
Os brasileiros são pessoas muito peculiares, principalmente quando morre algum ídolo ou pessoa querida. Um recém-falecido qualquer é tratado como se tivesse sido uma pessoa pura, angelical e/ou um lutador importante, que "batalhou pela coletividade". sabemos que nada disso é verdade, pois ninguém é perfeito e nem totalmente bom ou mau. Todos temos os dois lados, havendo o predomínio de um deles. Mas essa mania de canonizar os mortos chegou a consequências extremamente catastróficas com a morte do cantos, compositor e dançarino norte-americano Michael Jackson.
Para facilitar o entendimento desse texto, é bom lembrar que a maioria das pessoas, apesar de "gostar" (sic) de música, não procura se informar sobre características de gêneros musicais, como as músicas são gravadas, a sonoridade dos instrumentos, e até mesmo sobre as negociações financeiras e as possíveis falcatruas que podem ser feitas por empresários e agentes musicais, sobretudo na chamada "cultura de entretenimento", da qual Jackson fazia parte. Além disso, a juventude, que demonstrou várias vezes desprezar o passado, detestar informações sobre datas e ter a mania de tratar as coisas como se fossem mais antigas do que realmente são, acaba embolando as informações, resultando numa confusão que pode tomar proporções gigantescas.
E mais: para piorar as coisas, esses jovens, para se assumirem como "informados", procuram saber mais da vida cotidiana do ídolo, sobretudo afetiva, que é totalmente irrelevante para a carreira de um artista de verdade.
Agora adicione essa falta de informação com a comoção histérica da morte de um ente querido. Aí as coisas pioram, porque na maioria das pessoas, o cérebro trava literalmente, deixando o sentimentalismo fluir de maneira desenfreada. Graças a isso, choveram elogios exagerados a Jackson, atribuindo a ele uma importância muito além da que ele realmente teve.
Houve quem dissesse que todos os gêneros musicais, sobretudo os mais intelectualizados, tivessem a influência de Jackson. Houve comparações a poetas, revolucionários, rebeldes. E também fizeram comparações a outros artistas com trajetórias muito distantes da do ídolo recém-falecido. E muitas invenções de qualidades. Só faltavam ter dito que ele fez falta para a FLIP (Feira Literária Internacional de Parati), um evento sobre literatura.
Não se deve levar a sério esses elogios. Além da comoção histérica e sem racionalidade, esses elogios exagerados vieram muitas vezes de gente que só assiste TV e frequenta festas, que detesta livros e que nunca procura ir atrás de uma informação verdadeira e detalhada sobre alguma coisa, se limitando a aceitar sem discórdia o que a mídia oficial, que tem interesses financeiros, lhe diz. Os jovens de hoje confiam cegamente na mídia, mais ainda na TV aberta.
A importância de Michael Jackson era exclusivamente no ramo da chamada Cultura do Entretenimento, também conhecida como Indústria Cultural, ou ainda Showbusiness ou showbiz, que não possui compromisso com a arte e o intelecto, tem a função apenas de divertir e fazer dançar e que prioriza muito mais a parte visual do que auditiva da indústria musical. E indústrias não fabricam poetas.
Jackson soube como ninguém tirar o proveito do visual para divulgar o seu trabalho. E é esse o seu maior e talvez o único mérito, já que suas canções, apesar de bem-feitas, não possuem impacto. Impacto que ele deixou para a parte visual, atarvés de clipes e coreografias. Mais do que um simples cantor, ele era o verdadeiro showman. Mas tem gente que não ficou satisfeita em vê-lo como o maior showman da história da Indústria Cultural que tivemos no mundo.
CHEGARAM ATÉ A COMPARÁ- LO COM RENATO RUSSO
A histeria tomou formas grotescas na comunidade do Orkut dedicada a banda brasileira Legião Urbana. Se não bastasse ser estranho (e talvez inaceitável) o fato da morte de Jackson ser discutida num tópico de uma comunidade sobre a Legião, os elogios chegaram a exageros descomunais, a ponto do cantor americano ser comparado de igual para igual com Renato Russo. Quem entende de música sabe que os dois nada têm a ver um com o outro e que igualar Jackson e Russo é como dizer que a cebola e a cenoura são o mesmo legume.
Não vou ficar aqui citando as características de um e de outro, mas chega a ser óbvio que a trajetória de um é completamente diferente do outro. Inclusive agiam em setores muito diferentes. Jackson nunca foi roqueiro e nem teve influência na evolução do gênero, embora usasse alguns poucos elementos de rock em seu som. Mas isso até bandas de classic-funk, como a Earth Wind & Fire (esse sim, um nome comparável a Jackson) já fez. Ninguém aqui vai ficar elogiando, por exemplo, Bill Gates (o da Microsoft) por ter sido o melhor Presidente da República que os Estados Unidos já teve. Mesmo sabendo que Gates foi presidente em sua empresa e que dialogava com políticos.
Os jovens precisam mesmo é se informar e colocar as coisas no lugar. É reconhecer o valor de seus ídolos pelo que eles realmente fizeram, não atribuir qualidades que realmente pertencem a outros artistas. Já ouvi características de Elvis, Beatles, Bob Dylan e até de Hendrix e incrivelmente de Morrissey atribuídas a Michael Jackson, como se a importância deste fosse mais importante que a de todos outros juntos. Como se os outros fossem discípulos de Jackson.
Se a juventude não se informar, erros de informação, sendo consagrados poderão gerar danos na cultura e até em outros setores da vida, inclusive nos mais sérios. A ignorância não deve existir e muito menos ser tolerada nos dias de hoje, com a democracia e a internet complementando a educação. Torço para que eu ainda esteja vivo para ver essa socidade muito bem educada.
Publicado originalmente em 03/07/2009.
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Comentário:
White disse...
O pessoal que despreza o passado confunde os fatos antigos com ficção, invertendo-os para satisfazer expectativas ou interesses. O passado e a ficção têm em comum o fato de que não estão acontecendo para serem vistos pelas pessoas.
lembro de quando o Roberto Marinho, dono e personificação das Organizações Globo, morreu, também houve elogios exagerados. A própria Rede Globo o descreveu como um comunista que lutou contra a ditadura. Quem é esclarecido e conhece os rumos da história, sabe que Roberto Marinho era parceiro da ditadura militar, que favoreceu a criação da TV Globo e que era anti-comunista, colaborando inclusive no combate às ideias de esquerda.
A mesma coisa estão fazendo com Jackson, apagando o passado real de hitmaker e colocando a fictícia trajetória de roqueiro intelectual em sua biografia, iludindo incautos e distorcendo suas verdadeiras qualidades de Rei do Entretenimento, mestre dos videoclipes.
Jackson não merece esse puxa-saquismo todo. O que ele fez pelo showbiz já basta para ele ser valorizado. E só isso.