Hoje, dia de finados, é dia de lembrarmos daqueles que partiram para as outras dimensões, encerrando a sua trajetória neste planeta. Mas nesta postagem, não vamos lembrar de qualquer falecido e sim daqueles que sua morte impediu a evolução de uma forma ou de outra, de algum aspecto importante da sociedade.
Mas não utilizamos critério sentimental para definir estas pessoas, mesmo que a ausência delas seja comovente. Aqui, falamos de pessoas que poderiam ter impedido a mediocridade epidêmica que vivemos em nosso mundo e que mantém, além da alienação, todos os erros, injustiças, problemas e preconceitos que se mantém fortes, mesmo no início de um século que em passado remoto acreditávamos ser o século da evolução.
Esta postagem não tem objetivos biográficos, levando apenas em conta o porque da ausência deles estar sendo danosa. Qualquer informação adicional, pesquise o nome em sites de busca. Vamos a lista, em ordem alfabética.
BRITANNY MURPHY (1977-2009)
A bela e talentosa atriz era uma pessoa alegre, charmosa e simpática. Não como as outras, mas melhor. Era uma mulher cheia de vida e que merecia ser parâmetro de jovialidade e simpatia para as outras mulheres.
Confundida como drogada por tomar remédios regularmente (ela sofria de doença cardíaca), entrou em depressão após perder alguns trabalhos e de estar infeliz no casamento após seu marido tê-la traído com a própria sogra (mãe dela). Consumiu remédios em dose superior a normal e morreu por consequência disso.
CAZUZA (1958-1990) E RENATO RUSSO (1960-1996)
Coloco os dois no mesmo parágrafo porque ambos tiveram a mesma importância dentro da música brasileira. Letristas ímpares, cada um com seu estilo próprio, ambos eram intelectuais da música, escolhendo as palavras certas e aproveitando informações sólidas - ambos liam muitos livros e tinham vasto conhecimento cultural - para criar letras bastante reflexivas e que defendiam na prática a evolução intelectual da cultura brasileira.
Sem eles, perdemos ricos referenciais e a ausência de ambos faz com que os jovens de hoje, perdidos, percam a noção do que seja música de protesto, aceitando qualquer engodo narcisista como tal.
GLAUBER ROCHA (1939-1981)
Cineasta peculiar, principal nome do movimento Cinema Novo e discípulo de muitos diretores do cinema intelectual do mundo, o baiano Glauber Rocha era a personalização do verdadeiro rebelde. Crítico impiedoso da mediocridade cultural, ele mostraria o verdadeiro cinema intelectualizado e com certeza não bateria palmas a esse cinema publicitário que é feito atualmente, um cinema fútil, acéfalo e feito exclusivamente para entreter, tal e qual o cinema comercial feito nos EUA.
Rocha, que sempre aproveitava bem as oportunidades de criticar o sistema e o cinema ruim, era uma pessoa difícil, justamente por não aceitar facilmente as coisas como estão. Os cineastas atuais, publicitários disfarçados de "intelectuais das câmeras" certamente não gostariam de ter Rocha a seu lado a dar palpites bem amargos.
JOSÉ MANOEL BARBOZA (1944-2013)
O palestrante e intelectual espírita José Manoel Barboza (ou Zé Manel, como ele gostava de se referir), sempre se esforçou para tentar corrigir toda a deturpação feita pela forma brasileira do Espiritismo, controlada pela FEB (entidade fundada por dissidentes católicos e que usava o nome "Espiritismo" para defender uma filosofia completamente diferente), mostrando através de suas palestras e programas na TV local de sua cidade, Nova Friburgo/RJ, a verdadeira Doutrina Espírita, tal e qual foi codificada por Allan Kardec, muito bajulado pelos deturpadores, mas nada compreendido.
Barboza falava com firmeza e sem hesitação. Não tinha medo de criticar duramente, tratando os deturpadores como farsantes e usando palavras fortes para definir quem defendia a deturpação. Deturpação que elegeu seu líder máximo: o ingênuo médium católico Chico Xavier, tido erroneamente como o "homem mais bondoso do planeta Terra", considerado um semideus pelos seguidores da deturpação, supostamente dotado de poderes extraordinários e privilégios divinos. Uma ilusão.
José Barboza seria um nome forte para combater a forma deturpada de Espiritismo, impedindo-a de lucrar fortunas e enganar seguidores através de um sincretismo enrustido e da publicação constante de obras de conteúdo duvidoso que ostentam uma verborragia inútil e piegas para falar de amenidades que poderiam ser ditas com pouquíssimas palavras. Com o falecimento de "Zé Manel", o verdadeiro Espiritismo (o de Kardec) perdeu seu mais convincente defensor, fazendo com que a versão deturpada, mesmo em queda de popularidade, retomar seu fôlego através das palestras rebuscadas e enganadoras de palestrantes como o médium Divaldo Franco, maior difusor da deturpação espírita na atualidade.
DR. JOSÉ ROIZ (1922-2003)
Num país em que considera o esporte como a solução definitiva pata muitos problemas sociais, é um verdadeiro ato de coragem e ousadia extrema, falar que esporte tem seus malefícios. Roiz, médico veterano, defensor da atividade física saudável longe de esportes competitivos, alertava que atletas, por terem um metabolismo mais acelerado, envelheciam e adoeciam mais rapidamente. Ele estava certo. A aparência dos esportistas ao chegarem aos 40 anos, comparados a outras pessoas de mesma idade, dá pistas de que Roiz estava certo.
O esporte, muitas vezes considerado infelizmente como "melhor substituto" da educação, além de exigir um esforço que pode comprometer a resistência física de quem o pratica, estimula o egoísmo através da competitividade e estabelece um padrão de "perfeição física" que pode gerar inúmeros preconceitos para quem não se enquadre no padrão apolíneo dos atletas. Roiz faz muita falta por ajudar a destruir o mito ainda fortíssimo de que o esporte só possui vantagens.
Como não achei fotos do médico, vai a capa de seu famoso livro. Roiz também era colunista da revista de esquerda Caros Amigos. Um fato estranho, já que a "esquerda" brasileira diverge de Roiz, defendendo a mitologia do esporte como algo exclusivamente positivo.
JIMI HENDRIX (1942-1970)
Considerado o maior guitarrista de todos os tempos por muitos especialistas, Hendrix sempre foi um estranho no ninho. Negro no mundinho branco do rock e um ianque atuante na Swinging London, Hendrix mudo a trajetória da música com suas composições belíssimas e seu canto espontâneo, ambos embalados por uma sonoridade peculiar de guitarras (no plural, please!).
E poderia mudar ainda mais. Hendrix, infelizmente confundido como um "doidão" em uma sociedade conservadora na época (todo mundo consumia drogas - até mesmo os conservadores tragavam a sua cocaína, sem ninguém saber), era também um intelectual da música, assumindo uma atitude equilibrada nas entrevistas e falando fracamente sobre o que pensava.
Era um militante da música pois queria viver evoluindo sua capacidade de compor, tocar e cantar. Tinha inúmeros projetos com parceiros (tinha agendado parcerias com Miles Davis e com Keith Emerson e Greg Lake) e queria expandir ainda mais o seu já rico leque de diversidade rítmica. Hendrix, embora consagrado no rock, tocava muito gêneros como soul, blues, vários tipos de rock e pretendia fazer jazz fusion e rock progressivo. Um mestre ansioso em aprender consigo mesmo.
A música poderia ter evoluído mais se Hendrix não tivesse morrido com a demora do socorro médico quando passou mal (o mito de que ele morreu de overdose é falso) ao se engasgar. A morte dele poderia ter ajudado a reforçar a referência musical que iria impedir a sua franca decadência, iniciada nos anos 70 e com a degradação francamente acelerada dos anos 90 até hoje.
MILTON SANTOS (1926-2001)
O geógrafo baiano Milton Santos foi uma das mentes mais brilhantes a viver neste país. Intelectual completo, Santos propôs um novo conceito de espaço urbano, eliminando de vez os conceitos tradicionais de periferia x centro (conceito infelizmente retomado pelos defensores da degradação cultural), além de criticar os abusos do Capitalismo e da Globalização, além de ser um lutador pela justiça social e crítico da mencionada degradação cultural (algo raro na intelectualidade brasileira, que em sua maioria considera a degradação uma nova forma de "evolução cultural".
Santos faz muita falta por criticar não apenas em um aspecto, mas em todos, os erros tão comuns no cotidiano, propondo soluções e confrontando fatos. De ideia esquerdista (a legítima, não essa que está aí), reprovava o neoliberalismo e ainda declarou várias vezes sobre os malefícios do excesso de informação jogado pela mídia nas mentes da sociedade, sobretudo dos jovens, que se perdem diante de tantos conceitos, embaralhando-os e tendo uma compreensão distorcida do mundo, gerando toda a imbecilização que vemos por aí.
Exemplo de vida, Santos era poliglota e era consagrado lá fora. Suas ideias ainda são admiradas por estudantes estrangeiros dispostos a entender mais sobre a missão do ser humano na sociedade.
PAULO FREIRE (1921-1997)
Revolucionário da educação e um dos maiores educadores brasileiros de todos os tempos, foi um dos poucos a admitir a existência do chamado Analfabetismo Funcional, aquele em que a pessoa sabe ler e escrever, em níveis basicamente aceitáveis pela vida em sociedade, mas não sabe discernir, tem preguiça em pesquisar, prefere crer do que questionar e confia cegamente no prestígio de pessoas consideradas confiáveis.
Freire iria mudar tudo isso, propondo um modelo de educação que estimula o questionamento e o senso crítico, fazendo os alunos raciocinarem baseados nas coisas que faziam parte de sua realidade. Discretamente, Freire estimulava uma compreensão mais racional da realidade, e isso incomodou a ditadura que o puniu com a não publicação de seu mais famoso livro, Pedagogia do Oprimido, lançado anteriormente em vários países.
Apesar de constantemente bajulado e de ser considerado patrono da educação brasileira, seu método foi descartado e pelo que vemos hoje, está ocorrendo exatamente o oposto, com uma juventude cada vez menos racional e com índices altíssimos de Analfabetismo Funcional.
RAUL SEIXAS (1945-1989)
O maior símbolo do rock baiano e um dos maiores do rock nacional, Seixas era uma espécie de Glauber Rocha da música. Altamente crítico, não era compreendido pelas pessoas, até mesmo pelos que o admiravam. Confundiam-no como um bobo alegre e o tratavam como se fosse um comediante.
Mas as críticas de Seixas eram bem sérias. Seixas, além de alertar sobre os erros do sistema, defendia a qualidade da cultura, sobretudo da música e criticava formas deturpadas e mercenárias. Apesar de roqueiro, defendia a verdadeira cultura nacional e incluiu influências brasileiras, como baião e afoxé em suas músicas. Costumava dizer que Gonzagão e Elvis Presley eram bem parecidos, cada um em seu contexto.
Seixas, por ter sido um crítico impiedoso da decadência cultural, faz muita falta nos dias de hoje. O que os lelekes e sertanojos universotários iriam ter que aguentar ouvir do velhinho rebelde...