sexta-feira, 23 de agosto de 2024

De que adianta fazer música "independente" igualzinha a música comercial?

Infelizmente, o comercialismo na música acabou contaminando muitas mentes há décadas. Hoje ninguém mais sabe diferenciar música comercial da não comercial e muitos acreditam que profissionais mercenários como Justin Bieber e Britney Spears fazem música por vocação e são os verdadeiros "poetas" atuais. 

Desde que as gravadoras surgiram, no final do século XIX, a carreira musical se tornou uma fonte de renda, ou melhor, uma profissão, um emprego. Pessoas que gostariam de ganhar mais dinheiro com menos esforço, preferiram cantarolar para arrumar alguns trocados, mesmo sem ter talento e vocação para isso. 

Pessoas que, por exemplo, dariam excelentes engenheiros preferiram seguir carreiras de cantores ruins. Como perceberam que ganharam muito dinheiro e admiração popular do que se estivessem fazendo cálculos com réguas na mão, lá estão eles e suas musiquinhas irritantes, mesmo com alguma voz agradável que não consegue disfarçar a ruindade da musica e muito menos esconder a falta de espontaneidade.

Independentes educados pelo mainstream mercadológico

Agora, no século XXI, com a internet e o barateamento de recursos que possibilita com que pessoas comuns possam gravar suas músicas com a melhor qualidade auditiva (mas nem sempre com boa qualidade artística), parece favorecer a ampliação do chamado "Do It Yourself" (D.I.Y), base da cultura alternativa e da musica independente, onde o artista passaria a cuidar ele mesmo de sua carreira. 

Só que fomos musicalmente educados pelos meios de comunicação. E os meios de comunicação priorizaram a música comercial. Fomos estimulados a ouvir músicas de artistas de proveta fabricados por gravadoras e produtoras, cantando músicas padronizadas com arranjos fracos e letras fúteis, em geral sobre festas, danças ou vida amorosa.

"Educados" em assimilar a musica comercial como único tipo de música que nos chega aos ouvidos, acabamos por desconhecer a verdadeira música espontânea, o que faz com que a nossa noção de espontaneidade musical seja justamente a música não-espontânea. Para ser mais claro: aprendemos que a verdadeira música é essa daí, que ouvimos com exaustão nas rádios e televisões.

O resultado disso é o aparecimento de intérpretes que apesar do discurso militante em prol da espontaneidade musical, acabam oferecendo o mais-do-mesmo de grande gravadoras, já que em seu meio profissional/social acabou assimilando conceitos de música relacionados com o que o mercado de grades empresas de entretenimento sempre difundiu. Kira Kosarin, cuja capa de seu álbum musical ilustra esta postagem, é um exemplo deste tipo de intérprete. 

Recentemente, Victoria Justice também celebrou a "liberdade" de faz música "independente" , mas igualzinha a que é feita pelas gravadoras e produtoras multinacionais. Curiosamente, a gravadora que contratou Justice pertence a mesma organização que comanda o Grammy, cheia de grandes magnatas da indústria fonográfica. Independente? Sei não.

Vinculo indireto com o que é produzido pelas gravadoras

Agora, o que esperar de alguém, acostumado a ouvir músicas nas rádios, resolve por conta própria fazer a sua carreira musical, mas tendo como embasamento teórico a mesma musica comercial que finge rejeitar? Como esperar que alguém faça algo diferente de, por exemplo, Michael Jackson (para mim o símbolo máximo do comercialismo musical, embora o senso comum o classifique de "pura arte") se este alguém praticamente só ouviu o cantor consagrado por Billie Jean?

Esperamos que as produções independentes ofereçam algo realmente diferente daquilo que está no mainstream. Independente significa alternativo. E alternativo significa opção. Não dá para ser alternativo oferecendo a mesma opção que o mainstream oferece.

Esses novos interpretes "independentes", ao oferecerem o mesmo arros-feijão-bife que estamos cansados de comer, acabam por se tornar hipócritas. Sinal de que não apenas esses intérpretes devem romper com gravadoras e produtores, mas também com o que aprenderam durante décadas sobre o que é "arte" e "cultura". 

Na prática, esses intérpretes "independentes" continuam vinculados, de forma indireta a empresários, gravadoras e produtoras, pois assimilam como ouvintes aquilo que é produzido com objetivos comerciais. Não dá para ser de fato independente tendo como bagagem verdadeiros produtos mercadológicos, músicas tratadas como se fossem um tomate transgênico vendido no supermercado.

Vamos continuar esperando algo diferente e mais consistente vindo de quem resolve fazer música por conta própria, sem o pitaco de empresários, gravadoras e produtoras. Que existe música realmente espontânea, existe. Basta ela, que se esconde por falta de oportunidades de divulgação, aparecer.

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

Lembrança de erros de Sílvio Santos irrita fãs do apresentador

No último sábado, o apresentador mais popular que o Brasil já teve, Sílvio Santos, faleceu após cerca de 2 semanas internado. Demorou para se divulgar a verdadeira causa, pois parentes e amigos do apresentador, que também era magnata, se esforçaram para esconder a sua verdadeira situação. Foi divulgado que Santos, nascido Senor Abravanel, morreu de pneumonia. Tinha 94 anos incompletos. 

O falecimento do apresentador, até por sua imensa popularidade, teve uma gigantesca repercussão, com manifestações de fanática comoção. Mesmo estando o empresário quase aposentado como apresentador, sem aparecer muito em seus programas, entregues a outros apresentadores, além de ter quase 100 anos de idade, muita gente não acreditou que ele fosse morrer. Como se fosse estranho alguém morrer com mais de 90 anos de idade.

Convém lembrar que segundo o machismo estrutural, homens nunca envelhecem, e mesmo morrendo em idade elevada, a morte não é facilmente aceita. Essa não aceitação causou uma comoção que, mesmo esperada, foi muito maior do que se pensava. Parecia que morreu um benfeitor.

Mas esta comoção, boa parte gerada pela memória afetiva de um apresentador que entreteu milhões de brasileiros no domingo, sendo o grande responsável pelo divertimento no dia oficial do divertimento, que é o domingo, fechou os olhos e ouvidos dos fãs que preferiram ignorar ou até mesmo negar fatos escabrosos em que Sílvio Santos estava envolvido. Fatos reais, infelizmente. 

O lado Escuro da Lua

Sílvio Santos teve vários episódios reprováveis em sua trajetória. Já era estranho um reles camelô se tornar magnata de uma forma relativamente rápida. Eu, que entendo de Administração, confirmo que isto é impossível. Para se enriquecer rápido, somente existem três formas, roubando, ganhando na loteria ou através de favorecimento alheio. Parece que a terceira alternativa soa real.

Santos foi bastante favorecido pela Ditadura Militar. Não por acaso, criou um quadro em seu programa chamado de Semana do Presidente, uma manifestação de bajulação disfarçada de informe jornalístico. Graças a esta bajulação, Santos ganhou facilmente uma concessão de televisão, a TV Studios, mais tarde batizada de Sistema Brasileiro de Televisão.

Outra coisa negativa foi a deterioração cultural através da valorização de artistas bregas, que eram quase exclusivamente divulgados nos programas de seu canal. Gretchen, Ovelha, Nahim, Gengis Khan, revelações do canal, além de bregas já existentes como Odair José, Doutor Silvana, Chitãozinho e Xororó,e Abysintho, somado a avalanche de boy-bands como Dominó, Tremendo e o próprio Menudo, além das suas versões femininas como Harmony Cats, Melindrosas e Meia Soquete. Todos ridículos.

Aos poucos, Sílvio foi soterrando a música de qualidade existente nos anos 70, cuja popularidade foi caindo na mesma proporção que o nível intelectual e sendo substituída pelo festival de breguices, com artistas medíocres, com obras simplórias e explícita precaridade musical. Se a cultura de hoje está uma porcaria, Sílvio Santos, mesmo não sendo o criador da breguice, foi o seu principal difusor.

Sílvio também é acusado de não pagar os prêmios anunciados em seus programas. Realmente eu desconfiava de ver pessoas ganhando cerca de 100.000 reais facilmente em seus programas, recebendo na verdade, um vale compras para as lojas do Baú da Felicidade, de propriedade do apresentador. Lojas bem ruins em seu acervo de produtos. Como a Havan, apoiada por Sílvio, é hoje.

Não há evidências se as premiações eram falsas ou verdadeiras, mas para fãs do apresentador, elas eram legítimas, a ponto de transformá-lo em uma espécie de benfeitor, amigo dos pobres.

Mas a associação com a ditadura e posteriormente ao bolsonarismo, foi realmente a grande mancha de sua carreira, pois a má fama do ex-capitão do Exército ajudava a destruir os mitos de bondade e de simpatia do sorridente apresentador, que nos bastidores, era uma pessoa difícil, quase autoritária.

Santos só no nome

Quando pessoas aparecem para lembrar dos defeitos de Sílvio Santos, os fãs se agitam feito abelhas quando a colmeia é sacudida. O ator Pedro Cardoso e o ex-diretor da Rede Globo, Luís Erlanger, falaram verdades sobre o apresentador-empresário. Nada que nunca tenha sido comentado pela sociedade. Erlanger disse que Sílvio era "Santos" somente no nome.

Mas ambos foram esculachados pelos fãs de Sílvio, como se o homem do Baú fosse totalmente despido de qualquer defeitos, como se o apresentador fosse uma espécie de divindade viva, da mesma forma que o charlatão de Uberaba, um vigarista que recebeu do canal o título de "Brasileiro do Século", numa premiação muito mais do que controversa. Tendendiosa até.

Mesmo sendo um apresentador de qualidade inegável, Sílvio Santos guarda também coisas bem ruins em sua trajetória. Temos que ser objetivos e admitir que, se aqui ninguém é perfeito, porque ele seria? Mas o fanatismo de um povo, carente de heróis e infantil a ponto de sair a procura de alguém que lhe sirva de babá, faz com que pessoas muito queridas sejam facilmente canonizadas quando morrem.

domingo, 18 de agosto de 2024

Não se mede qualidade musical com sucesso

Minha nossa! O ilusionismo feito pelas gravadoras e meios de comunicação está dando certo! Muita gente iludida com os ídolos fabricados pela mídia, achando que tais ídolos são "poetas" e ignorando todo o esquema feito pelas gravadoras e mídia, formadas por empresas que tem como único objetivo ganhar dinheiro.

Saudades dos anos 60, a melhor década cultural de todos os tempos, em que artistas não eram submissos às gravadoras ou às paradas de sucessos e que criavam belíssimas canções que valorizavam a inteligência, a beleza e a criatividade.

Desde os anos 70, a indústria, cansada dos avanços sugeridos pelos artistas e intelectuais da década anterior, que ameaçavam a ganância capitalista, incluindo a de poderosos magnatas da indústria do entretenimento, optou por retomar o conservadorismo mercenário da cultura dos anos 40 e 50.

Aí o povo preferiu se esbaldar nas discotheques enquanto as desigualdades eram mantidas. A qualidade musical foi se deteriorando, artistas foram se tornando escravos das gravadoras e aí quem fazia música de qualidade ia aos poucos fadado ao esquecimento sob rótulo de "música para intelectual".

Nos anos 90 houve a consagração do mercantilismo cultural. Com a queda do muro de Berlim, os capitalistas se sentiram fortes e livres como nunca e invadiram todos os setores da humanidade, privatizando tudo, todos e quem estivesse na frente. Aí a qualidade musical foi pro brejo, literalmente.

Hoje, retomamos a ideia arcaica - que quase ia sendo derrubada, primeiro nos anos 60 e depois nos 80 - de que as paradas de sucesso, as vendagens e a presença na mídia são atestados de qualidade musical. Esta que também é medida pela plateia , pela posição nas paradas de sucesso e frequência em que é mencionado na mídia oficial. Independente de que som faça, com ou sem espontaneidade.

Os escravos de mídia, gente que acha que tudo que aparece na TV é o que existe de cultura e que por isso ignora a existência de qualquer artista que não apareça na mídia, se irrita quando tento estabelecer a diferença entre a mass-culture (o que eles curtem) e a cultura de verdade.

Gente que precisa aprender que gostar de algo não significa dar valor cultural. Particularmente não gosto da música de Leonard Cohen, mas reconheço que ele tem uma gigantesca importância cultural. Já gosto de muitas músicas da Madonna, mas acho ela apenas uma entertainer. Surgiu apenas para divertir, com valor cultural zero.

Podem continuar curtindo seus ídolos, compre seus discos e vejam seus vídeos e shows. Mas saibam o que estão consumindo e parem de vê-los como deuses. Esses mesmos ídolos não vão colocar a comida em suas mesas por vocês pensarem desta maneira.

sábado, 17 de agosto de 2024

A diferença entre a arte e o entretenimento

Com o emburrecimento da humanidade causado pela mídia, que a serviço dos grandes capitalistas, não tem interesse nenhum em educar ninguém (só aquela educação mecânica, técnica, para o mercado de trabalho), está havendo um desinteresse da população pela verdadeira arte e o hábito de colocar o entretenimento no lugar, como se fosse cultura superior.

Muitas polêmicas têm surgido por causa disso e pelo fato dos mais intelectualizados (talvez por impaciência, não por burrice) acharem que tudo que é entretenimento é ruim, ninguém quer se assumir como sendo de puro entretenimento. Ser artístico ou ser divertido nada tem a ver com qualidade. São setores diferentes e pode haver qualidade em ambos. Só que a qualidade é obrigatoriamente relacionada com o seu objetivo.

Aí encontrei uma analogia interessante que vai ajudar a acabar com as dúvidas entre o que é arte e o que é entretenimento: através da diferença entre comida nutritiva e comida gostosa.

A arte é a comida nutritiva, que pode ser gostosa às vezes, mas muitas vezes não agrada. Mas quem come, sempre estará melhor alimentado e sadio(informado, esclarecido, no caso da arte).

Já o entretenimento é representado por aquelas guloseimas, fast food, que são sempre gostosas, mas nunca nutrem o suficiente. Alguns podem até não fazer mal (digamos que o popularesco seja a guloseima estragada, fazendo mal), mas nunca alimenta o suficiente. Quem consome apenas comida gostosa pode ficar anêmico (alienado, no caso do entretenimento) e vulnerável à muitas doenças.

Portanto, vamos usar essa analogia para acabar com as dúvidas:

Arte = comida nutritiva (legumes, verduras, frutas e similares)

Entretenimento = comida gostosa (fast food e guloseimas)

E assim, poderemos tentar melhorar o nosso nível cultural, assim como vamos nos alimentar melhor.

sexta-feira, 16 de agosto de 2024

Exigências feitas para emprego e namoro não são para qualificar e sim para excluir mesmo!

Todos estão carecas de saber que vivemos em uma sociedade cada vez mais exigente. A cada dia mais gananciosa e ambiciosa, a sociedade, incapaz de repartir bens de maneira igualitária, exige condições para que certos bens possam ser concedidos. Coisa agravada após o golpe de 2016 e no governo fascista de Jair Bolsonaro, e infelizmente mantida pelo governo Lula, ambos eleitos para favorecer mentes gananciosas e excludentes.

Iludida pelo fato de vivermos em uma época supostamente avançada (avançada apenas tecnologicamente, mas intelectualmente ainda atrasada - as máquinas pensam por nós?), a sociedade pensa que tais exigências existem para qualificar os que irão receber tais benefícios.

A prática mostra que essas exigências são ineficientes e até ineficazes na pretensão de qualificar beneficiários. Aliás, acaba revelando que a qualificação é apenas uma desculpa e que na verdade a intenção mesmo é filtrar, segregar, eliminar concorrentes com base em critérios subjetivos.

"Qualificação" na verdade é filtragem com base em critérios subjetivos

O que vemos ao nosso redor serve como prova de que os critérios de filtragem nada são objetivos, como se pensa. Os responsáveis por ceder benefícios se acham no direito de escolher quem querem e como querem, baseados não na funcionalidade e sim no desejo de satisfazer diretamente ou não ou seus instintos.

Mas uma sociedade como a brasileira,  que tem o hábito de aceitar tudo cegamente, sem questionar e ainda é estimulada pela opinião pública a agir assim, tudo parece certo e plausível. A confiança cega naqueles que fornecem ou permitem benefícios favorece os abusos de quem exige o máximo para oferecer o mínimo.

Mas do contrário que todos pensam, esse aumento de exigências não está melhorando em nada a sociedade. Principalmente nos empregos e na vida afetiva, observados claramente que o aumento de exigências não passa de um abuso a não qualificar nada. E fatos comprovam isso.

"Qualificação" pode excluir profissionais qualificados

No emprego, o aumento de exigências serve mesmo para que diminuam, antes mesmo do processo de seleção, candidatos aos cargos. Todos sabem que no sistema capitalista, ter dinheiro garante a sobrevivência e a aquisição de bens, o que faz com que todos corram atrás de empregos.

Mas para ter emprego, é preciso satisfazer as exigências de quem paga, já que os pagadores entendem que pagam aos outros para satisfazer seus desejos, embora finjam que seja para interesse coletivo. Muitas vezes, quando se compara as listas de exigências com a qualidade do serviço oferecido, a gente descobre que tais exigências não ajudaram em nada na qualificação, se revelando na verdade uma farsa para segregar e impedir o acesso aos direitos.

Contratantes são seres humanos, tão falhos quanto qualquer um. O nosso sistema não impede que pessoas bem ignorantes (não estou me referindo a escolaridade e sim a capacidade de discernimento - coisas rara num país onde isso é desestimulado) possam se tornar "líderes", um cego a guiar cegos. E muitos desses contratantes levam para os escritórios suas convicções e traumas pessoais.

Nisso, correm o risco de dispensarem excelentes profissionais que não se enquadrem na exigência definida, dando oportunidade para profissionais medíocres tomarem o lugar, já que muitas dessas exigências não estão relacionadas com o cargo pretendido e se um profissional de qualidade não satisfaz nenhuma delas, ele é automaticamente dispensado.

Educação, no Brasil, é feita para excluir, não para educar

Desde a infância, as crianças, normalmente não-excludentes, são (des)educadas pelos adultos a segregarem os outros. Através das provas, aprendem que benefícios são trocados pelas satisfação de exigências nem sempre justas.

O sistema educacional do país (que trabalha para as elites - estimulando a competitividade e a exclusão social), sempre se preocupa em colocar mais provas para impedir o acesso pleno aos direitos básicos da vida. Impressiona que para o Ministério da Educação, provas sejam muito mais importantes que as aulas, o que me faz apelidar esse ministério de Ministério das Provas. E mesmo assim vemos a educação piorar cada vez mais.

O próprio sistema de disciplinas escolares já é uma mostra das intenções excludentes de governos. Matérias supérfluas são priorizadas em detrimento das essenciais. Assuntos de complexidade extrema, de interesse de poucas classes profissionais são exigidas de todos no ensino médio. No vestibular ou no ENEM, os candidatos são obrigados a ter um conhecimento estranho ao de suas áreas profissionais se quiserem entrar na faculdade desejada.

E para quê exigir um nível de conhecimento que mais tarde se mostrará inútil na carreira escolhida?  Isso é qualificação? Em que é útil um administrador de uma fábrica da motores para carro saber a estrutura química de um tijolo? Um biólogo que vai cuidar de espécies no agreste brasileiro deve conhecer as fórmulas da trigonometria? É estranho, é inútil, mas em nosso sistema educacional, as coisas "funcionam" dessa maneira.

Para a vida afetiva também se faz exigências inúteis

Numa sociedade ignorante, odiosa e gananciosa, em que há injustiças para todo o lado, a vida afetiva não poderia ficar de fora. Seres humanos falhos costumam ser falhos em muitas ocasiões e só deixarão de ser quando desenvolverem a lógica e o discernimento, direcionando suas exigências para algo mais eficiente.

Com a desculpa de se "protegerem" de um mundo cada vez mais "inseguro", as mulheres resolveram apertar ainda mais as exigências, mas apenas nos aspectos relacionados com proteção e sustento. Mas isso não garante o sucesso afetivo, já que muitos dos aspectos relacionados com proteção e sustento são inúteis para o sucesso de um relacionamento. Sem falar que muitas das agressões contra mulheres são feitas por namorados/maridos que satisfazem o perfil ideal de protetor/provedor.

Muitos dos aspectos necessários não estão relacionados com proteção e sustento, sendo negligenciados em favor destes últimos. Muitos dos homens rejeitados pelas mulheres dariam melhores companheiros, mesmo não satisfazendo aspectos de proteção/sustento, mas por satisfazerem outros aspectos mais necessários e eficientes.

Resultado: casais onde o homem traz dinheiro para casa, impõe respeito social pelo porte físico ou pelo prestígio profissional, mas que em matéria de humor e caráter e´um verdadeiro desastre, transformando qualquer relacionamento numa situação desconfortável que só é "bem sucedida" quando suportada pelos aspectos de proteção e sustento, que acabam compensando as falhas de personalidade do homem escolhido. Pelo menos enquanto essas falhas não se transformam numa grave tragédia.

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

O Princípio da Legalidade garante o direito de sermos diferentes da maioria

Estava nesta semana estudando para mais um concurso, a sair no próximo ano e ao estudar Direito Constitucional, o conteúdo me fez lembrar de alguma coisa.

A Constituição é clara: Item II do Artigo 5º do Título II da Constituição Federal do Brasil, conhecido como Princípio da Legalidade: "II - ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei". A Carta Magna dando o livre arbítrio ás pessoas nos pontos em que a Constituição não obriga.

Mas porque a sociedade, principalmente no lazer e nas regras de convívio, são tão rigorosas no cumprimento de "formalidades"? porque quase todos os brasileiros pensam da mesma maneira, agem da mesma maneira, tem mesmos gostos, hábitos, se a lei não os obriga a tal?

Para refletir sobre isso, é importante lembrar que o ser humano é um ser social. E ter uma vida social é um direito básico. Até aí qualquer um sabe, inclusive as crianças. E para facilitar a aquisição desse direito, um pouco mais de prestígio ajuda bastante.

No Brasil, a aceitação social se dá pela afinidade de costumes, gostos e ideias. Muitas vezes, uma pessoa não é "simpática" porque é realmente simpática, mas porque faz aquilo que a maioria faz. Essa busca pela aceitação social é que faz com que os brasileiros abram mão da personalidade e até do prazer para imitar os outros, fazendo aquilo que os integrantes do grupo escolhido faz. E o que este grupo faz nem sempre é correto ou necessário.

No Brasil, muita gente resolveu aderir a atividades fúteis e inúteis com a única finalidade de aceitação social. Bebidas alcoólicas, festas, religião, futebol, tatuagem, consumismo e até mesmo na escolha de namorados/as, são adotadas como obrigações sociais, na intenção de alguém  parecer agradável as pessoas a que se quer conquistar. Infelizmente as qualidades pessoais contam muito pouco na conquista de amizades, quando não se satisfaz a exigência que a sociedade decreta.

Só que estas exigências, além de não trazerem nenhum benefício moral ou intelectual, não estão na Constituição ou em qualquer lei formal. São regras passadas de boca-em boca, ou pelo menos consagradas pela mídia e por costumes sociais. Mas há quem não esteja disposto a aderir, como eu. E para estes, como fica a vida social? Não fica. Porquê?

Brasil, o país dos Marias-vão-com-as-outras

Apesar dessas regras, além de desnecessárias, não estarem em nenhuma lei formal, elas são exigidas com rigor. Aquele que não as segue, é "punido" com limitações sociais, muitas vezes com a recusa de uma vida social digna. na melhor das hipóteses, é aceito, mas com algum rótulo pejorativo, já que a sociedade brasileira não aceita, embora tolere, as vezes, pessoas consideradas "diferentes".

É algo cultural, mas estranhamente não-assumido (quem gosta de assumir defeito?) e arraigado em nossa sociedade o hábito de imitarmos a maioria para sermos aceitos pela sociedade. Isso é tão arraigado que tem muita gente que pensa que esse hábito é "biológico", fazendo crer que, aqueles que não seguem a maioria possuem algum tipo de retardamento mental.

Não é raro vermos pessoas diferentes sendo chamadas de "loucas", acusadas de terem algum problema mental, o que já pode caracterizar um tipo de desrespeito, punível da mesma forma que a lei de racismo (contra a "raça" dos "esquisitos").

O direito de ser diferente deve ser respeitado

Esta lei mencionada no início do texto deveria ser impressa em um cartão para ser levado a qualquer lugar, podendo até estar junto da carteira de identidade. Para podermos justificar o nosso direito de não ter que aderir a futilidades só para agradar a sociedade, colocando na cabeça desta que nem todas as exigências são justas e obrigatórias.

Que dá para ser feliz e principalmente, normal, sem ter as mesmas preferências da maioria, mas tendo, aí sim, garantido o acesso aos mesmos benefícios que a maioria tem, pois a vida social em si  é que é realmente biológica (não as exigências sociais), pois não há ser humano que consiga viver bem isolado, sem dar sequer um "bom dia" a um vizinho qualquer.

Ninguém é obrigado a agradar com costumes e gostos para ser aceito. O que importa mesmo, deveria ser as qualidades pessoais que todos nós possuímos e que possam ser utilizadas para o bem estar e desenvolvimento da sociedade.

quarta-feira, 14 de agosto de 2024

O Brasil ainda não percebeu que já tem a sua música de mercado

Para a maioria das pessoas, não interessa o que se passa nos bastidores de criação das músicas que gosta. O que importa é acreditar na lendária hipótese de que todo criador de música é poeta e cria de acordo com "inspirações divinas", músicas que, por mais medíocres que sejam, possam permanecer pela eternidade. Nem que essa "eternidade" dure apenas poucos meses, já que estas pessoas não conseguem enxergar o futuro, mas apenas o presente.

Esse desinteresse pelos bastidores da música facilita a má compreensão do que é música de verdade e música comercial, que nas palavras do estudioso da comunicação Umberto Eco é conhecida como canção de consumo.

A música de verdade é espontânea e mão segue padrões nem modismos. Mesmo que um criador desse tipo de música ganhe dinheiro com a sua venda, isso é apenas uma consequência e ele não condiciona a sua obra a uma garantia de lucro. Ele cria e grava o que realmente pensa não o que os outros - supostamente - querem.

O cantor/compositor comercial, mercenário, é o contrário. Ganhar dinheiro fazendo música é o seu objetivo. Segue literalmente a orientação de produtores e empresários, observa as "tendências" da moda e abusa de recursos tecnológicos e visuais para seduzir público, criando factoides para se manter em evidência.

A música comercial, ou canção de consumo, ou ainda música de mercado, surgiu provavelmente nos anos 40 e já vem sendo questionada por estudiosos estrangeiros desde então. É integrante da chamada mass culture, uma espécie de "cultura" estereotipada, voltada para o consumo, criada pelas empresas de comunicação e entretenimento para criar produtos supostamente culturais que possam garantir a renda dos envolvidos.

Só para deixar claro, é preciso separar o artista (que faz a obra se preocupando com ela) do entertainer (que faz a obra pensando nas vendas, na diversão - entretenimento - alheia, sem fazer o que realmente acredita, tratando a carreira artística como um reles emprego).

O Brasil já tem a sua música de mercado

O brasileiro é um povo ingênuo, que gosta de ser enganado sem saber que está. Acha que o mercenarismo só existe na política e que no entretenimento, sobretudo no esporte e na música, só existem "santos", "poetas" e "artistas". Gente que supostamente ama o que faz e tem o dom para aquilo quando na verdade deveria estar ganhando dinheiro de outra maneira (que diabos os brasileiros acham que as personalidades "bem sucedidas" só sabem fazer aquilo?).

Mas desde muitos tempos, discretamente tem se construído uma música de mercado para o Brasil. Impressionante, mas os empresários há muito não perceberam que a ingenuidade típica do povo brasileiro poderia facilmente fazer surgir consumidores em potencial da música de mercado.

Desde os anos 70, mesmo havendo tentativas anteriores - enfraquecidas pela cultura de verdade dos anos 60 - a música brasileira tem sofrido um declínio lento, que se acelerou nos anos 90, com o fortalecimento do Capitalismo com a queda do Muro de Berlin e do desenvolvimento tecnológico.

O popularesco, herdeiro da chamada música brega, caracterizada por um monte de ídolos sem vocação que entenderam que a música seria um modo fácil de ganhar dinheiro e sair da miséria financeira onde se encontravam, se fortaleceu justamente nos anos 90, com autênticos cantores de chuveiro e de churrascaria que acabavam se consagrando pela mídia, adquirindo uma espécie de "armadura moral" que os impede de serem criticados, passando a ser confundidos como "gênios da música" por um público sem o hábito de discernir as informações que recebe.

E os empresários de gravadoras, televisões, rádios e também os patrocinadores perceberam que, com a redemocratização do Brasil, precisavam, além de impedir o surgimento de novos subversivos, aproveitar o medo que a população tem - até hoje - das autoridades, que estimula uma passividade sem igual, para impor a "nova cultura", usando cantores e compositores medíocres e totalmente submissos aos meios em que trabalham.

Com a consagração da música de mercado e o enfraquecimento da música de verdade, o Brasil já começa a assimilar algo que já existe há tempos nos EUA, que há mais de 60 anos não possui uma cultura de verdade que seja típica e é totalmente refém da mass culture, produzindo uma música que sirva os interesses financeiros de quem as patrocina, visando chegar a posições privilegiadas nas paradas de sucesso que, embora para muitos sirva de "atestado de qualidade musical", na verdade é o diagnóstico de vendagem e popularidade de uma determinada música ou ídolo.

Os brasileiros agora tem que estar cientes de que a cultura está morrendo e que vemos surgir cada vez mais produtos e cada vez menos artistas. E que estes produtos, tentam, sob o disfarce de "artistas", convencer que a cultura brasileira sob as rédeas desses produtos e de seus tutores (empresários e patrocinadores), garantindo uma durabilidade de meros modismos fracos, ensinando errado a população, tão carente de heróis e de poetas, adotando como tais qualquer mercenário que lhes satisfaça os instintos.

(Publicado originalmente no Planeta Laranja em 13/07/2012. Mas como nada mudou, o tema ainda está tão atual...)

terça-feira, 13 de agosto de 2024

Prefiro uma canção "alienada" de um cantor de protesto do que uma música "de protesto" de um cantor alienado

Para muita gente acha que a qualidade musical está no tema das letras musicais. Acham que a música é boa quando fala letras belas ou intelectualizadas ou é ruim quando fala de sexo e violência ou de temas banais. Nada disso. 

A qualidade da música, além da melodia e da combinação dos arranjos instrumentais, está na maneira como o tema é colocado na letra e nas intenções do compositor que a cria, mantendo a coerência com a personalidade de seu criador. Mesmo quando a música é instrumental, o próprio titulo, comparado a melodia da música serve para dar o tema que irá ilustrá-la.

Mas uma música não precisa ser intelectualizada para ser bem feita. Na verdade, quem tem que ser intelectualizado é seu criador, não a música criada. Um bom exemplo disso é o saudoso compositor João de Barro, conhecido também como Braguinha. Braguinha era capaz de escrever letras inteligentemente criativas sobre temas considerados banais. Muitas de suas marchinhas eram muito bem escritas e de beleza inquestionável. Mas se levarmos em conta o critério equivocado de qualificar uma letra pelo tema, Braguinha seria considerado "alienado". Não era, enriquecendo a cultura brasileira com suas obres de temas ingênuos mais muito bem elaborados.

Música de protesto sem protesto

Na contramão disso, há muitos cantores que entram em ondas de "protesto" na tentativa de parecerem "conscientizados", mas sem ter o engajamento e o nível de informação e discernimento necessários para uma verdadeira mensagem de protesto. 

No Brasil mesmo, quando a Legião Urbana foi fazer sucesso, um monte de oportunistas se meteu a fazer música de "protesto" de qualidade risível como "Tô P da Vida", aquele axé do "Chega de bobeira, já virou sacanagem" (que nem vou me preocupar em pesquisar) e até a Xuxa, com a alienada e estereotipada "Boas Notícias" e muitas outras tolices, felizmente esquecidas.

Outro exemplo: lá fora, o cantor Michael Jackson, considerado pelos brasileiros como um "deus superior da arte" por pura credulidade (era o mais competente dos hit-makers, é verdade, mais por estar cercado por gênios do que por ser um "gênio"),  também tentou criar a sua "canção de protesto", They don't care about us. Para quem sabe o que é arte e protesto e conhece a reputação apolítica do finado intérprete, além de entender inglês, percebe muito bem que é uma cançãozinha bem estereotipada, pedante, um verdadeiro forçamento de barra para ser considerado "rebelde" sem ser de fato. Somente os ingênuos gostaram. O problema é que esses ingênuos estão em grande quantidade, sobretudo no Brasil, onde Jackson tem os súditos mais fanáticos.

Cantor de protesto lançou álbum "alienado"

O que me fez escrever esta postagem é na verdade uma aventura relaxante e descontraída de um compositor normalmente envolvido em letras de consciência social: Cat Stevens. Estava escrevendo sobre a apresentação que ele, hoje conhecido com o nome de Yusuf, fará no Brasil e me lembrei  de escrever sobre isto, ou melhor sobre Izitso.

Stevens, pouco antes de se retirar da carreira para seguir o ativismo social após se converter ao islamismo, decidiu fazer um disco descontraído, Izitso (sei lá o que isso significa!), quase eletrônico. Vários músicos de folk tentaram fazer aventuras eletrônicas, como Neil Young (álbum Trans, 1980) e Stevens também fez o seu.

Há uma música instrumental no álbum chamada Was dog a Doughnut, algo como "Um cachorro foi um tipo de biscoito-rosquinha?", o que poderia ser considerado bastante alienado. O ritmo de uma pseudo rumba tocada como se fosse fundo musical de videogame jogava mais lenha nessa impressão errada. Mas a música é divertida e apresentou ao mundo uma faceta diferente de Stevens, como uma forma descontraída de despedida, antes de se retirar da música (para voltar mais de três décadas depois).

Para mim, é plausível que um cantor de protesto ou de obras intelectualizadas escreva e grave uma obra que poderia ser "alienada", já que inteligentes podem "regredir" quando quiserem, pois os momentos de ingênua descontração fazem parte de sua experiência intelectual. Ridículo é ver nomes em franco processo de aprendizado criarem obras sobre o que não entendem, por ainda não terem chegado a um nível intelectual adequado a criações mais avançadas.

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Não existem pessoas boas ou más. Bondade e maldade são atributos de atitudes, não de seres humanos

 Estamos acostumados a dividir a sociedade em "homens bons" e "homens maus". As obras de ficção sempre gostaram de enfatizar a existência de "heróis" e vilões", através de perfis estereotipados. As religiões, também baseadas em obras de ficção, mas consagradas como reguladoras morais da humanidade transformaram este conceito em lei. 

Com base nisso tudo, os legisladores do senso comum bateram o martelo e decidiram: sim, a humanidade é dividida em "bons" e "maus". Os primeiro merecem o bem estar e a prosperidade (mesmo excessiva, às custas do prejuízo alheio) e os segundos merecem a punição mais rigorosa possível.

O conceito de bondade e maldade é muito subjetivo. Todos nós temos um pouco dos dois lados. Não há quem seja 100 bom nem 100 mau. Na verdade, não somos bons nem maus. Boas a más são as atitudes que tomamos e as circunstâncias é que definem que tipo de atitude utilizar. 

Há momentos em que homens considerados bons cometem crueldades e homens considerados maus cometem atos de generosidade. Homens de bem capitalistas não vivem prejudicando as classes operárias em prol dos lucros gananciosos? O que dizer de traficantes que beneficiam moradores da favelas quando o poder público oficial dá as costas a esses moradores?

São somente dois exemplos, mas há uma infinidade de casos que colocam em cheque o conceito de "homem bom x homem mau". Há um motivo para que essa divisão social que impõe a rotulação entre "bons" e maus" seja adotada: confiabilidade social.

As pessoas gostam de ser rotuladas de boas porque atrai confiança e por consequência, benefícios. Seres humanos são seres sociais e muito dos benefícios que obtemos é por graças a sociabilidade. Sexo e dinheiro, por exemplo, são obtidos por meio de outras pessoas. Parecer bons aos outros é importante para que tornemos confiáveis e atraíssemos pessoas para nos beneficiar.

Por outro lado, ser mau afasta os outros e mesmo que o nosso instinto de sobrevivência e a ganância nos façam prejudicar os outros, fazemos de tudo para que não percamos o rótulo de "bons". Nada pior do que ser rotulado pejorativamente, o que afastará quem poderá nos trazer benefícios de quaisquer tipos.

Escondemos atitudes más para atrair confiança. Quando não conseguimos esconder, mudamos conceitos para que más atitudes pareçam boas. A Meritocracia, por exemplo, transformou a ganância em algo positivo. Os ricos e prósperos podem querer ter tudo para si de forma tranquila, já que possuem uma justificativa pronta para validar a sua ganância.

Não raramente, atitudes que causam prejuízo alheio são justificadas como "atos de defesa" como se observa nos cacoetes ideológicos dos auto-rotulados "homens de bem", que se consideram pessoas bondosas mesmo praticando maldades. Isso comprova o caráter subjetivo e portanto duvidoso do costume de se dividir a humanidade em "bons"  "maus".

Esqueçamos este conceito. Não existem pessoas "boas" e "más". Nunca existiu. Boas e más são as atitudes que tomamos. Toda pessoa de bem já prejudicou alguém, intencionalmente ou não. 

Quando percebermos o erro de dividir a humanidade desta forma, diminuirão a ocorrência das más atitudes. Até porque muitas de nossas más atitudes tem origem neste conceito, já que gostamos de prejudicar aqueles que consideramos "más". Mesmo que estas sejam as melhores pessoas do mundo.

domingo, 11 de agosto de 2024

Umberto Eco: "O excesso de informação provoca amnésia"

ENCORPANDO A VITAMINA: A humanidade está pagando o preço por ter subestimado a educação, transformando-a num mero acumulador de ideias uteis apenas para o mercado de trabalho. A nossa educação há anos transformou as escolas em fábricas de técnicos e doutores, se esquecendo de ensinar a pensar.

Sem saber utilizar o raciocínio, a grande massa permite as aberrações que vemos hoje em dia que resultam na má qualidade cultural, na supervalorização de conceitos e hábitos fúteis ou nocivos e no desinteresse das pessoas por aquilo que realmente é relevante útil e necessário. Além de muita credulidade, na mídia, nas regras sociais e nas lendas impostas pelas religiões.

Foi só colocar essa imensa massa de ignorantes de todos os níveis na internet para haver a perpetuação de erros seculares que o mundo, principalmente a sociedade brasileira, precisava extirpá-la para poder se evoluir.

Com o estrago feito, é aguardar o nascimento de novas pessoas, com novas ideias para tentar consertar esses erros clássicos que a sociedade teimosamente RECUSA a eliminar, preferindo acusar aqueles que os aconselham de antipáticos e autoritários.

Até segunda ordem, ser feliz, para a sociedade, é o mesmo que ser idiota (sem assumir esse rótulo). Vamos ver se isso acaba.

Mas o saudoso e brilhante Eco nos alerta para esse perigo. Vamos ver o que ele tem a nos dizer.

Umberto Eco: "O excesso de informação provoca amnésia"

LUÍS ANTÔNIO GIRON, DE MILÃO - ÉPOCA Atualizado em 30/12/2011 16h48

O escritor italiano diz que a internet é perigosa para o ignorante e útil para o sábio, porque ela não filtra o conhecimento e congestiona a memória do usuário.

O escritor e semiólogo Umberto Eco vive com sua mulher em um apartamento duplo no segundo e terceiro andar de um prédio antigo, de frente para o palácio Sforzesco, o mais vistoso ponto turístico de Milão. É como se Alice Munro morasse defronte à Canadian Tower em Toronto, Hakuri Murakami instalasse sua casa no sopé do monte Fuji, ou então Paulo Coelho mantivesse uma mansão na Urca, à sombra do Pão de Açúcar. "Acordo todo dia com a Renascença", diz Eco, referindo-se à enorme fortificação do século XV. O castelo deve também abrir os portões pela manhã com uma sensação parecida, pois diante dele vive o intelectual e o romancista mais famoso da Itália.

Um dos andares da residência de Eco é dedicado ao escritório e à biblioteca. São quatro salas repletas de livros, divididas por temas e por autores em ordem alfabética. A sala em que trabalha abriga aquilo que ele chama de "ala das ciências banidas", como ocultismo, sociedades secretas, mesmerismo, esoterismo, magia e bruxaria. Ali, em um cômodo pequeno, estão as fontes principais dos romances de sucesso de Eco: O nome da rosa (1980), O pêndulo de Foucault (1988), A ilha do dia anterior (1994), Baudolino (2000), A misteriosa chama da rainha Loana (2004) e O cemitério de Praga. Publicado em 2010 e lançado com sucesso no Brasil em 2011, o livro provocou polêmica por tratar de forma humorística de um assunto sério: o surgimento do antissemitismo na Europa. Por motivos diversos, protestaram a igreja católica e o rabino de Roma: aquela porque Eco satirizava os jesuítas ("são maçons de saia", diz o personagem principal, o odioso tabelião Simone Simonini), este porque as teorias conspiratórias forjadas no século XIX - como o Protocolo dos sábios do Sião - poderiam gerar uma onda de ódio aos judeus. Desde o início da carreira, em 1962, como autor do ensaio estético Obra aberta, Eco gosta de provocar esse tipo de reação. Mesmo aos 80 anos, que completa em 5 de janeiro, parece não perder o gosto pelo barulho. De muito bom humor, ele conversou com Época durante duas horas sobre a idade, o gênero que inventou - o suspense erudito -, a decadência europeia e seu assunto mais constante nos últimos anos: a morte do livro. É de pasmar, mas o maior inimigo da leitura pelo computador está revendo suas posições - e até gostando de ler livros... pelo iPad que comprou durante sua última turnê americana.

ÉPOCA - Como o senhor se sente, completando 80 anos?
Umberto Eco - Bem mais velho! (Risos.) Vamos nos tornando importantes com a idade, mas não me sinto importante nem velho. Não posso reclamar de rotina. Minha vida é agitada. Ainda mantenho uma cátedra no Departamento de Semiótica e Comunicação da Universidade de Bolonha e continuo orientando doutorandos e pós-doutorandos. Dou muita palestra pelo mundo afora. E tenho feito turnês de lançamento de O cemitério de Praga. Acabo de voltar de uma megaexcursão pelos Estados Unidos. Ela quase me custou o braço. Estou com tendinite de tanto dar autógrafos em livros.

ÉPOCA - O senhor tem sido um dos mais ferrenhos defensores do livro em papel. Sua tese é de que o livro não vai acabar. Mesmo assim, estamos assistindo à popularização dos leitores digitais e tablets. O livro em papel ainda tem sentido?
Eco - Sou colecionador de livros. Defendi a sobrevivência do livro ao lado de Jean-Claude Carrière no volume Não contem com o fim do livro. Fizemos isso por motivos estéticos e gnoseológicos (relativo ao conhecimento). O livro ainda é o meio ideal para aprender. Não precisa de eletricidade, e você pode riscar à vontade. Achávamos impossível ler textos no monitor do computador. Mas isso faz dois anos. Em minha viagem pelos Estados Unidos, precisava carregar 20 livros comigo, e meu braço não me ajudava. Por isso, resolvi comprar um iPad. Foi útil na questão do transporte dos volumes. Comecei a ler no aparelho e não achei tão mau. Aliás, achei ótimo. E passei a ler no iPad, você acredita? Pois é. Mesmo assim, acho que os tablets e e-books servem como auxiliares de leitura. São mais para entretenimento que para estudo. Gosto de riscar, anotar e interferir nas páginas de um livro. Isso ainda não é possível fazer num tablet.

ÉPOCA - Apesar dessas melhorias, o senhor ainda vê a internet como um perigo para o saber?
Eco - A internet não seleciona a informação. Há de tudo por lá. A Wikipédia presta um desserviço ao internauta. Outro dia publicaram fofocas a meu respeito, e tive de intervir e corrigir os erros e absurdos. A internet ainda é um mundo selvagem e perigoso. Tudo surge lá sem hierarquia. A imensa quantidade de coisas que circula é pior que a falta de informação. O excesso de informação provoca a amnésia. Informação demais faz mal. Quando não lembramos o que aprendemos, ficamos parecidos com animais. Conhecer é cortar, é selecionar. Vamos tomar como exemplo o ditador e líder romano Júlio César e como os historiadores antigos trataram dele. Todos dizem que foi importante porque alterou a história. Os cronistas romanos só citam sua mulher, Calpúrnia, porque esteve ao lado de César. Nada se sabe sobre a viuvez de Calpúrnia. Se costurou, dedicou-se à educação ou seja lá o que for. Hoje, na internet, Júlio César e Calpúrnia têm a mesma importância. Ora, isso não é conhecimento.

ÉPOCA - Mas o conhecimento está se tornando cada vez mais acessível via computadores e internet. O senhor não acha que o acesso a bancos de dados de universidades e instituições confiáveis estão alterando nossa noção de cultura?
Eco - Sim, é verdade. Se você sabe quais os sites e bancos de dados são confiáveis, você tem acesso ao conhecimento. Mas veja bem: você e eu somos ricos de conhecimento. Podemos aproveitar melhor a internet do que aquele pobre senhor que está comprando salame na feira aí em frente. Nesse sentido, a televisão era útil para o ignorante, porque selecionava a informação de que ele poderia precisar, ainda que informação idiota. A internet é perigosa para o ignorante porque não filtra nada para ele. Ela só é boa para quem já conhece – e sabe onde está o conhecimento. A longo prazo, o resultado pedagógico será dramático. Veremos multidões de ignorantes usando a internet para as mais variadas bobagens: jogos, bate-papos e busca de notícias irrelevantes.

ÉPOCA - Há uma solução para o problema do excesso de informação?
Eco - Seria preciso criar uma teoria da filtragem. Uma disciplina prática, baseada na experimentação cotidiana com a internet. Fica aí uma sugestão para as universidades: elaborar uma teoria e uma ferramenta de filtragem que funcionem para o bem do conhecimento. Conhecer é filtrar.

ÉPOCA - O senhor já está pensando em um novo romance depois de O cemitério de Praga?
Eco - Vamos com calma. Mal publiquei um e você já quer outro. Estou sem tempo para ficção no momento. Na verdade, vou me ocupar agora de minha autobiografia intelectual. Fui convidado por uma instituição americana, Library of Living Philosophers, para elaborar meu percurso filosófico. Fiquei contente com o convite, porque passo a fazer parte de um projeto que inclui John Dewey, Jean-Paul Sartre e Richard Rorty - embora eu não seja filósofo. Desde 1939, o instituto convida um pensador vivo para narrar seu percurso intelectual em um livro. O volume traz então ensaios de vários especialistas sobre os diversos aspectos da obra do convidado. No final, o convidado responde às dúvidas e críticas levantadas. O desafio é sistematizar de uma forma lógica tudo o que já fiz...

ÉPOCA - Como lidar com tamanha variedade de caminhos?
Eco - Estou começando com meu interesse constante desde o começo da carreira pela Idade Média e pelos romances de Alessandro Manzoni. Depois vieram a Semiótica, a teoria da comunicação, a filosofia da linguagem. E há o lado banido, o da teoria ocultista, que sempre me fascinou. Tanto que tenho uma biblioteca só do assunto. Adoro a questão do falso. E foi recolhendo montes de teorias esquisitas que cheguei à ideia de escrever O cemitério de Praga.

ÉPOCA - Entre essas teorias, destaca-se a mais célebre das falsificações, O protocolo dos sábios de Sião. Por que o senhor se debruçou sobre um documento tão revoltante para fazer ficção?
Eco - Eu queria investigar como os europeus civilizados se esforçaram em construir inimigos invisíveis no século XIX. E o inimigo sempre figura como uma espécie de monstro: tem de ser repugnante, feio e malcheiroso. De alguma forma, o que causa repulsa no inimigo é algo que faz parte de nós. Foi essa ambivalência que persegui em O cemitério de Praga. Nada mais exemplar que a elaboração das teorias antissemitas, que viriam a desembocar no nazismo do século XX. Em pesquisas, em arquivos e na internet, constatei que o antissemitismo tem origem religiosa, deriva para o discurso de esquerda e, finalmente, dá uma guinada à direita para se tornar a prioridade da ideologia nacional-socialista. Começou na Idade Média a partir de uma visão cristã e religiosa. Os judeus eram estigmatizados como os assassinos de Jesus. Essa visão chegou ao ápice com Lutero. Ele pregava que os judeus fossem banidos. Os jesuítas também tiveram seu papel. No século XIX, os judeus, aparentemente integrados à Europa, começaram a ser satanizados por sua riqueza. A família de banqueiros Rotschild, estabelecida em Paris, virou um alvo do rancor social e dos pregadores socialistas. Descobri os textos de Léo Taxil, discípulo do socialista utópico Fourier. Ele inaugurou uma série de teorias sobre a conspiração judaica e capitalista internacional que resultaria em Os protocolos dos sábios do Sião, texto forjado em 1897 pela polícia secreta do czar Nicolau II.

ÉPOCA - O senhor considera os Procotolos uma das fontes do nazismo?
Eco - Sem dúvida. Adolf Hitler, em sua autobiografia, Minha luta, dava como legítimo o texto dos Protocolos. Hitler tomou como verdadeira uma falsificação das mais grosseiras, e essa mentira constitui um dos fundamentos do nazismo. A raiz do antissemitismo vem de muito antes, de uma construção do inimigo, que partiu de delírios e paranoias.

ÉPOCA - O personagem de O cemitério de Praga, Simone Simonini, parece concentrar todos os preconceitos e delírios europeus do século XIX. Ele é ao mesmo tempo antissemita, anticlerical, anticapitalicas e antissocialista. Como surgiu na sua mente alguém tão abominável?
Eco - Os críticos disseram que Simonini é o personagem mais horroroso da literatura de todos os tempos, e devo concordar com eles. Ele também é muito divertido. Seus excessos estão ali para provocar riso e revolta. No romance, Simonini é a única figura fictícia. Guarda todos os preconceitos e fantasias sobre um inimigo que jamais conhece. E se desdobra em várias personalidades: durante o dia, atua como tabelião falsificador de documentos; à noite, traveste-se em falso padre jesuíta e sai atrás de aventuras sinistras. Acaba virando joguete dos monarquistas, que se opõem à unificação da Itália, e, por fim, dos russos. Imaginei Simonini como um dos autores de Os protocolos dos sábios do Sião.

ÉPOCA - A falsificação sobre falsificações permitida pela ficção tornou o livro controverso. Ele tem provocado reações negativas. O senhor gosta de lidar com polêmicas?
Eco - A recepção tem sido positiva. O livro tem feito sucesso sem precisar de polêmicas. Quando foi lançado na Itália, ele gerou alguma discussão. O L'osservatore Romano, órgão oficial do Vaticano, publicou um artigo condenando os ataques do livro aos jesuítas. Não respondi, porque sou conhecido como um intelectual anticlerical - e já havia discutido com a igreja católica no tempo de O nome da rosa, quando me acusaram de atacar a igreja. O rabino de Roma leu O cemitério de Praga e advertiu em um pronunciamento que as teorias contidas no livro poderiam se tornar novamente populares a partir da obra. Respondi a ele que não havia esse perigo. Ao contrário, se Simonini serve para alguma coisa, é para provocar nossa indignação.

ÉPOCA - Além de falsário, Simonini se revela um gourmet. Ao longo do livro, o senhor joga listas e listas de receitas as mais extravagantes, que Simonini comenta com volúpia. O senhor gosta de gastronomia?
Eco - Eu sou MacDonald's! Nunca me incomodei com detalhes de comida. Pesquisei receitas antigas com um objetivo preciso: causar repugnância no leitor. A gastronomia é um dado negativo na composição do personagem. Quando Simonini discorre sobre pratos esquisitos, o leitor deve sentir o estômago revirado.

ÉPOCA - Qual o sentido de escrever romances hoje em dia? O que o atrai no gênero?
Eco - Faz todo o sentido escrever ficção. Não vejo como fazer hoje narrativa experimental, como James Joyce fez com Finnegan's Wake, para mim a fronteira final da experimentação. Houve um recuo para a narrativa linear e clássica. Comecei a escrever ficção nesse contexto de restauração da narratividade, chamado de pós-modernismo. Sou considerado um autor pós-moderno, e concordo com isso. Vasculho as formas e artifícios do romance tradicional. Só que procuro introduzir temas que possam intrigar o leitor: a teoria da comédia perdida de Aristóteles em O nome da rosa; as conspirações maçônicas em O pêndulo de Foucault; a imaginação medieval em Baudolino; a memória e os quadrinhos em A misteriosa chama; a construção do antissemitismo em O cemitério de Praga. O romance é a realização maior da narratividade. E a narratividade conserva o mito arcaico, base de nossa cultura. Contar uma história que emocione e transforme quem a absorve é algo que se passa com a mãe e seu filho, o romancista e seu leitor, o cineasta e seu espectador. A força da narrativa é mais efetiva do que qualquer tecnologia.

ÉPOCA - Philip Roth disse que a literatura morreu. Qual a sua opinião sobre os apocalípticos que preveem a morte da literatura?
Eco - Philip Roth é um grande escritor. A contar com ele, a literatura não vai morrer tão cedo. Ele publica um romance por ano, e sempre de boa qualidade. Não me parece que nem o romance nem ele pretendem interromper a carreira (risos).

ÉPOCA - Mas por que hoje não aparecem romancistas do porte de Liev Tolstói e Gustave Flaubert?
Eco - Talvez porque ainda não os descobrimos. Nada acontece imediatamente na literatura. É preciso esperar um pouco. Devem certamente existir Tolstóis e Flauberts por aí. E têm surgido ótimos ficcionistas em toda parte.

ÉPOCA - Como o senhor analisa a literatura contemporânea?
Eco - Há bons autores medianos na Itália. Nada de genial, mas têm saído livros interessantes de autores bastante promissores. Hoje existe o thriller italiano, com os romances de suspense de Andrea Camilleri e seus discípulos. No entanto, um signo do abalo econômico italiano é que é mais possível um romancista viver de sua obra literária, como fazia (Alberto) Moravia. Hoje romance virou uma atividade diletante. É diferente do que ocorre nos Estados Unidos, aindaum polo emissor de ótima ficção e da profissionalização dos escritores. Além dos livros de Roth, adorei ler Liberdade, de Jonathan Franzen, um romance de corte clássico e repleto de referências culturais. A França, infelizmente, experimenta uma certa decadência literária, e nada de bom apareceu nos últimos tempos. O mesmo parece se passar com a América Latina. Já vão longe os tempos do realismo fantástico de García Márquez e Jorge Luis Borges. Nada tem vindo de lá que me pareça digno de nota.

ÉPOCA - E a literatura brasileira? Que impressões o senhor tem do Brasil? O país lhe parece mais interessante hoje do que há 30 anos?
Eco - O Brasil é um país incrivelmente dinâmico. Visitei o Brasil há muito tempo, agora acompanho de longe as notícias sobre o país. A primeira vez foi em 1966. Foi quando visitei terreiros de umbanda e candomblé - e mais tarde usei essa experiência em um capítulo de O pêndulo de Foucault para descrever um ritual de candomblé. Quando voltei em 1978, tudo já havia mudado, as cidades já não pareciam as mesmas. Imagino que hoje em dia o Brasil esteja completamente transformado. Não tenho acompanhado nada do que se faz por lá em literatura. Eu era amigo do poeta Haroldo de Campos, um grande erudito e tradutor. Gostaria de voltar, tenho muitos convites, mas agora ando muito ocupado... comigo mesmo.

ÉPOCA - O senhor foi o criador do suspense erudito. O modelo é ainda válido?
Eco - Em O nome da Rosa, consegui juntar erudição e romance de suspense. Inventei o investigador-frade William de Baskerville, baseado em Sherlock Holmes de Conan Dolyle, um bibliotecário cego inspirado em Jorge Luis Borges, e fui muito criticado porque Jorge de Burgos, o personagem, revela-se um vilão. De qualquer forma, o livro foi um sucesso e ajudou a criar um tipo de literatura que vejo com bons olhos Sim, há muita coisa boa sendo feita. Gosto de (Arturo) Pérez-Reverte, com seus livros de fantasia que lembram os romances de aventura de Alexandre Dumas e Emilio Salgari que eu lia quando menino.

ÉPOCA - Lendo seus seguidores, como Dan Brown, o senhor às vezes não se arrepende de ter criado o suspense erudito?
Eco - Às vezes, sim! (risos) O Dan Brown me irrita porque ele parece um personagem inventado por mim. Em vez de ele compreender que as teorias conspiratórias são falsas, Brown as assume como verdadeiras, ficando ao lado do personagem, sem questionar nada. É o que ele faz em O Código Da Vinci. É o mesmo contexto de O pêndulo de Foucault. Mas ele parece ter adotado a história para simplificá-la. Isso provoca ondas de mistificação. Há leitores que acreditam em tudo o que Dan Brown escreve - e não posso condená-los.

ÉPOCA - O que vem antes na sua obra, a teoria ou a ficção?
Eco - Não há um caminho único. Eu tanto posso escrever um romance a partir de uma pesquisa ou um ensaio que eu tenha feito. Foi o caso de O pêndulo de Foucault, que nasceu de uma teoria. Baudolino resultou de ideias que elaborei em torno da falsificação. Ou vice-versa. Depois de escrever O cemitério de Praga, me veio a ideia de elaborar uma teoria, que resultou no livro Costruire il Nemico (Construir o Inimigo, lançado em maio de 2011). E nada impede que uma teoria nascida de uma obra de ficção redunde em outra ficção.

ÉPOCA - Quando escreve, o senhor tem um método ou uma superstição?
Eco - Não tenho nenhum método. Não sou com Alberto Moravia, que acordava às 8h, trabalhava até o meio-dia, almoçava, e depois voltava para a escrivaninha. Escrevo ficção sempre que me dá prazer, sem observar horários e metodologias. Adoro escrever por escrever, em qualquer meio, do lápis ao computador. Quando elaboro textos acadêmicos ou ensaio, preciso me concentrar, mas não o faço por método.

ÉPOCA - Como o senhor analisa a crise econômica italiana? Existe uma crise moral que acompanha o processo de decadência cultural? A Itália vai acabar?
Eco - Não sou economista para responder à pergunta. Não sei por que vocês jornalistas estão sempre fazendo perguntas (risos). Talvez porque eu tenha sido um crítico do governo Silvio Berlusconi nesses anos todos, nos meus artigos de jornal, não é mesmo? Bom, a Itália vive uma crise econômica sem precedentes. Nos anos Berlusconi, desde 2001, os italianos viveram uma fantasia, que conduziu à decadência moral. Os pais sonhavam com que as filhas frequentassem as orgias de Berlusconi para assim se tornarem estrela da televisão. Isso tinha de parar, acho que agora todos se deram conta dos excessos. A Itália continua a existir, apesar de Berlusconi.

ÉPOCA - O senhor está confiante com a junção Merkozy (Nicolas Sarkozy e Angela Merkel) e a ascensão dos tecnocratas, como Mario Monti como primeiro ministro da Itália?
Eco - Se não há outra forma de governar a zona do Euro, o que fazer? Merkel tem o encargo, mas também sofre pressões em seu país, para que deixe de apoiar países em dificuldades. A ascensão de Monti marca a chegada dos tecnocratas ao poder. E de fato é hora de tomar medidas duras e impopulares que só tecnocratas como Monti, que não se preocupa com eleição, podem tomar, como o corte nas aposentadorias e outros privilégios.

ÉPOCA - O que o senhor faz no tempo livre?
Eco - Coleciono livros e ouço música pela internet. Tenho encontrado ótimas rádios virtuais. Estou encantado com uma emissora que só transmite música coral. Eu toco flauta doce (mostra cinco flautas de variados tamanhos), mas não tenho tido tempo para praticar. Gosto de brincar com meus netos, uma menina e um menino.

ÉPOCA - Os 80 anos também são uma ocasião para pensar na cidade natal. Como é sua ligação com Alessandria?
Eco - Não é difícil voltar para lá, porque Alessandria fica a uns 100 quilômetros de Milão. Aliás foi um dos motivos que escolhi morar por aqui: é perto de Bolonha e de Alessandria. Quando volto, sou recebido como uma celebridade. Eu e o chapéu Borsalino, somos produção de Alessandria! Reencontro velhos amigos no clube da cidade, sou homenageado, bato muito papo. Não tenho mais parentes próximos. É sempre emocionante.

sábado, 10 de agosto de 2024

Como o dinheiro consegue piorar a qualidade musical

 Uma das coisas que mais valorizo em uma pessoa é a espontaneidade. É uma qualidade nata nossa, mas eliminada de nossas personalidades através da intromissão de adultos em nossa fase de infância. Já no final da infância, senão totalmente, já teríamos perdido grande parte da espontaneidade.

Não dá para ser espontâneo diante dos interesses de outras pessoas. O ser humano é um ser social e a sobrevivência humana exige contato com outras pessoas. Quem se isola vira morador de rua vagando de um lugar a outro. Sem dinheiro e muito menos dignidade. Por isso se a espontaneidade atrapalha o contato com os outros e consequentemente a satisfação de necessidades, é melhor dispensá-la.

Isso é o que difere aquilo que fazemos por gosto e o que fazemos por necessidade. Para ganhar o dinheiro necessário à sobrevivência, é muito comum fazermos o que detestamos em troca de um benefício que nos garantirá não apenas a sobrevivência como nos dará conforto.

Quando a arte se transformou em profissão ou fonte de renda, estava dada a contagem regressiva para o fim de sua maior prerrogativa: a espontaneidade. Para mim, a espontaneidade é a principal característica da arte e sem ela, a arte não é arte. É comércio. Se a arte vira emprego, ela perde seu caráter de espontaneidade. É mera fonte de renda e nada mais.

Claro que não vamos criminalizar aqueles que fazem música por dinheiro. Mas é nítido que o dinheiro ajuda muito a cair a qualidade de quaisquer obras artísticas, incluindo as músicas. Sendo um emprego de ganho relativamente fácil, a profissão atrai muita gente sem vocação para tal. É uma idiotice achar que todo mundo pode ser artista, uma função que exige talento para isso. 

Desde que a música virou emprego, muitos empresário gananciosos trataram não somente de corromper artistas a fazerem o que o mercado deseja (que nem sempre é o que o povo quer - o povo quer qualquer coisa que toca nos rádios, por causa da lei do menor esforço - lazer não é para ser procurado) mas também de criar armações que já nasçam fazendo os hits do momento.

Isso interfere decididamente na queda de qualidade musical. Mas para que isso não pareça queda de qualidade é preciso criar o mito de que "o que faz uma música ser boa é o gosto e sua popularidade". Crescemos acreditando que música boa é a que todos gostam. 

Paradas de Sucesso como "atestados de qualidade" musical

Por isso que as paradas de sucesso ainda servem como "atestados de qualidade" para a música e muita gente defende seus ídolos baseados na tese de que "o cara é bom porque atrai muita gente". Tolice. A qualidade da música deveria estar na música em si não em fatores agregados.

Claro que mesmo dentro da chamada música comercial, há coisas bem feitas. Mas são músicas feitas como divertimento, sem pretensões artísticas. Não é arte e sim entretenimento. As pessoas ainda não aprenderam a diferir arte, cultura e entretenimento, três palavras com significados muito diferentes. O que favorece a confusão que coloca a música comercial e a música alternativa em pé de igualdade.

Para piorar, a música comercial acabou contaminando as mentes das pessoas que já aparecem pseudo-alternativos que fazem, sem interferência de gravadoras e empresários, o mesmo tipo de música comercial que estes gostariam que fosse feito. Aprendemos a ouvir música com a mídia corporativa e ela nos ensinou que a música comercial é a melhor, por ser mais acessível. Fazer o quê?

Está muito difícil separar comercio e arte. Enquanto isso, a qualidade musical vai caindo cada vez mais, graças a um monte de gente disposta a transformar arte em lucro financeiro e se trancafiar isolados em enormes mansões, após enganar multidões que pensavam que o hit do momento nasceu de forma inspirada em um belo dia ensolarado, diante de uma bela paisagem, como faziam os grandes poetas que não existem mais.

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Parem de chamar Beatles de "boy-band"!

Uma mania que sempre houve, mas ressurge todas vez que algum grupo de dançarinos-galãs metidos a cantores faz muito sucesso, é comparar este grupo aos Beatles, como se o quarteto de gênios liverpudlianos fosse "a primeira boy-band" que existiu no mundo. Nunca foi!

O pior que este cacoete não é exclusivo no Brasil, pois tenho visto textos e vídeos estrangeiros fazendo a mesma comparação e quando verificamos a validade da mesma, entramos com os burros na água e percebemos que ta verdade não passa de um truque para transformar verdadeiras armações musicais em "gênios de verdade", como se no futuro, galãs metidos a cantores pudessem oferecer alguma contribuição solidamente intelectual e artística para a cultura mundial.

Sinceramente acho isso ofensivo contra os Beatles. Quem conhece a história da banda e percebe a sua excelente qualidade musical admite a ofensa. É preciso explicar para o bando de lunáticos que utiliza a comparação para tentar promover as ridículas e medíocres boy-bands que aparecem e somem feito cometas alucinantes. 

Para começar, é preciso definir melhor o que significa "boy-band": grupos de galãs que se envolvem com música mais para atrair um vasto público feminino adolescente - explodindo seus ainda incontroláveis hormônios - pouco interessada na sonoridade do grupo, cuja música serve apenas de forma de sedução dessas meninas. 

A maioria das boy-bands não tica instrumento, mas mesmo os que tocam, cantam músicas fúteis, geralmente compostas por produtores, de conteúdo duvidoso, arranjos pobres e melodias fracas. As boy-bands não passam de grupos de galãs a usar a música como forma de sedução de meninas deslumbradas que ao crescer, terão vergonha de admitir tal idolatria.

É bom não confundir boy-bands com grupos musicais que tem integrantes bonitos e que seduzem as mulheres. Embora de qualidade musical inferior aos geniais Beatles, bandas como Duran Duran e A-ha eram espontâneas e  formadas por bons músicos que compunham suas próprias canções. Os integrantes eram bonitos, tinham alta popularidade entre as mulheres, mas provaram que tinham algo a mais a oferecer a seu público, merecendo no mínimo, respeito musical.

Beatles, a melhor banda de rock de todos os tempos

Apesar de não me considerar fã dos Beatles (aprecio mais o que eles produziram a partir de 1966), considero o quarteto de Liverpool a melhor banda de rock de todos os tempos, com base em sua qualidade musical e na maneira como eles tratavam a sua carreira musical. Desde o álbum Rubber Soul, tudo que foi produzido pelos quatro músicos sob o nome da banda tem superado os limites da genialidade e da verdadeira arte.

Como definir uma banda que, ao amadurecer, passou a fazer verdadeiras obras-primas de pura arte usando o rótulo mixuruca de boy-band? Mesmo que no início os Beatles tivessem atraído a atenção das mulheres, não significava que fossem meros galãs midiáticos.

Quem assistiu o filme Backbeat, sobre o início cos Beatles, sabe que eles sempre foram músicos de verdade e estavam preocupados com a qualidade musical. A fama midiática da primeira fase pode ter prejudicado a evolução da banda, justificando a qualidade mediana dos primeiros álbuns.

É preciso diferir artistas dos entertainers. Os Beatles desde o início, queriam fazer música, queriam tocar um som, baseado no que els gostavam não em direcionamentos de mercado como fazem as boy-bands, estas submissos a produtores-empresários. Os Beatles tinham a espontaneidade que as boy-bands não possuem e isso deve ser levado em conta.

Portanto, a prova de que os Beatles precisavam fugir daquele universo de deslumbre para evoluir musicalmente apareceu quando eles deixaram de fazer apresentações e a popularidade entre meninas deslumbradas se esfriou. Coincidência ou não, foi quando abandonaram as apresentações que as obras-primas foram surgindo.

Portanto, é ofensivo comparar Beatles com nulidades do universo boy-band, como o grupo insosso de galãs coreanos BTS, que na verdade não passa de uma reedição dos Menudos, com gananciosos empresários por trás e estórias horrendas de escravidão e vários tipos de abusos por trás, que nem e bom lembrar.  Tudo ao som de musicas malfeitas de arranjos pobres e letras ridículas.

Pelas músicas, o BTS vai ser esquecido daqui a poucos meses. Quanto aos Beatles, suas músicas, comparada aos níveis dos compositores eruditos mais consagrados, é atemporal e eterna. Daqui a milhões de anos ainda estaremos assoviando as obras de arte criadas pelos quatro rapazes vindos da simpática cidade portuária de Liverpool.

quinta-feira, 8 de agosto de 2024

Brasileiros são conservadores por necessidade de aprovação social

 Uma coisa que temos que admitir: brasileiros são conservadores. Nesta postagem, eu não falo do conservadorismo político, conhecido como Direita. Falo do conservadorismo em geral, que é observado também nas esquerdas. 

Falo da necessidade de manter o sistema como está, com todas as suas regras e valores, toda a sua hierarquia, apenas - como no caso das esquerdas - abrindo as portas para que mais pessoas possam usufruir deste mesmo mundinho consagrado pelo Capitalismo tradicional.

Aliás, não dá para esperar grandes mudanças em uma sociedade conservadora, presa a estereótipos, presa a valores, gostos, ideias, convicções, crenças, etc.. Por isso mesmo que a ideologia que chamam de esquerda brasileira é tão conservadora. Desconfio que, por isso, ela seja o verdadeiro centro. Mas isso é um assunto complexo, para outra oportunidade.

Brasileiros odeiam rupturas. Gostam da vida que possuem, desde que tenham mais dinheiro e mais tempo livre para usufruir este dinheiro. Modernidade? Só para as tecnologias. A tecnologia de nosso cérebro interior deve permanecer arcaica, com todos os mofos e teias de aranha que tem direito. 

Devemos manter este mesmo mundinho, até porque ele nos satisfaz. Nunca deu certo mas é o que dá prazer e mantém o povo unido. Unido, em termos. Fazendo a mesma coisa seria a melhor expressão. Já que se temos que imitar a maioria para obter aprovação social é porque não existe a verdadeira união, por afeto e por afinidade natural. Para muitos, uma afinidade artificial resolve.

Desejo por aprovação social favorece o conservadorismo brasileiro

Afinidade artificial é quando você faz algo que você não curte muito ou finge fazer para obter aprovação social. A cerveja tem gosto tuim mas vamos beber porque ela traz aprovação social. Futebol é um saco, mas vou torcer durante quase duas horas porque traz aprovação social. Nunca vi Deus na vida e nem sei como ele é, mas vou acreditar nele porque traz aprovação social.

Aprovação social: é isso que força o conservadorismo do povo brasileiro.A vida social vem antes de tudo. Antes até mesmo do prazer. Ah, eu gosto da banda de rock alternativo inglesa XTC! Mas quase ninguém no Brasil conhece o XTC! O jeito é engolir a farofada poser do Guns'n'Roses. Pelo menos o Guns'n'Roses traz aprovação social.

Ou seja, tenho que não somente aderir a um troço incômodo em troca de aprovação social como devo abrir mão do que realmente me dá prazer, porque o que me dá prazer não traz aprovação social. Não vou fazer amigos curtindo aquela banda alternativa que diz o que eu quero ouvir. Pena.

Mas o que realmente é ruim no conservadorismo do brasileiro é o fato de que ideias e costumes antiquados vão permanecendo, como lodo em praia abandonada. O Brasil é um país retrógrado, que nunca conseguiu se evoluir. Claro que o fato de ser um povo jovem, de apenas 520 anos, completos em abril sem a mínima comemoração (fato compreensível) justifica a imaturidade.

Conservadorismo e espírito de manada vêm de nossa imaturidade

O nosso conservadorismo e nossa priorização de vida social em detrimento de outras coisas são aspectos que têm muito a ver com a nossa imaturidade. Como ainda não sabemos "andar sozinhos", precisamos da ajuda dos outros para viver em uma sociedade injusta e que se recusa a evoluir. Aliás, isso cria um círculo vicioso: a nossa não-evolução é causa e consequência de nosso conservadorismo.

Ao mesmo tempo que o fato de não sermos evoluídos nos obriga a sermos conservadores e adotarmos o "jeitinho" para resolver os problemas que recusamos a solucionar de forma mais racional, este comportamento cria uma estagnação coletiva que nos impede de evoluir, nos aprisionando no atraso crônico.

Muita gente reclama porque o Brasil nunca evolui e põe a culpa nos pobres e na sua existência. Mas os pobres não são causadores deste atraso e sim vítimas. O que causa o nosso atraso é a teimosia em nos aprisionar a valores antigos que nos parecem positivos e por isso devem ser preservados e defendidos de forma ostensiva.

Todas as nossas lutas diárias são para defender o nosso direito de aderir a estes valores, que tem muito a ver com os nossos objetivos de vida. Somos medíocres e queremos viver iguais a maioria, pois a aprovação social é a nossa principal meta e divertir sozinho nos parece chato pra cacete.

Nos agarrara a valores tradicionais arcaicos, mas positivos e a necessidade de ostentar a nossa adesão a eles (tipo ostentar preferências por times de futebol, santos religiosos e fotos em que aparecemos bebendo cerveja ou alguma outra bebida alcoólica), nos faz sentir incluídos e preparados para receber em troca o benefício que só poderá ser adquirido mediante aprovação social, por depender de decisão alheia (como namoro, emprego, etc.).

Brasileiros, somos conservadores, sim. Admitamos!

Temos que admitir., somos conservadores. Por mais que aprendamos novas gírias e novos modismos do momento, queremos ficar intelectualmente estacionados. Os modismos são a maneira de compensar o nosso conservadorismo. Aderimos a uma nova onda para pensar que estamos nos evoluindo. Mas não estamos. Nem mesmo as esquerdas brasileiras que falam, em vão, em progresso.

A evolução tecnológica é outra coisa que compensa o nosso conservadorismo. Nem o fato de sabermos dominar a tecnologia serve como impulso para mudanças. Conservadores, mesmo os mais arcaicos, sabem dominar tecnologias mais modernas. Até porque as máquinas devem evoluir para que seres humanos não evoluam (teoria da Devolução). E assim tem sido em nosso país.

Isso tudo explica porque nunca evoluímos. E nem vamos evoluir. Nossa sina é sermos conservadores, mantendo velhos valores sociais e culturais. Até que um gigantesco despertador, um cataclismo sem precedentes, nos acorde desse sonho lindo e nos obrigue a rever esses valores. 

Acho que nem esta pandemia tão assassina, vai servir como este gigantesco despertador. O gigante nunca acordou. E nem vai acordar.

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