segunda-feira, 23 de setembro de 2024

Identitários transformam festivais de música em eventos de empoderamento

O identitarismo, uma espécie de revanche de algumas classes oprimidas (gays, mulheres, negros, deficientes, etc.) parece que chegou para ficar. E quer se impor como a nova lei social, a ponto de, ao invés de fazer justiça social, criar uma nova elite, mais diversificada e colorida.

Esses excluídos de boutique (já que os verdadeiros excluídos, pobres e pessoas sem traquejo social, continuam abandonados pela mídia e pelas autoridades) resolveram aproveitar toda e qualquer oportunidade para se imporem como novos tipos de seres humanos.

Uma dessas oportunidades são os festivais de música. Com uma gama de cantores, atores e celebridades que se assumam características identitárias, os festivais se tornaram um palco importante para o empoderamento dessa gente que em outros tempos era mal vista socialmente.

Bom lembrar que empoderamento nada tem a ver com aquisição de direitos. Empoderamento vem de poder. O próprio termo deixa claro o verdadeiro objetivo dos identitários, tomar o lugar da elite tradicional para fazer a mesma coisa que a antiga elite faziam. Tomar o poder das mesmas instituições burguesas.

A única mudança é que as novas leis serão direcionadas aos identitários (não aos menos favorecidos das mesmas classes originárias desses identitários, mas as versões bem sucedidas deles), mas sem que haja alterações significativas no modo como vivemos e nos relacionamos nem nas instituições que controlam nossos costumes.

Festivais de música onde a música é coadjuvante, quando não, figurante

Os festivais de música se tornaram bastante chatos nos últimos dois anos, por causa da intervenção dos identitários. Claro que desde que a MTV difundiu os vídeos musicais, a música aos poucos foi se tornando mais visual do que auditiva. dando mais ênfase na aparência e na chamada "atitude" (a.k.a pose). Por isso as rotulações, que nunca foram exatas, se tornaram mais confusas.

Ninguém mais presta atação nas músicas, embora cante junto com o seu intérprete favorito muito mais para declarar amor a ele do que para apreciar a suposta beleza da música. A música se tornou um mero detalhe e o que importa mesmo é usar o evento como auto-afirmação de certas classes, mas de forma exagerada, que parece mais coisa de quem quer tomar o poder do que recuperar direitos.

Os festivais, do contrário que parece, podem estar entrando em uma não assumida decadência, já que atraem um tipo de público tão variado que só aumenta o distanciamento entre os artistas e os supostos fãs, estes que só querem ver famosos para lacrar nas redes sociais e colocar um significado a sua vazia vida social. 

O identitarismo só contribui ainda mais para esta decadência, já que aos poucos, cada festival se torna uma festinha particular dos grupos identitários. Como se os identitários não estivessem satisfeitos com as paradas gays, que já viraram palcos para outras formas de identitarismo. Como se os festivais fossem mais edições de paradas gays e novo paradigma de festival, espantando aqueles que não se identificam com os identitários, preferindo formas de cultura mais racionais, discretas e sem porralouquice.

O mundo dos identitários é muito chato. É um mundo dos que querem se exibir. um mundo da lacração e não da justiça social. Enquanto os identitários festejam o seu empoderamento, muita gente solitária ou miserável (ou as duas coisas juntas) segue sem ter um horizonte, preferindo suportar os seus incuráveis problemas em silêncio, sem qualquer perspectiva de ajuda,abandonada pelas autoridades hipnotizadas pela colorida e bem iluminada festa identitária.

Pode ser que no poder, os identitários se tornem uma elite ainda mais gananciosa e autoritária. Pois, ela tem motivos de sobra para se vingar. Motivos justos, é verdade, mas que podem atingir vítimas injustas. Depois da eufórica alegria da festa identitária, a tristeza das injustiças que se mantém, apenas com a mudança de vítimas. Quem viver, chorará.

domingo, 15 de setembro de 2024

Rock in Rio nunca foi um festival de rock

Já começou a edição de comemoração dos 40 anos do festival de música conhecido como Rock in Rio (na verdade, o festival foi em Janeiro de 1985, mas a comemoração está valendo, pois a organização já estava ocorrendo em Setembro de 1984). o festival deverá durar até o próximo dia 22.

Muita gente está reclamando da escalação do festival, onde não somente tem poucos nomes do rock como chamaram nomes do samba e do popularesco, estranhos para um festival que tem "rock" no nome. Outras pessoas levam o nome a sério e insistem na associação forçada do festival com o citado gênero musical.

Mas afinal, o Rock in Rio foi criado para ser um festival de rock? A resposta é: NÃO. Apesar de inspirado no Woodstock de 1969 (este sim, um festival de rock - as outras edições do Woodstock não foram), desde o começo, o Rock in Rio já fazia uma gororoba de gêneros, colocando muita gente que nada tem a ver no elenco. Pois já na primeira edição, teve até MPB, jazz, folk e pop juvenil.

Porque eles fazem isso? Porque um festival que tem rock no nome não poderia ter somente roqueiros em seu elenco? A resposta é simples: rock não é popular. Não atrai público e consequentemente, não atrai dinheiro. Organizadores argumentaram que se fizessem um festival que tivessem apenas roqueiros em seu elenco de atrações, o Rock in Rio seria um fiasco.

Porque manter a palavra "rock" no nome do festival? Bom, é preciso uma explicação um pouco complexa para justificar este insistente equívoco. Lembrando que Rock in Rio é acima de tudo uma marca, como Mc Donalds e Coca-Cola. Uma mera grife, registrada em cartório.

Brasileiros acham que a palavra "rock" aumenta a qualidade da música

Brasileiros não entendem de rock. Na verdade se prendem a estereótipos, já que não costumam avaliar as músicas com os ouvidos e sim com os olhos. É consagrado o mito de "rock é atitude", favorecendo a rotulação de qualquer coisa que se encaixe no estereótipo, mesmo falso, de rebeldia.

Mas muita gente também acha que chamar um não-roqueiro de "roqueiro" serve para "melhorar" a sua repercussão. Um funkeiro raiz como Michael Jackson (sim, o "Rei do Pop sempre fez funk-raiz) é frequentemente rotulado de "roqueiro" justamente por causa da seu gigantesco prestigio, conseguido muito mais por causa de seus videoclipes cinematográficos do que por sua música mediana. 

Para os fãs de Jackson, rotulá-lo de "roqueiro" significa uma melhoria no seu reconhecimento, enquanto associá-lo ao seu gênero verdadeiro (funk-raiz) soa como uma diminuição de seu prestígio, quase como um xingamento. Estranho. Este é só um exemplo de algo que acontece muito.

Para muita gente, "rock" sempre foi a música típica da cultura americana, o que não é verdade. O country e o jazz já foram símbolos dos EUA durante muito tempo e hoje, nem o rock (que dominou apenas na segunda metade dos 50 até o final dos anos 60) é mais, dando hoje lugar ao hip-hop e a formas comerciais de black music. 

Mas para brasileiros ficou o estereótipo de que o "rock" sempre simbolizou e simbolizará a cultura anglo-americana. Muitos até consideram o pop (rótulo sem sentido usado para classificar um tipo de música altamente popular, daí o nome, abreviatura de "popular") como subdivisão do rock. O que faz com que muitos nomes de qualquer gênero sejam associados na marra ao rock.

Bom lembrar também que rock significa rocha e também sacudida. Com este significado, o de sacudida, a palavra "rock" aparece muito em títulos e letras de canções de funk-raiz dos EUA. Mas como o nosso conceito de funk também mudou, enxergamos nos funkeiros raiz uma espécie de roqueiros black, pois passamos a confundir tudo, pois estamos presos a estereótipos e temos a insana necessidade de rotular.

Rock in Rio nunca foi nem será um festival de rock

O Rock in Rio, em que pese o nome, nunca foi criado para ser um festival de rock. É, na melhor das hipóteses, um festival de música. Somente abilolados acham que o Rock in Rio é um festival de rock. Como falei, o nome do festival é uma marca, e como tal, não merecia ser levado a sério.

Por ter sido criado por um empresário (classe curiosamente homenageada por uma banda formada por empresários, The Clevel, que coerentemente significa "grupo de duques", em alemão iniciado com "K"), Roberto Medina, o que anula qualquer pseudo-humanismo mostrado no marketing do festival (como no slogan "por um mundo melhor"), a meta é obter lucros financeiros e só.

Enfim, há a necessidade de atrair cada vez mais pessoas. E cá para nós, rock nunca foi de fato popular (o modismo do B-Rock no Brasil dos anos 80 foi uma farsa midiática que virou pó logo na década seguinte, com a avalanche popularesca) e é preciso uma maior variedade de gêneros para poder atrair uma variedade maior de pessoas, que darão os lucros esperados pelos empresários organizadores.

Portanto, parem de classificar o Rock in Rio como festival de rock. Não foi, não é e nunca será. Pode ser que o rock do nome do festival seja uma rocha que foi atirada nas cabeças dos menos informados, para cometerem a sandice de associar o nome do festival ao famoso, mas impopular, gênero musical.

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