ENCORPANDO A VITAMINA: Este texto, escrito por mim em 2009 parece bem atual. A sociedade se confunde na hora de rotular estilos musicais, pois o assunto é tratado com alto nível de subjetividade. Cada um define como quer, apesar de certos conceitos equivocados se consagrarem com a ajuda da mídia, que define estilos e gêneros musicais não pela música em si, mas por um conjunto de estereótipos associados aos mesmos. Estes conceitos equivocados acabam sendo aceitos como consenso pela maioria das pessoas, como se fosse um fato real e inquestionável.
Cores... Rótulos...Marcelo Pereira, Planeta Laranja, 16/08/2009Interessante como as coisas que deveriam evoluir, ao contrário decaem até chegarem totalmente no ridículo. Hoje em dia, as pessoas, sobretudo os jovens, costumam rotular gêneros musicais baseados em critérios que não são a própria música. Se não bastassem medirem a qualidade musical usando como critérios, o gosto ou a popularidade, eles passaram a usar não a audição, mas a visão como ofrma de detectarem que tipo de música estão ouvindo.
Essa juventude, que pensa que gostar de música e entender de música são sinônimos, se acha no direito de posar de sabidona e muitas vezes essa mesma juventude é acatada pela mídia, já que nos setores de lazer e cultura, por não serem "setores importantes" da humanidade, qualquer julgamento subjetivo se torna válido. Aí vem os erros de rotulação, que facilitam tantas confusões e criam certos danos, sobretudo para quem não anda nos trilhos do maistream e do hit-parade.
O erro mais comum
Um dos erros mais comuns é o de rotular interpretes de pop dançante que alcançaram imensa popularidade de "roqueiros". Existe o estigma de que intérpretes de dance music não têm rosto conhecido e/ou tem fama e sucesso efêmeros, de pouca duração. Entende-se como pop dançante: o soul, o funk (legítimo, tipo James Brown, por exemplo), a disco-music, o techno, a dance-music propriamente dita. Mas quando o intérprete de dance-music, como Madonna, se torna imensamente conhecido, fazendo sucesso por muito tempo, recebe gratuita e automaticamente o rótulo de "roqueiro".
Mas um imbecil andou espalhando para todo mundo que "rock é atitude" e foi um prato cheio para quem não tem paciência de definir uma sonoridade apenas com o ouvido. O pior que esse erro veio importado, dos States. Aí é só um intérprete de pop dançante fazer cara de mau em clipe, encher a cara nos bastidores, aprontar algum escândalo em sua vida pessoal e pronto: ganha gratuitamente rótulo de "roqueiro", assim de graça, sem fazer nada, nadinha relacionado ao gênero. Gravar uma ou outra musiquinha de rock não garante o rótulo de "especialista em rock".
Um exemplo desse equívoco chegou ao extremo no episódio da morte de Michael Jackson, nome mais bem sucedido do funk legítimo (gozado, não vi ninguém associar o astro ao gênero que ele consagrou). Em textos na internet, seja em blogs ou em sites de relacionamento, muitos elogios exagerados foram atribuídos ao astro então recentemente morto. Os elogios chegavam a atribuir qualidades que Jackson não tinha e ignoravam as verdadeiras qualidades do astro, que era um hit-maker do funk autêntico, cantor e compositor mediano, que privilegiava o visual em clipes e coreografias e que era endeusado constantemente pela mídia, nada preocupada com o que ele escrevia ou cantava.
Ele quase não gravou nada de rock. Pelo que eu sei, somente "Dirty Diana" (em homenagem ao verdadeiro amor de sua vida, a cantora soul Diana Ross) e "Rock Robin" (dos tempos da Motown, a casa do soul), têm algo de rock. "Beat it", conhecidíssima por todos, menos por mim, como o "rock do Michael Jackson" não é um rock, pois seus arranjos, principalmente sua batida é de funk puro. Ritmo é batida, que é feita com a junção de bateria e baixo. Corretamente, o som do baixo e da bateria é que devem ser levados em conta na hora de rotular um gênero. Mas no caso de "Beat it", o coadjuvante (a guitarra) virou protagonista e Jackson ganhou gratuitamente o rótulo de "roqueiro" só por causa dessa música e pelas cara de malvado que fez em muitos de seus clipes. A título de comparação: os sambas de Chico Buarque são em muito maior quantidade do que os rocks de Jackson e nem por isso o compositor brasileiro é rotulado de "sambista".
Para confrontar o caso de Jackson, uma situação curiosa e infeliz. Enquanto um funker como Jackson é rotulado de roqueiro influente, como um analfabeto musical falou em uma comunidade do Orkut, uma cantora teen, Demi Lovato, que realmete é roqueira, pois o tipo de música que ela faz é realmente rock (detectei com o ouvido), nunca é associada ao gênero, pois ela é vista frequentemente como "música infantil", rótulo que prejudica a percepção de alguma qualidade realmente existente no som que ela faz. Quer dizer que Britney Spears fazendo música infantil, é "roqueira" enquanto Demi Lovato fazendo rock é infantil? Ridículo.
Soul e Rock se parecem porque são irmãos
Muita gente acha que soul music e seus gêneros descendentes (funk, disco, dance-music), são subdivisões do rock. Os defensores alegam semelhanças nos gêneros, principalmente nos anos 60. Realmente, se observa semelhança, principalmente se lembrarmos que havia permuta entre as primeiras músicas do rock inglês e do soul americano, sobretudo o da Motown. Simples: ambos são filhos de um mesmo pai, o blues. Uma dupla de irmãos não pode ser considerada "uma mesma pessoa". Suas semelhanças são herdadas do blues, gênero-pai do rock e do soul. Observem as características.
POP-ROCK, POP/ROCK, POP ROCK: Rótulo para confundir ainda mais
Para piorar as coisas, nos últimos anos, para tentar acabar com a polêmica sobre quem era rock ou não, a mídia resolveu criar um estrambólico termo que pode ser escrito de três maneiras, citadas acima, tentando reunir tudo que é entendido como "música popular jovem de origem anglo-americana" num único rótulo. Um balaio de gatos em que até leões, tigres e peixes-gato são tidos como gatinhos domésticos.
O que ninguém sabe, é que pop, é abreviatura de popular, em oposição à música erudita. O termo também pode ser usado para dizer que algum artista aderiu a uma tendência mais popular (comercial) ou quando se está em dúvida quanto a rotulação musical, já que todos os gêneros não-eruditos são pop.
Mas esse rótulo é equivocado no sentido de servir como um sinônimo de rock. De acordo com o modo de como é escrito, pode se ter três significados verdadeiros:
POP-ROCK: Um gênero que pode ser entendido como fusão dos gêneros dançantes com o rock. Exemplos: New Order, Nação Zumbi, Red Hot Chili Peppers, etc.
POP/ROCK: Situação em que se deve decidir entre os gêneros não-roqueiros e o rock. Quando se quer dizer, por exemplo, que só uma das opções pode ser tocada num determinado momento.
POP ROCK: Literalmente, rock popular. Escrito sem barras ou hífens, se refere às bandas de rock que alcançaram bastante popularidade, como os Beatles e o U2.
As pessoas deveriam usar mais os ouvidos na hora de associar alguém com algum gênero musical. Música é, acima de tudo audição e usar os olhos para se definir quem é o quê, é um grande erro neste caso, já que visual nada tem a ver com som. E é recomendável ler livros que falam do assunto, usando muita coerência, pois não falta quem ensine errado . Vamos procurar se informar para não chegar a gigantesca pagação de mico (ou será de King Kong?) do "episódio Michael Jackson".