Já começou a edição de comemoração dos 40 anos do festival de música conhecido como Rock in Rio (na verdade, o festival foi em Janeiro de 1985, mas a comemoração está valendo, pois a organização já estava ocorrendo em Setembro de 1984). o festival deverá durar até o próximo dia 22.
Muita gente está reclamando da escalação do festival, onde não somente tem poucos nomes do rock como chamaram nomes do samba e do popularesco, estranhos para um festival que tem "rock" no nome. Outras pessoas levam o nome a sério e insistem na associação forçada do festival com o citado gênero musical.
Mas afinal, o Rock in Rio foi criado para ser um festival de rock? A resposta é: NÃO. Apesar de inspirado no Woodstock de 1969 (este sim, um festival de rock - as outras edições do Woodstock não foram), desde o começo, o Rock in Rio já fazia uma gororoba de gêneros, colocando muita gente que nada tem a ver no elenco. Pois já na primeira edição, teve até MPB, jazz, folk e pop juvenil.
Porque eles fazem isso? Porque um festival que tem rock no nome não poderia ter somente roqueiros em seu elenco? A resposta é simples: rock não é popular. Não atrai público e consequentemente, não atrai dinheiro. Organizadores argumentaram que se fizessem um festival que tivessem apenas roqueiros em seu elenco de atrações, o Rock in Rio seria um fiasco.
Porque manter a palavra "rock" no nome do festival? Bom, é preciso uma explicação um pouco complexa para justificar este insistente equívoco. Lembrando que Rock in Rio é acima de tudo uma marca, como Mc Donalds e Coca-Cola. Uma mera grife, registrada em cartório.
Brasileiros acham que a palavra "rock" aumenta a qualidade da música
Brasileiros não entendem de rock. Na verdade se prendem a estereótipos, já que não costumam avaliar as músicas com os ouvidos e sim com os olhos. É consagrado o mito de "rock é atitude", favorecendo a rotulação de qualquer coisa que se encaixe no estereótipo, mesmo falso, de rebeldia.
Mas muita gente também acha que chamar um não-roqueiro de "roqueiro" serve para "melhorar" a sua repercussão. Um funkeiro raiz como Michael Jackson (sim, o "Rei do Pop sempre fez funk-raiz) é frequentemente rotulado de "roqueiro" justamente por causa da seu gigantesco prestigio, conseguido muito mais por causa de seus videoclipes cinematográficos do que por sua música mediana.
Para os fãs de Jackson, rotulá-lo de "roqueiro" significa uma melhoria no seu reconhecimento, enquanto associá-lo ao seu gênero verdadeiro (funk-raiz) soa como uma diminuição de seu prestígio, quase como um xingamento. Estranho. Este é só um exemplo de algo que acontece muito.
Para muita gente, "rock" sempre foi a música típica da cultura americana, o que não é verdade. O country e o jazz já foram símbolos dos EUA durante muito tempo e hoje, nem o rock (que dominou apenas na segunda metade dos 50 até o final dos anos 60) é mais, dando hoje lugar ao hip-hop e a formas comerciais de black music.
Mas para brasileiros ficou o estereótipo de que o "rock" sempre simbolizou e simbolizará a cultura anglo-americana. Muitos até consideram o pop (rótulo sem sentido usado para classificar um tipo de música altamente popular, daí o nome, abreviatura de "popular") como subdivisão do rock. O que faz com que muitos nomes de qualquer gênero sejam associados na marra ao rock.
Bom lembrar também que rock significa rocha e também sacudida. Com este significado, o de sacudida, a palavra "rock" aparece muito em títulos e letras de canções de funk-raiz dos EUA. Mas como o nosso conceito de funk também mudou, enxergamos nos funkeiros raiz uma espécie de roqueiros black, pois passamos a confundir tudo, pois estamos presos a estereótipos e temos a insana necessidade de rotular.
Rock in Rio nunca foi nem será um festival de rock
O Rock in Rio, em que pese o nome, nunca foi criado para ser um festival de rock. É, na melhor das hipóteses, um festival de música. Somente abilolados acham que o Rock in Rio é um festival de rock. Como falei, o nome do festival é uma marca, e como tal, não merecia ser levado a sério.
Por ter sido criado por um empresário (classe curiosamente homenageada por uma banda formada por empresários, The Clevel, que coerentemente significa "grupo de duques", em alemão iniciado com "K"), Roberto Medina, o que anula qualquer pseudo-humanismo mostrado no marketing do festival (como no slogan "por um mundo melhor"), a meta é obter lucros financeiros e só.
Enfim, há a necessidade de atrair cada vez mais pessoas. E cá para nós, rock nunca foi de fato popular (o modismo do B-Rock no Brasil dos anos 80 foi uma farsa midiática que virou pó logo na década seguinte, com a avalanche popularesca) e é preciso uma maior variedade de gêneros para poder atrair uma variedade maior de pessoas, que darão os lucros esperados pelos empresários organizadores.
Portanto, parem de classificar o Rock in Rio como festival de rock. Não foi, não é e nunca será. Pode ser que o rock do nome do festival seja uma rocha que foi atirada nas cabeças dos menos informados, para cometerem a sandice de associar o nome do festival ao famoso, mas impopular, gênero musical.