e mesmo raro, já existem vários casos conhecidos de pessoas que chegam à vida adulta com aspecto de criança. Um deles, inclusive, mostrou uma trintona com porte físico de um bebê (!).

O seriado American Horror Story, cuja cada temporada é uma estória totalmente diferente, teve uma temporada chamada Freaks, passada em um circo de aberrações, em que mostravam pessoas com deformidades como atração, uma crueldade comum no início do século XX, período em que se passa a estória.

Para a temporada, foi contratada uma atriz de origem indiana que sofre uma forma rara de nanismo que atrofia o seu desenvolvimento físico. Se trata de uma mulher de quase trinta anos, que apesar de bonita, possui aspecto de uma criança de 6 anos. No seriado, ela interpreta uma anã.

Como o significado de pedofilia mudou, se lembrarmos que a atriz tem quase 30 anos, na interpretação da lei, não haveria problema algum em admirá-la, mesmo ela tendo o aspecto de uma criança, o que caracterizaria pedofilia no significado antigo.

Confrontando os dois casos, para a lei, Millie Brown com o seu corpo de adulta aos 16 anos, seria considerado um caso de pedofilia. O da atriz de 25 anos que parece ter 6 anos, não. Pois esta atriz estaria em condições mentais de entender o que é sexo. 

De fato tanto Millie quanto esta atriz entendem quando se fala sobre sexo, mas a atriz que parece ter 6 anos representa melhor a fantasia por crianças do que a adolescente inglesa.

Para conservadores, sexo é pior que violência

A polêmica sobre pedofilia ainda deve continuar, pois o novo significado - atração por menores de idade - se consagrou e encontrou coerência com a onda de neo-conservadorismo que assola o mundo atual, na tentativa de impedir o prometido progresso do século XXI. 

Curioso que para os conservadores, assuntos sobre sexo são considerados mais cruéis do que sobre violência. Bater em crianças não é considerado crueldade, mas envolvê-las em assuntos sobre sexo é. 

Mesmo com espancadores - estupradores também, pois é preciso entender que estupro é sim uma forma de violência - sendo presos, eles não são vistos com a mesma reprovação daqueles que colecionam fotos de meninas, se limitando a admirá-las de longe. Para o sendo de moralidade consagrado, este último caso é mais cruel do que os que batem em seus filhos "para educar".

A opinião deste blog é a de ser totalmente contra a pedofilia, considerando como sendo uma forma de sentir atração a corpos infantis. A adolescência se encontra em outro contexto e o sexo começa a fazer parte desta fase. Ainda mais que muitas meninas, com corpo superdesenvolvido, começam a ser admiradas como adultas, o que significa que não há pedofilia. 

Nestes casos, as adolescentes na prática são como adultas sem permissão da lei para viverem como tais. E admirar um corpo bem desenvolvido nada tem de pedofilia. Ainda mais se a dona do tal corpo ter uma vida amorosa bastante experiente, conhecendo os prazeres do sexo através de relacionamentos frequentes em bem sucedidos.

O veredito final: a atração pela Millie Bobby Brown dos dias de hoje não é pedofilia. Ela é uma pré-adulta esperando a chegada da idade permitida pela lei para viver plenamente como adulta.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

O desprezo dos esquerdistas às pessoas solitárias

Uma coisa que noto nos esquerdistas brasileiros é a incapacidade de compreender o drama das pessoas solitárias ou as que preferem uma vida tranquila, longe da badalação social onde multidões se encontram para beber, gritar e pular. 

Para muitos esquerdistas, solitários são pessoas ruins da cabeça, doentes do pé e que tem uma quedinha pela extrema-direita, visto a coincidente situação social de muitos jovens terroristas americanos e europeus. Como se ser solitário e sádico fossem sinônimos.

Claro que o ser humano, sendo um ser social, estaria em melhores condições se estivesse acompanhado com uma vida social mais constante e estável. Mas isso é algo complicado, pois nunca esqueçamos que a humanidade ainda está em modo beta, ou seja, em aperfeiçoamento, e ainda bem imatura para estabelecer as relações com os outros.

As crises e a nossa incapacidade de superá-las contribuem muito para que as relações sejam cada vez mais difíceis. Nunca foi tão fácil criar inimizades. Como acreditar que os relacionamentos, incluindo os conjugais, quase sempre movidos por interesses, admitam ou não, terão o sucesso garantido em uma realidade tão conflituante?

Esquerdistas casados não entendem a solidão

Fiz essa introdução para alertar que os esquerdistas ou aqueles que se assumem como tais, estão criando uma imagem negativa das pessoas solitárias ou reservando a elas formas paliativas de tentar - eu disse tentar - sair da solidão que nunca se resolve.

Apesar de se assumirem ideologicamente altruístas, os esquerdistas demonstram total incapacidade de entender quem se situa numa solidão crônica, com poucos amigos e vida conjugal zero. Mas há um motivo: a maioria esmagadora dos esquerdistas são de pessoas casadas ou que estão em um relacionamento estável, fruto de uma vida social movimentada e cheia de amizades.

Claro que o fato dos esquerdistas brasileiros serem de classe média, fazendo parte de uma pequena burguesia, contribui muito para facilitar a vida social e amorosa. Pequenos burgueses pertencem a uma classe que cria meios - para quem se propõe a aderir aos esquemas impostos pelas regras sociais: e a classe média é entusiasmadamente obediente - para favorecer a fuga da solidão.

Apesar de assumir uma postura altruística nos assuntos relativos a política e economia, as esquerdas brasileiras costumam ser conservadoras quando o assunto envolve artes, cultura e vida social. O que favorece uma certa concordância com o ponto de vista tradicional da classe média direitista, pois contradição ou não, os esquerdistas brasileiros são acima de tudo brasileiros de classe média e levaram muito do repertório ideológico desta classe com eles.

Entre essas valores está o de manter uma vida social estável e movimentada, seguindo rigorosamente os rituais e costumes impostos pela classe média tradicional, já que para os esquerdistas brasileiros não há interesse em mudar as regras sociais, tendo como única diferença da classe média direitista o desejo de ver mais gente usufruindo das festas do grand mondé. Mas exatamente da mesma forma que os direitistas da mesma class usufruem.

Isso tudo inclui a vida conjugal, pois todo mundo é careca de saber que uma vida social movimentada facilita e muito a conquista da pessoa desejada. Os esquerdistas se sentem muito felizes em suas vidas de afeto mútuo e confortável que se esquecem de quem não tem a mesma sorte, até por não poder ou não querer aderir ao sistema social imposto pelo status quo.

Solução preguiçosa

A incompreensão dos esquerdistas brasileiros com a situação dos solitários, oferece duas opções: (1) a de fazer chacota com os solitários, rotulando-os de fracassados ou até de "fascistas"; (2) a de criar uma rede social só para esquerdistas, o tal de "PTinder", igualzinho às outras que já existem, apenas com a diferença de - supostamente - não haver bolsonaristas enchendo o saco.

A gozação em cima dos solitários é algo ofensivo e contradiz o espírito altruísta assumido pelas esquerdas. É algo humilhante que ultrapassa os níveis do bullying e mostra uma incapacidade total de se colocar no lugar do outro e se imaginar em uma situação triste que é real para as pessoas que não conseguem ter um ombro amigo para colocar a cabeça e chorar.

Já a iniciativa de criar o PTinder soa preguiçosa, pois é claro que optaram pelo caminho mais fácil de solucionar o problema da solidão dentro das esquerdas. Afinal, não precisa entender de solidão para criar o PTinder: basta entender de informática. Até porque no fundo, os aplicativos e redes sociais de namoro nunca passaram de meras brincadeiras, meros jogos, como quaisquer jogos eletrônicos.

Mudar as regras sociais seria a melhor solução

O caminho para resolver a situação desagradável das pessoas solitárias parece muito difícil para quem se situa na zona de conforto de aceitar as convenções sociais como se elas fossem justas e boas. Seria o de mudar as regras sociais: mudar lugares de paquera e sociabilização, desobrigar as pessoas de consumir bebidas alcoólicas e entender que existe uma diversidade de situações, gostos, ideias, pessoas e que nada deve seguir um padrão.

Se no mundo não há um padrão específico de pessoas e de situações, imagine no Brasil, um país cheio de diversidade. Estranho as esquerdas não se lembrarem disto. Se lembrassem, lutariam para que assim como desejam na política e na economia, a vida social fosse bem mais democrática, com variedade de locais e condições para as pessoas se sociabilizarem, fugindo da rígida ditadura dos barzinhos, ainda o "templo sagrado" da sociabilização para muita gente.

Mas isso vai demorar muito para ocorrer. provavelmente eu não estarei vivo para ver isso se resolver de forma justa e democrática. As esquerdas já admitem que conservam certos valores que elas consideram positivos - mesmo que gere danos aos outros - e mudar os costumes sociais não está em sua pauta de transformações. 

Triste saber isso. Muitas pessoas continuarão solitárias, principalmente os esquerdistas que não conseguem resolver sua situação social, escolhendo por serem humilhadas com rótulos ofensivos ou caindo na ilusão das redes sociais cheias de ciladas e promessas vazias.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Cultura da imbecilização sem freio

Para o sistema, é muito bom que os pobres estejam emburrecidos. Por estarem tradicionalmente ligados a uma má qualidade de vida, com escassez de atributos minimamente necessários a sobrevivência, podem reagir de forma inconformada, e essa inconformação deve ser freada para que não incomode as classes abastadas no seu "direito" de ser melhores que os outros.

Quando os pobres eram mais inteligentes e classudos, o sistema fez de tudo para que as vozes das periferias se calassem. Para dar voz ao povo pobre, foi preciso um complexo trabalho de alienação que impedisse os pobres de raciocinarem, para que com esse emburrecimento, as classes mais humildes deixassem de incomodar - seriamente - o sistema.

Hoje, do contrário que seus defensores bradam, os pobres não incomodam. Agora, emburrecidos, podem - e devem, segundo o sistema - ter as suas vozes ouvidas com nitidez. Para que esse emburrecimento do povo pobre se mantenha, é preciso que esses mesmos pobres não saibam que estão burros. Intelectuais são pagos para criar próteses de sabedoria para que os pobres pensem que sua burrice é a nova forma de inteligência.

O sistema se esforça, através da mídia para, ao mesmo tempo, não intelectualizar os pobres e fazê-los parecer intelectualizados. Se considerando "mais sabidos", mesmo ingenuamente, os pobres acabam não desenvolvendo o intelecto ("se eu já sou inteligente, pra que me esforçar para ser "mais" inteligente?"), deixando de oferecer perigo para as classes incomodadas.

Rebeldia sem causa incomoda apenas na aparência

Claro que é preciso, para reforçar esta falsa rebeldia disfarçada de verdadeira, que se crie um falso conflito de classes, onde o ridículo é confundido com ousadia. 

As pessoas realmente esclarecidas que criticam o emburrecimento dos pobres deve ser tratada como uma "elite preconceituosa", para que seus conselhos nunca sejam ouvidos e os pobres se mantenham na mais santa ignorância, tratando a sua burrice como patrimônio próprio. E pior: defendendo e exaltando essa burrice como "estilo próprio de vida que merece ser respeitado".

E BINGO! O sistema criou a mordaça mais perfeita, a que não cala, não machuca e ainda por cima nunca é permitida. Presos na ignorância que acreditam ser a sua sabedoria, os pobres se mantém completamente inócuos ao sistema, mantendo todas as injustiças que estão aí há séculos. É o apartheid social.

Estragos do emburrecimento cultural

Um apartheid que aparentemente separa pobres e ricos, mas na verdade separa burros e "esclarecidos". Não pensem que apenas os pobres estão sendo burros. A classe média que se acha rica sempre foi muito burra, entendendo apenas daquilo que está relacionado com a sua profissões e mais nada. Muitos atores da Globo, de classe média mais do que alta e muitos vivendo no exterior, já absorveram os valores duvidosos das classes menos escolarizadas em suas vidas. Quem não faz isso, é tachado de "elitista", embora o bom senso prove que elitista mesmo é quem quem ver o povo pobre mergulhado nessa burrice imbecilizante, que é disfarçada de sabedoria.

E isso tem causado graves estragos na sociedade. Perdemos a noção de tudo. Apesar do avanço tecnológico ainda mantemos intactas certas tradições quando estas não estimulam a intelectualidade ou valores mais elevados. Já atitudes que estimulam a alienação como religião, esporte e atividades puramente lúdicas (incluindo esporte, cinema e música), as tradições são mantidas e até estimuladas, mesmo que não sirvam para coisa nenhuma.

Mas não é só isso. Nota-se uma piora cada vez maior no comportamento das pessoas. Pensar virou defeito. Legal hoje é curtir, de forma mais alienada possível (desde que não use o rótulo de "alienado"). Aliás, pegamos o hábito de dar rótulos positivos a hábitos negativos. Burros, queremos ser chamados de inteligentes. 

Até porque é legal ser rotulado de inteligente, do contrário do que sê-lo, que exige esforço e abnegação. Abnegação inclusive de valores considerados "positivos". Ninguém gosta de livrar de suas zonas de conforto.

Para onde nós vamos com isso?

Não sei até onde isso vai. Há um patrulhamento intenso para que este emburrecimento do povo pobre (e das outras classes também - o emburrecimento atual está bem contagioso) seja respeitado como "sabedoria". Muito esforço te sido feito para que este comportamento do povo pobre seja legitimado como "cultura". Estragos culturais relacionados a esse emburrecimento estão sendo propositadamente ignorados, para que tudo pareça positivo.

E assim nos encontramos no século XXI, época que eu, desde criança, sempre acreditava como a era do progresso intelectual e que sou obrigado a aceitar a burrice generalizada, que jã não é mais exclusividade do povo pobre, como a nova forma de sabedoria a ser aceita na marra por quem passou anos estudando e analisando tudo ao redor.

Os imbecis estão no poder. E querem que a voz de suas palavras sem nexo seja ouvida.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

O Carnaval do Bloco do Eu Sozinho

Antes de tudo quero dizer que sou contra o assédio. A conquista amorosa deve ser pacífica, respeitosa, carinhosa e deve satisfazer a vontade de todos os envolvidos. Caro amigo, se a mulher não te quer, entenda e parte para outra até que apareça uma mulher que te queira. Não insista com quem não te quer para a coisa não converter em ato violento e gerar danos. Dado o recado, vamos ao assunto.

Se por um lado é boa a campanha anti-assédio, por outro tem feito com que homens se retraíssem nas paqueras com medo de punição. Já era difícil conquistar uma mulher graças a um festival de regras rígidas que nunca se afrouxam, agora que a coisa emperrou. O que transformou o Carnaval de 2020 no Carnaval do Bloco do Eu Sozinho.

As feministas, acabaram, ao cometer o justo ato de se protegerem contra o assédio, acabaram fazendo aquilo que arruma um lado para arruinar com outro: criaram um meio de extinguir a paquera e tornar a conquista amorosa ainda mais difícil, sobretudo para quem, como eu, não segue o perfil "Chad", comum aos que sempre se deram bem na vida amorosa.

O resultado desta pataquada é que não teremos mais a paquera como conhecíamos. No Carnaval, cada um vai pular do seu lado até que as mulheres percebem a cagada de não informar aos homens de que modo elas querem ser abordadas de forma respeitosa, sem assédios ou ofensas. Até porque é cacoete das mulheres, sobretudo as feministas, de afirmar o que detestam, sem dizer como gostariam que as coisas fossem.

Os homens, parte fraca do feminismo que finge incluí-los na defesa - infelizmente, o feminismo brasileiro é misândrico, embora insista em dizer o contrário, posando de humanista -  não sabem mais como chegar nas mulheres. O que é assédio? Dar um gentil "bom dia" para uma mulher bonita virou cantada barata? Pode ser que sim, pois em tempos de ódio e de polarização, isso faz muito sentido.

Falta de confiança em tempos de crise

Vivemos um tempo onde ninguém mais confia em ninguém. Em tempos de crise tudo fica escasso e todos querem tirar dos outros - mas arrumando justificativas para ninguém se assumir como "ladrão" ou "bandido". Isso estimula uma onda de desconfiança, já que não está escrito na testa a intenção do outro, embora nosso instinto de sobrevivência naturalmente elimine a presunção de inocência alheia garantida pela lei. O outro deve provar que não é mal-intencionado, ao invés do contrário.

Mulheres costumam ficar mais interesseiras em sociedades em crise e chega a ser nítido que no grupo de supostos assediadores, galãs de classe média alta ou ricos nunca são incluídos, o que me leva a suspeitar que campanhas anti-assédio estejam sendo usadas por algumas mulheres como forma de higienismo afetivo para que apenas os homens de "alto padrão" possam chegar até elas. 

A imagem do assediador é sempre a do feioso baixo, gordinho que nunca sai aos sábados à noite e toma Toddy no lugar de cerveja, vinho e champanhe. Para piorar aquilo que já é catastrófico, a esquerda identitária, que puxa o saco das feministas (mas nada faz a favor das mulheres), decidiu rotular os homens solitários de "terroristas de extrema-direita" por causa do estereótipo criado em torno dos jovens que saem por aí matando pessoas.

Triste ver toda essa confusão acontecendo, fazendo com que homens com solidão crônica paguem pelos erros alheios. O jeito mesmo é assistir ao desfile do Bloco do Eu Sozinho e aguardar o que as mulheres irão fazer para resolver o problema vindouro de que elas não mais poderão namorar, já que os homens não mais tomarão iniciativa para conquistá-las.

domingo, 23 de fevereiro de 2020

Meu amigo, samba para eu ver... Samba?

Não pareço ser ruim da cabeça. Tenho meus problemas crônicos de saúde (sobretudo no sistema digestório), mas minha cabeça aparenta estra perfeitamente no lugar. Bom sujeito eu sou mesmo, gentil, batalhador e sempre tenho como provar que sou isso mesmo. Mas não me chame para uma roda de samba. Nem mesmo de samba de verdade, de qualidade.

Não me identifico com o samba em geral, embora goste de algumas músicas. Gostar e se identificar não são sinônimos. Samba é legal, dá para dançar, tem arranjos instrumentais interessantes, mas falam de um estilo de vida e de um ponto de vista que sinceramente não consigo ver em minha vida. Falam de coisas estranhas ao meu cotidiano. Vejo muito mais coisas da minha vida nas letras das músicas do New Order do que em qualquer música de samba.

E olha que não falo do sambrega, seja o romântico de Raças, Exaltas e SPCs, seja o pornográfico (Tchan, Harmonia, Psirico e quejandos) que se vê na Bahia, que resultou inclusive em um estupro coletivo praticado por um grupinho inexpressivo. Falo do legítimo mesmo, pois, descontando a qualidade musical, esse tipo de música não fala sobre a minha vida.

Mas muita gente pode estar achando que estou sendo preconceituoso em dizer isso. Preconceituoso? Essa acusação não faz sentido, pois realmente o samba, por melhor que seja, não fala sobre a minha vida. Mesmo as que falam de solidão, se referem a amores encerrados e não sobre dificuldades de conquista. Algo que como exemplo, está fora da minha realidade.

Nem é preciso pensar muito para provar que estou certo. vejam o DVD que o Zeca Pagodinho gravou em sua chácara, com um monte de gente sentada a entornar litros e mais litros de cerveja (que detesto, por ter gosto ruim - de álcool, prefiro vinho, embora eu não seja muito de beber álcool), ostentando uma alegria falsa, perceptível nos olhares sem vida dos convidados. Como vou me identificar com esse estilo de vida?

Samba é legal, samba é válido, deve existir, sim. isso eu concordo plenamente. O samba enriqueceu a nossa cultura, merecendo ser muito bem ter sido comemorada ontem. E até gosto de várias músicas do gênero. Só não me digam que o samba fala sobre minha vida. Sinceramente nunca me encontrei presente na atitude de sambistas ou em uma letra de samba, seja do bom ou do ruim. Os sambistas não sabem como eu vivo.

sábado, 22 de fevereiro de 2020

A Axé-music, a música infantil para adultos, resolve ressuscitar no Carnaval do Rio de Janeiro

Depois do Rio de Janeiro ressuscitar os zumbis que pediram intervenção militar para impedir que pobres alcancem qualidade de vida e ameacem a "exclusividade" da prosperidade da classe média alienada, agora é a vez do Rio de Janeiro ressuscitar a trilha sonora desta classe com muitas posses e nenhuma sensatez. Trilha sonora que ACM inventou na Bahia para impedir a conscientização dos baianos: a abominável Axé-music.

Com a popularidade cada vez mais em baixa na Bahia, graças a seu ritmo tosco, suas letras sem pé nem cabeça e suas dancinhas ridículas, a Axé-music (rótulo que nasceu pejorativo, mas foi ingenuamente abraçado pelos seus defensores) encontrou no Sul/Sudeste, ainda mais no Rio de Janeiro das milícias, a oportunidade de recuperar o seu fôlego e se impor como alienador oficial das massas que desejam fugir da realidade que elas recusam a melhorar.

Se prestarmos bem a atenção, o principal público da abestalhada Axé-music sempre foram os bem vividos das regiões Sul e Sudeste, criados a base de whisky na mamadeira e sem preocupações realistas, lindos de aparência e com futuro mais lindo ainda. Todos com condições financeiras para torrar dinheiro com abadás caríssimos e as drogas consumidas dentro, já que não dá para aguentar aquelas canções imbecis e danças ainda mais idiotas com a cara limpa e a mente tranquila.

É claro que os magnatas que controlam a Axé-music - pensam que é essa pasmaceira é "a expressão legítima da cultura de um povo"? - , desesperados pela queda de popularidade do gênero, fonte de enriquecimento financeiro para a elite baiana, gananciosa e extremamente racista, decidiram arrumar um jeito de salvar sua galinha dos ovos de ouro. Aí veio a ideia de usar o Rio de Janeiro para ressuscitar a zumbizada axezeira.

Os empresários da Axé-music perceberam que poderiam lançar o gênero no Rio de Janeiro pós-Golpe como uma novidade. Cariocas andam bem alienados ultimamente, muito mais do que sempre foram. Cariocas, que entendem muito bem de monocultura - só se fala, come, transa e até vomita futebol - se tornaram o público perfeito a ser enganado pela máfia axezeira.

Isso explica porque tenho ouvido muito Axé-music nas ruas de Niterói e da capital do RJ, que deve disputar a hegemonia com os igualmente abomináveis "funk" e "sertanejo", gêneros que tem destruído muitos ouvidos dos cidadãos comuns e engordado as contas bancárias de quem usar estes ritmos para ganhar - muito - dinheiro às custas de mentes alienadas e mal-informadas.

Com isso, o ritmo de ajudou a imobilizar os baianos, povo com vocação para a vanguarda. Na época da ditadura, este povo poderia ameaçar a "tranquilidade nacional". O "coronel" ACM resolveu tomar uma atitude para que a o povo baiano não se conscientizasse e fundou a Axé-music para que depois que a ditadura acabasse, os baianos ficassem anestesiados, correndo atrás de um caminhão grande sem saber exatamente o que estariam fazendo.

Mas os baianos dão sinais de que recuperaram a consciência e a Bahia começa a se desenvolver de forma surpreendente. Não cabia mais como palco para a alienada e alienante Axé-music. Os axezeiros tiveram que procurar outros otários a enganar. 

Nada como o Rio de Janeiro, terra de fanáticos por futebol que se dividem em bolsonaristas raivosos e uma esquerda mais do que cirandeira (liderada pelo inerte e delirante PSOL) para que esta hipnose musical possa começar novamente.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

"Universitários" podem dar credibilidade para breganejos veteranos

Já falei várias que a música rural corre o risco de morrer definitivamente. E essa verdadeira coronhada, feita pelos "sertanejos" picaretas pode ser mais fatal e dolorida do que se imagina.

Há uma possibilidade dos chamados "Sertanejos Universitários" (Sertanojos Universotários), que nada tem de "sertão" e muito menos de"universitário", de serem desprezados por fãs mais adultos (que podem acusar os "universitários" de "urbanos demais"), que poderão trocá-los pelos breganejos veteranos, que têm o tempo de carreira como escudo.

Quem entende de música sabe que a decadência da música rural já começou nos início dos anos 70 com Chitãozinho e Xororó, que trocaram a moda de viola por boleros chorosos e malfeitos, com letras de baixo nível, sobretudo sobre traições. Mas como os trastes fizeram cerca de 40 anos de carreira, a longevidade deu a eles imunidade e eles posam agora de "sertanejos autênticos" e de "porta-vozes" do home do campo. Não são mesmo.

Tudo que foi produzido sob o rótulo de "sertanejo" de CH & X até os Universotários não representa o o cotidiano do verdadeiro homem do campo, que pode ficar sem sua cultura, invadida sem piedade pelos jagunços fantasiados de caubói de Hollywood, que teimam em se apossar da cultura brasileira como se fosse um latifúndio.

Triste saber que a doce e linda música rural morreu e nem serviu para adubo. Triste.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

O Carnaval de Recife

Aparentemente não sou chegado a festas. Na verdade gosto muito de festas. Só não gosto de bebedeira, de brigas, de confusão e de sair de madrugada, correndo riscos. Também não sou fanático por festas.

Reconheço a importância das festas, mas não as coloco em outros contextos. Substituir assuntos sérios com festas é que acho absurdo e que muita gente tem feito nos últimos anos. É isso que critíco. Mas festas, quando sadias e em momentos de ócio, sempre são bem vindas.

Sobre Carnaval, o único que eu gosto é o de Recife, pois os outros carnavais tocam tipos de música que não aprecio. Rio e São Paulo aparecem com os modorrentos Sambas de Enredo que parecem uma música só, apenas com a letra mudada. Nas outras regiões, ritmos popularescos que cheiram a picaretagem e o mercenarismo puro. Sobrou então o de Recife.

O Carnaval de Recife é o único que ainda resta alguma coisa de realmente cultural e artístico, já que o mercenarismo, trazendo a ânsia de ganhar dinheiro, tomou conta da festa momesca. Chega a ser risível falar em cultura carnavalesca nos dias de hoje. As pessoas ainda gostam de se referir ao termo "cultura", porque "dá status". Mas dá para ver que não vai muito além de dinheiro encharcado com bebidas alcoólicas. Mas em Recife há uns resquícios de cultura.

Frevo é legal, mas o que me atrai mesmo é o maracatu, ritmo que aprendi a gostar graças a genialidade do excelente Nação Zumbi e do seu eterno lídere saudoso Chico Science, pessoa querida que faleceu há 13 anos. O maracatu é caracterizado por batidas fortes e som bem denso e ritmado, e bem contagiante. Nas vocais permite a utilização de criativos repentes e as letras falam da realidade do povo do sertão pernambucano.

Talvez se eu morasse em Recife estivesse saindo para pular em algum lugar.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Axé Music, a música infantil feita para adultos completa 35 anos na UTI

Não sei a data exata e muito menos quero saber qual. Mas neste carnaval se comemora 35 anos daquilo que foi chamado - de início, pejorativamente, de axé music (para quem não sabe, "axé" é alegria em iorubá). Apesar do nome de origem africana, a axé music nada tem de africana, não passando de uma rumba mal tocada. Mas aí eu falei isso para um amigo baiano - que estranhamente detesta axé music - que disse que rumba era africana. Rumba é tão africana quanto o rock. Então segundo ele, os roqueiros "fazem música africana". Aff!

A axé music na verdade, não passa de um chamariz turístico. O verniz de cultura é colocado para tentar "encorpar" esse caldo aguado que pensa que é a "mistura de todos os ritmos". Todos? Eu senti ausência de muitos ritmos nesse engodo. E você?

Oficialmente, o "pai" da axé music foi um tal de Luiz Caldas, que estourou com a racista canção - detalhe: o cantor é mestiço, mistura de pardo com indígena, mas com jeitão de hippie alienado - "Fricote", que era uma merda, mas vendeu como pipoca na porta de cinema. Embora os axezeiros mais antigos sejam o Chiclete com Banana, então liderados por um mau caráter mercenário conhecido como Bell Marques, hoje em (decadente) carreira solo.

Mas de fato, nenhum desses dois merece ser considerado "pai" da axé music. O verdadeiro progenitor e gestor dessa palhaçada chamada axé music foi o político Antonio Carlos Magalhães, o "dono" da Bahia e então ministro da pasta das Comunicações, o que justifica o surgimento e crescimento do gênero musical na época, levando a degradação cultural brasileira para ocorrer mais cedo na Bahia.

ACM, como é conhecido o político, utilizou a axé music como uma isca para atrair tolos para visitarem a Bahia. O estado realmente possui muitas belezas e opções de lazer, não precisando da tola axé music para atrair turistas. Na época, o estado tinha o turismo como única fonte de renda.

Claramente alienante, a axé music recebeu o verniz de cultura, fazendo muitos incultos e incautos tratarem o gênero como se fosse "cerebral", inteligente. Isso dava prestígio aos seus criadores além de impedir uma verdadeira evolução que tirasse a mediocridade da axé music. Mediocridade que é o motor da axé music, pois se ela fosse muito boa, não atrairia tanto público.

E que mediocridade! As letras, alem de bastante pueris - nada que não possam ser criadas por uma criança de 4 anos de idade - eram meio enroladas, mudando de tema antes do fim de cada verso. Por exemplo, uma musica em que um cara faz uma cantada para uma mulher, pode, no verso seguinte, fazer um elogio à cidade e depois exaltar a negritude ao menor pular de linhas. Tudo na mesma letra de música. Mistureba total.

O interesse é explicitamente comercial, já que a meta era justamente usar a música para ganhar dinheiro. Há quem diga que a axé music traduziu a dance music para a a realidade brasileira, algo perfeitamente capaz de ser provado.

Música infantil para adultos

A axé music, por suas características, pode tranquilamente ser definida como uma musica infantil feita para adultos. Nunca espere alguma mensagem positiva ou útil de alguma musica de axé que você não irá encontrar. Não há motivo para a axé music ser um tipo de música bem feita.

O comercialismo inerente faz como que o axé seja uma oportunidade para celebridades sem talento usarem a musica como profissão, já que para muitos pobretões, é melhor ficar rico pulando nos palcos cantando asneiras do que ganhar uma miséria carregando saco de cimento nas costas. 

E esse excesso de profissionalismo tem contribuído para que a axé music piorasse a cada verão, com dancinhas da moda cada vez mais ridículas que viram piada logo após sair da moda. E essa piora gradativa da axé music tem como prejuízo transformar tendências mais antigas do axé em "clássicos da boa música" só porque não são tão ruins quanto tendências mais recentes. 

Os empresários donos do axé sabem disso e tratam de piorar o axé para que o idiota do passado se transforme, sem mudar nada, no gênio do futuro. Isso tem sido a lógica de toda a música no Brasil e responsável por reabilitar muitos modismos tolos do passado, hoje convertidos em "gênios incompreendidos", enquanto os verdadeiros gênios da musica, ou caem no ostracismo, ou amargam crescente impopularidade.

Tudo bem que músicas de carnaval costumam ser bem idiotas. Carnaval, como "festa do avesso" foi criada para ser imbecil mesmo, transformando pessoas sérias em verdadeiros panacas - se bem que o brasileiro está mal acostumado com isso, se imbecilizando o ano todo - o que é compreensível se fosse só no carnaval. Mas o caso da axé music incomoda porque embutiram uma muleta de "cultura superior oficial da Bahia". 

Durante um bom tempo, acreditou se ser a axé music a "verdadeira cultura" da Bahia, sufocando outras formas de música feitas na terra, caracterizando uma monocultura. Hoje tenta-se simular um pseudo-ecletismo no carnaval baiano, naquele papo hipócrita de "todos os ritmos". Isso, só para quem acha que 60% é 100%.

Hoje a axé está em decadência. Ainda tenta outros "rincões" como o Rio de Janeiro e a praia de Jurerê (Jururu?) Internacional, em Santa Catarina. Mesmo assim, já vive na UTI. Seus ídolos servem mais para fontes de piadas do que para tentar representar uma suposta evolução cultural. Os axezeiros, que nunca tiveram o que dizer, já não conseguem convencer ninguém. Muitos estão bem velhos, outros aposentados e os novos conseguem ser muito mais panacas do que os panacas de 35 anos atrás.

Axé music chega aos 35 anos. Mas apesar da idade, está cada vez mais infantilizado. Logo ele que desde o seu surgimento nunca passou de uma criança abestalhada*.

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* NOTA: Abestalhado: gíria baiana que significa "idiota".

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

30 anos da minha chegada a Salvador, na perspectiva de voltar

No momento em que escrevo este texto, estou na perspectiva de retorno a Salvador. Estou esperando alguns fatos acontecerem que favorecerão a minha ida definitiva. Estes fatos ainda estão em andamento. Enquanto eu não retorno a terrinha, vou lembrar de comemorar os 30 anos da minha chegada à capital baiana, onde vivi até 2008 para retornar a Niterói para uma frustrada experiência.

 Retornar a Niterói por motivos de elitismo e saudosismo não foi uma boa ideia. Elitismo e saudosismo são sentimentos nocivos que devem ser descartados. Acreditar que existem níveis diferentes de humanidade é crueldade. Do passado devemos apenas aproveitar as experiências, sem querer repeti-las de forma 100% exata.

Já a experiência em Salvador foi muito positiva embora, na minha imaturidade, não tenha tido consciência do êxito. Não precisava ter saído de lá. Apesar de tão festivo quanto o povo carioca, o povo baiano é mais humanista e mais realista. Deseja mudanças e não se conforma com a falsa prosperidade, como acontece com os povo carioca. Aceita as diferenças porque valoriza a diversidade e porque acredita que pode aprender com quem é diferente.

O desejo de retornar a Salvador é ideia minha, apesar de influenciada em um conselho dado pelo meu irmão Alexandre, jornalista responsável pelo canal do YouTube TV Linhaça. Ele fez observações interessantes comparando as personalidades de baianos e cariocas e como isso influi nas nossas vidas particulares. Acetei e transformei o retorno a Salvador em meta.

Pena que poucos sabem exatamente sobre Salvador. Somente em época do Carnaval - caso da semana em esta postagem está sendo publicada - a mídia se lembra da capital baiana. A imagem que Salvador tem para os que são de fora não é positiva: uma cidade atrasada, de gente "feia" e "ignorante" (mito falsíssimo) e suja  e subdesenvolvida. Garanto que na verdade é exatamente o oposto.

Claro que Salvador tem problemas. Afinal a Bahia é um estado de um dos países mais atrasados de um planeta bastante atrasado. Mas a vantagem dos baianos é que não aceitam problemas de forma inerte e do contrário da falsa fama de preguiçoso, o povo baiano se esforça e age para sair de sua situação desagradável, e continua a sua luta sempre até um dia atingir um nível satisfatório de prosperidade.

Salvador está em processo gigantesco de transformação. Muitas obras acontecem na cidade e a mudança visual é gritante. Muitas vias foram abertas e a orla está um show. Especialistas discutem incessantemente medidas para acabar com vários problemas e muitas medidas estão sendo bem sucedidas. Eu que gosto de progresso, faço uma decisão acertada em querer voltar a Salvador.

Enquanto isso, o Rio de Janeiro vive um surto de saudosismo de glórias passadas, de um conservadorismo implacável, o nascimento de um neo-coronelismo emergente e a crença de um falso progressismo apegado a estereótipos defendidos por uma esquerda caquética e inerte que se considera avançada sem mexer um dedo para mudar a realidade cotidiana. Como viver em um lugar assim?

Vamos aguardar o rolar dos fatos. Informações sugerem que a minha volta a Salvador é 99% certa. Ao retornar informo a vocês as mudanças do site, que deverá ter uma parada rápida para cuidar da transição. Mas feliz e esperançoso, devo fazer postagens ainda melhores estando na terrinha cheia de energias boas e vontade de progredir. Estar do lado do progresso é sempre bom.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Para as esquerdas brasileiras, brincadeira é coisa séria

Um aviso: não pronuncie a palavra ENTRETENIMENTO perto de um esquerdista brasileiro. Certamente ele vai refutar a palavra e colocar "arte" e "cultura" no lugar, enobrecendo o simples ato de querer se divertir como se alguém quisesse bancar o intelectual nas horas de ócio e relaxamento.

De fato, quando você está cansado após uma jornada imensa de trabalho mal remunerado, o que você menos quer fazer é lutar. Você deseja se divertir, se dedicando a uma atividade que exija o menor esforço possível. Necessário lembrar que não é apenas para nos escravizar que a carga horária de trabalho é grande. É para nos cansar também, impedindo a dedicação intelectual nas horas livres.

Mas para as esquerdas brasileiras, que andam muito cirandeiras ultimamente, indispostas a lutar para arrancar um fascista destruidor da sagrada poltrona situada no Palácio do Planalto, hora de brincar é hora de protestar, já que nos momentos sérios o que menos há é a inconformação de estarmos sob o jugo de alguém tão cruel e tão ignorante.

Vamos todos brincar de trotkistas revolucionários

Se não bastasse as esquerdas ignorarem a chamada Cultura de Mercado, em que a espontaneidade é jogada no lixo, trocada pela necessidade de ganhar - muito - dinheiro de forma fácil e pomposa, agora os supostos discípulos de Karl Marx e Leon Trotski resolveram achar que não somente o lazer é uma cultura cerebral como serve para manifestações políticas radicais e revolucionárias.

Os esquerdistas cirandeiros encanaram de achar que o Carnaval seria uma forma excelente de protestar contra o governo fascista que nos assombra. Mas o Carnaval é brincadeira, é pura diversão. Fora da bolha cirandeira é complicado fazer com que os gritos de "Hey, Bolsonaro, VTNC!" sejam levados a sério e tratados como palavra de ordem para a deposição do tirano neofascista.

Vocês acham que um gritinho de filiões, que serveria apenas como um desabafo bem humorado, teria a força capaz de incomodar um tirano? Bolsonaro deve estar dando risada. Direitistas em geral devem estar respirando aliviados por perceber que a "inconformação" das esquerdas se limita a um mero slogan de Carnaval. Fica parecendo que os foliões querem o Rei Momo no lugar de Bolsonaro.

Politização postiça no Carnaval

Curioso que é a mesma esquerda incapaz de clamar multidões para invadir Brasília e arrancar os tiranos de suas poltronas. Fica aquela impressão de pegar carona em uma manifestação popular não política e enxertá-la uma politização postiça que não faz parte dela. Ou seja, se não somos capazes de convocar a multidão, aproveitemos a multidão já convocada e inserimos nela aquilo que desejaríamos ouvir na manifestação.

Só que o lazer é mera diversão. Assim como ninguém está interessado em produzir cultura e arte quando quer se divertir - ou ganhar dinheiro com a diversão - não há uma santa alma interessada em fazer política no Carnaval: somente encher a cara, pular e dar "uns amassos". Nada além disso.

As esquerdas deveriam parar de brincar de ser revolucionário e criar manifestações mais sérias. Colocar fantasia de comunista em foliões pouco interessados em fazer política - apenas usá-la como objeto de chacota - é um grave erro que fará o tiro sair pela culatra. 

Mas Bolsonaro está tranquilo. Assim como o "Fora Temer" da Tuiuti foi um fracasso, o "Hey, Bolsonaro VTNC" vai dar com os burros na água. Todos sabem que festa nunca mudam o mundo. Toda a falsa rebeldia virará cinzas na quarta-feira e todos voltaremos a aceitar o Capitalismo fascista santo de todos os dias, na maior alegria.

O Fascínio dos Artistas pelo Fascismo

OBS: É claro que a rebeldia estimulada pelo fascismo não é o desejo de um mundo melhor e sim o de um mundo onde os desejos de uma classe relativamente próspera - que se acha ameaçada de perder essa prosperidade - possam ser satisfeitos com plenitude e preservados perpetuamente. 

Lembremos que o fascismo não é uma ideologia progressista. É o sonho da volta de um tempo onde apenas alguns eram felizes e que os não-prósperos teriam que se resignar com a sua condição inferior e viver pacificamente com aqueles que possuem aquilo que os "inferiores" nunca terão.

O fascínio dos artistas pelo fascismo

Wilton Moreira - Publicado no GGN

Talvez este fascínio dos músicos e poetas (comum também entre os atores) com o fascismo e seu discurso fácil contra a corrupção seja, em parte, por conta de sua situação de classe (média).

Ricardo Miranda, em “Me julgue, voltei a ouvir Lobão” e Alberto Villas em “Encaixotando Fagner” falam de sua relação de amor (musical) e ódio (político) com Lobão e Fagner, dois músicos que bandearam para a extrema direita e se deixaram levar pela onda fascistoide que nos assola. Fico pensando, o que faz alguns bons artistas (não raro vanguardistas) se enamorarem do fascismo?

Na Europa de 20 e 30, Ezra Pound, Herbert von Karajan e alguns futuristas tinham claros pendores fascistas. No Brasil modernista, Lobato e Villa Lobos se enamoraram do nacionalismo fascista. Agora, Lobão, Fagner e Roger (do Ultraje a Rigor) fascistaram claramente. Fagner foi ponta de lança da renovação da MPB nordestina e Lobão e Roger foram pioneiros do Rock Brasil. Todos eram desbravadores, iconoclastas, experimentais e têm ótimas canções em várias fases da carreira.

Não sei como Ferreira Gullar, falecido em 2016, se posicionaria diante da onda Bolsonaro, mas em seus últimos anos ele se tornara bastante reacionário, antipetista doentio, beirando a extrema-direita. Outros que parecem simpatizar com a onda fascista são os talentosíssimos Djavan e Guarabyra. Dinho Ouro Preto, do Capital Inicial, não votou em Bolsonaro, mas simpatiza com Sérgio Moro.

Talvez este fascínio dos músicos e poetas (comum também entre os atores) com o fascismo e seu discurso fácil contra a corrupção seja, em parte, por conta de sua situação de classe (média).

Rebeldia e fascismo

Mas desconfio de que haja alguma motivação mais profunda, que tenha a ver com sua própria condição de artista. O fascismo tem algo de vanguarda, da violência vanguardista para quebrar as regras, inclusive as das boas maneiras. Slavoj Zizek observa bem como os esquerdistas e porra-loucas contraculturais dos anos 60 e 70 eram mal vistos pelo status quo como pessoas sem modos e de boca suja. Hoje, o xingatório constrange igualmente a esquerda politicamente correta e os (neo)liberais; mas seu representante mais desbocado é um velhinho reacionário e paranoico da Virgínia, que se diz filósofo!

Há uma estética iconoclasta no fascismo que fascina alguns artistas e jovens. O fascismo tem a energia da juventude (desde os anos 1930) e expressa a rebeldia dos jovens, sufocados por um sistema social que lhes oferece, como futuro, apenas amarras: o trabalho precário, a necessidade da formação contínua, rendimento e consumo decrescentes. O consumo (de bens materiais e imateriais, de sexo, de viagens etc) é o paraíso pós-moderno, mas o ganho que a maioria da juventude vislumbra vai conduzi-la apenas purgatório capitalista do ganho escasso e do desejo frustrado dos que olham as vitrines dos shoppings sem poder comprar.

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A revolta fascista, no fundo, é anti-capitalista, mas sem que os revoltosos saibam. Eles desejam voltar ou avançar a tempos melhores, restaurar uma suposta ordem em que os papéis de cada um eram bem definidos (homens e mulheres, brancos e pretos, ricos e pobres) e respeitados uns pelos outros. Mesmo para os pobres e negros haveria uma possibilidade de vida digna, desde que se resignassem à sua condição “inferior” e parassem com essa “palhaçada” ativista. Mas nesse mundo ideal, a única coisa que não se contesta são os pilares capitalistas: o trabalho abnegado, a propriedade privada e o lucro.

A revolta é contra os efeitos do capitalismo, como a exclusão social, o desemprego e principalmente a corrupção endêmica, que, para o fascista, se torna o mal causador de todos os demais males e que costuma se vincular às esquerdas ou aos “comunistas”, mas também aos judeus, gays, feministas e outros bodes expiatórios.

O fascismo, então, embora parta de um impulso inicial libertário, de revolta violenta contra o status quo, termina por se revelar como uma onda coletiva cujos afetos mobilizadores são o medo e o ódio, que deixam apenas um rastro de destruição e morte por onde passa.

Romantismo e fascismo

Talvez alguns jovens e artistas se sintam atraídos pelo fascismo exatamente por conta dos paroxismos que o sustenta, muito semelhantes aos impulsos românticos, ao mesmo tempo criativos e destrutivos, de amor e morte: juventude e reacionarismo; energia rebelde e terra arrasada; liberdade ilimitada de ação e tirania sanguinária; promessa de uma vida limpa da corrupção e a suprema corrupção do assassínio massivo. Mais que semelhante, pode-se dizer que o fascismo realiza, no plano coletivo, as potências sombrias do romantismo que, em última análise, é uma revolta estética de uma parcela rebelde da classe burguesa contra o próprio modo de vida burguês e o capitalismo em geral.

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O romantismo tem um evidente impulso destrutivo, de ataque virulento à estética e ao modo de vida vigente. No plano pessoal este impulso de morte muitas vezes se volta contra o próprio artista, cuja vida desregrada acaba em morte precoce, numa espécie de suicídio lento – isto quando o romântico não se suicida de fato.

O fascismo, como desenvolvimento das potências sombrias do romantismo no plano coletivo, também ataca de forma violenta as regras estabelecidas, dando a impressão de um movimento libertador – do politicamente correto, dos conchavos políticos, dos controles estatais etc. E como um romantismo sombrio, todo fascismo acaba por ser também autodestrutivo, se consumindo numa guerra sem fim, interna e com o outro, alimentada pelo ódio e o medo. Só que esta destruição se dá no plano coletivo, deixando atrás de si sociedades arruinadas.

Voltando à atualidade, tanto a MPB, quanto o Rock Brasil são esteticamente próximos do romantismo, principalmente em sua relação conflituosa com a vida moderna. E, assim como os românticos, seus músicos são oriundos da classe média contra a qual se revoltam. Romantismo, Modernismo, MPB e Rock Brasil estão num mesmo continuum estético e têm, portanto, a potência sombria da destruição irracional, que pode ou não se desenvolver num artista ou grupo de artistas.

E mais que os artistas, estas energias destrutivas podem impregnar o público, ou seja, as massas que cresceram ouvindo estas músicas. Não é raro encontrar fascistóides na casa dos 40 ou 50 anos, que são fãs de rock e passaram a adolescência ouvindo Legião, Paralamas, Engenheiros, Titãs e Lobão, grupos populares que eram máquinas de ganhar dinheiro, mas cujas letras contestavam duramente o status quo.

O que acontece com o romantismo e sua descendência (modernismo, MPB, rock) é que seu espírito rebelde instaura na sociedade uma espécie de caos estético, mas que é também cognitivo. A partir deste caos, o público e os artistas podem tomar vários caminhos, do mais libertário aos mais tirânicos. Da mesma forma, os fascismos nascem a partir da cumulação de problemas sociais insolúveis que culminam em situações caóticas de difícil compreensão. Uma das possibilidades que pode se desenvolver do caos é o fascismo.

As primeiras manifestações do movimento passe livre, por exemplo, eram extremamente anarquistas e libertárias, próximas do que chamamos de extrema esquerda. É difícil encontrar uma imagem mais romântica e libertária que um bando juvenil de black blocs mascarados, armados com coquetéis molotovs e dispostos a quebrar bancos, Mc’Donalds e concessionárias de automóveis, símbolos do capitalismo. Rapidamente o movimento virou radicalmente à direita e se transformou na onda neofascista que elegeu Bolsonaro. Mas mesmo assim o ímpeto inicial de destruição e entusiasmo juvenil por uma vida purificada da corrupção sistêmica permaneceu, encontrando num deputado do baixo clero e num juiz provinciano seus líderes e na fé evangélica sua base espiritual. E com esta feição reacionária e moralista o vírus purificador do fascismo contagiou a maior parte da população, que elegeu Bolsonaro presidente e o congresso mais reacionário das últimas décadas.

O elixir da juventude fascista

A conversão à extrema-direita de Lobão e Fagner já estava colocada, como potência, desde o início de suas carreiras no rock e na MPB, movimentos românticos por natureza. Ao encontrar a onda fascista de nossa década, a maioria dos artistas do Rock e da MPB se mantiveram indiferentes ou fiéis à sua rebeldia inicial, contra toda forma de autoritarismo. Muitos se posicionaram claramente contra Bolsonaro, Moro e a onda fascista. Alguns, no entanto, sucumbiram à empolgação juvenil (e viril, máscula) do fascismo e vincularam sua rebeldia estética à revolta fascista.

O fascismo tem o dom de rejuvenescer velhos bruxos. Fagner e Lobão estavam velhos e cansados, meio esquecidos no turbilhão comercial que se transformou o mundo da canção. Viram na energia fascista uma espécie de elixir da juventude e se lançaram em sua onda, como surfistas desesperados. Só que o feitiço da juventude fascista, como nos contos de fada, é apenas uma máscara. Por trás dela, o encantado pelo fascismo, seja ele artista ou não, apodrece em vida.

sábado, 15 de fevereiro de 2020

Obras portuguesas dubladas em português brasileiro: um absurdo!

A mania de colocar dubladores para usarem aquelas irritantes vozes de desenho animado para possibilitarem o entendimento de filmes, séries e documentários, está virando uma praga doentia que já infectou a programação da televisão paga. 

Mas o pior ainda estava por vir e veio: a dublagem em português tupiniquim de obras portuguesas. Isso mesmo que você ouviu: a dublagem em português de obras faladas em português - lusitano, mas português. É o que acontece com a série Equador, transmitida pela TV Brasil (ex-TVE) e já aconteceu com um seriado juvenil que passou na Band. Um absurdo!

Argumentam os defensores dessa medida tola que o sotaque falado nas terras lusitanas é difícil de entender. Mas aí eu pergunto: não seria melhor educar o ouvido brasileiro a aprender a ouvir lusitano? O povo brasileiro é burro demais para não entender as variações de seu próprio idioma?

Vocês acham que na Inglaterra, os programas produzidos nos EUA, levando em conta o fato de que os falantes da terra de Tio Sam também "falam complicado", são dublados para serem assistidos pelos britânicos, de fala mais clara? Claro que não! Nenhum britânico está disposto a ouvir, por exemplo, o Ashton Kutcher contar suas piadas em Two and a Half Man com voz de lorde. Até porque todo mundo sabe que piadas perdem o sentido - e a graça - quando são dubladas.

Eu achei o cúmulo da ignorância. Por mais difícil que seja, dá para entender o que os lusitanos falam. Quando personagens de novela brasileira falam enrolado, ninguém se dispõe a dublá-los.

Isso chama-se de nivelar por baixo, de estimular a ignorância do povo brasileiro, já desacostumado a raciocinar e que na hora do lazer costuma aposentar o cérebro, acreditando ser este um instrumento exclusivo de trabalho e de estudo.

Além de que é uma ofensa grave tanto aos portugueses - que merecem ser ouvidos - quanto aos brasileiros - os brasileiros não-burros não gostam nada de serem chamados de incapazes de entender o português lusitano.

Eu tive o prazer de conversar recentemente com uma senhora portuguesa sobre a conservação da limpeza nas cidades e consegui entender direitinho o que ela falava. Pra quê dublar se o idioma, mesmo com suas variações, é absolutamente o mesmo?

É um enorme retrocesso dublar obras portuguesas. Eu quero ouvir a voz original de nossos irmãos de língua, nossos amigos e representantes desse povo adorável que ainda tem muitas coisas boas para nos mostrar e que não conhecemos. Já é chato ignorarmos boa parte de sua cultura, vamos ignorar também a sua voz?

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