Os brasileiros já bateram o martelo. Está decidido que Lewis Skolnick, o protagonista de Vingança dos Nerds, deve morrer. E trataram logo de enfiar a faca bem no peito do desajeitado personagem, para que ele nunca mais viva e incomode a sociedade "nerd".
Metaforicamente foi justamente isso que aconteceu. Aquele "nerd" que conhecíamos através do citado filme, se não bastasse os problemas que enfrenta no cotidiano, foi plenamente rejeitado pela sociedade brasileira, que lhe roubou o rótulo e deu a qualquer um que seja viciado em informática e quadrinhos. Skolnick está finalmente morto, para a alegria dessa turma que nada tem de estranha ou desajeitada.
Com a popularização da informática e a consagração dessa popularidade através do Campus Party, muita gente que nada tem a ver com o perfil de Skolnick resolveu se assumir como "nerd de carteirinha", alterando radicalmente o significado da palavra outrora pejorativa que definia jovens desajeitados com dificuldade social que encontravam na informática e nos quadrinhos a compensação da solidão crônica. O que aliás os novos "nerds" desconhecem por completo.
Aliás, os que eram conhecidos como "nerds", vítimas tradicionais e cotidianas dos bullyings feitos pelas outras "tribos", acabaram por encarar o pior ato de bullying: o roubo de seu rótulo, de sua identidade, pelas mesmas tribos zombeteiras que riam da cara dos discípulos de Skolnick por muitas décadas.
É chato, pois para aqueles que se identificaram com o perfil do famoso personagem interpretado com maestria por Robert Carradine, ficaram mais isolados ainda, já que o rótulo de "nerd" servia como forma de reivindicação e organização. Os desajeitados tinham um grupo para se enquadrar e lutar junto pelos seus direitos, negados pela sociedade "linda" e "espertalhona".
Mas os lindos e espertalhões resolveram tomar o rótulo e deixar ainda mais os antigos nerds ainda mais isolados.
Hoje o rótulo, antes pejorativo (significava otário, segundo a cultura ianque), agora virou um modo dos "perfeitos" dizerem que "não são perfeitos", numa espécie de status às avessas onde posar de "coitado" pode abrir muitas portas e gerar privilégios.
Mas Skolnick, tido pelos brasileiros uma versão caricata daquilo que eles entendem como "nerd" (embora não seja, apesar de alguns aspectos terem sido hiperbolizados), finalmente está morto. Com direito a uma pá de cal em cima, mas sem cerimoniais de cortejos e velórios.
Aqueles que eram conhecidos como "nerds", que já não tinham vida social satisfatória, agora que não terão mesmo, piorando ainda mais a sua situação social.
Os picaretas, uma espécie de alcoólatras cibernéticos, tomaram seu lugar.
Skolnick, descanse em paz. A luta continua.














