Os brasileiros tradicionalmente não estão acostumados a usar o discernimento. Além da religiosidade forte de nossa população desestimular a análise e o questionamento, nosso sistema educacional é totalmente baseado na ideia de que "inteligência" é acúmulo de informação, ou seja, é a memorização dessas informações.
A inteligência como processamento de ideias, além de exigir esforço, pode arruinar alguns valores que a sociedade brasileira estabeleceu e criou uma confortável estima que a faz recusar em descartá-los. Como pensar é trabalhoso, desconfortável e destrói valores estabelecidos como "positivos", melhor mesmo é acreditar no que dizem.
Mas há três macetes - falsos em muitos casos - para que os brasileiros aceitem uma ideia como verdadeira, sem utilizar o raciocínio:
- quando uma ideia é seguida pela grande maioria das pessoas;
- quando uma ideia é lançada ou difundida por alguém de prestígio, seja um líder, celebridade, autoridade ou alguém de confiança;
- quando uma ideia é consagrada por um longuíssimo tempo.
Estes três macetes fazem com que os brasileiros tomem ideias como corretas sem precisar pensar a respeito. Aceitando tais ideias, incorporam ao repertório de valores pessoais e passam a defender com unhas e dentes como se fossem verdades absolutas e inquestionáveis.
E reparem que entre esses valores há muitas ideias erradas que vão se consagrando como corretas, como por exemplo a que define o futebol como "dever cívico" e a cerveja como "estimulante". Por não querer verificar se uma ideia faz ou não sentido, é muito mais cômodo acreditar que ela é verdadeira, se favorece a satisfação de nossos instintos.
E por aceitarmos sem verificar ideias erradas, a nossa sociedade vai arrastando muitos erros e problemas causados pela falta de discernimento e pela recusa em negar ideias que nos parecem muito confortáveis.
Recusar nossa vocação racional é mau negócio
Para agravar tudo isso, ainda fomos educados a menosprezar o intelecto e desestimular o questionamento e ridicularizar qualquer coisa que de fato seja intelectual. gostamos de ser chamados de inteligentes, mas rimos da cara de quem é de fato inteligente.
Passamos a odiar formas de cultura intelectualizadas, embora roubemos destas o seu valor e embutimos este valor em formas menos intelectualizadas (como achar que um dançarino sem compromisso intelectual como Michael Jackson fosse mais "intelectualizado" do que Bob Dylan).
Passamos a odiar formas de cultura intelectualizadas, embora roubemos destas o seu valor e embutimos este valor em formas menos intelectualizadas (como achar que um dançarino sem compromisso intelectual como Michael Jackson fosse mais "intelectualizado" do que Bob Dylan).
Odiando a intelectualização, estamos recusando nossa maior prerrogativa: a de sermos seres racionais, que deveriam estar pensando mais e contestando os erros cotidianos, muitos deles disfarçados de "acertos".
Enquanto aceitarmos facilmente o que nos dizem, continuaremos mantendo todos os erros que nos rodeiam sem perspectiva de resolução, já que para isso, é mais do que necessário abrirmos mão de alguns valores e esforçarmos mais os nossos cérebros em busca de soluções reais, ao invés de procuramos uma fuga em algum valor errado que se disfarce de "acerto". Pois a pior coisa é achar que certos erros nos beneficiam.
Enquanto aceitarmos facilmente o que nos dizem, continuaremos mantendo todos os erros que nos rodeiam sem perspectiva de resolução, já que para isso, é mais do que necessário abrirmos mão de alguns valores e esforçarmos mais os nossos cérebros em busca de soluções reais, ao invés de procuramos uma fuga em algum valor errado que se disfarce de "acerto". Pois a pior coisa é achar que certos erros nos beneficiam.


















