terça-feira, 24 de novembro de 2020

O Capitalismo é realmente uma ideologia

Os conservadores e alguns progressistas ficam o tempo todo falando mal de outras ideologias como se estas fossem criadas para satisfazer os interesses exclusivos de seus defensores, enquanto para eles, o Capitalismo não é considerado ideológico. Para seus defensores, o Capitalismo foi naturalizado e faz parte do cotidiano e tem a "responsabilidade" de beneficiar, senão todos, o maior número de pessoas. Será?

Claro que não. O Capitalismo é também uma ideologia. Mas como beneficia os homens mais ricos do planeta, tenta legitimar a ganância destes através de sua naturalização. O Capitalismo é considerado por muitos algo quase biológico, inerente a vida e que segundo quem defende, sem ele morreríamos.

Mas a ideologia capitalista, assim como outras ideologias, tem seus mitos, dogmas e no fundo existe para satisfazer os interesses de alguns, justamente os que se dão bem com o sistema. Balela imaginar que o Capitalismo existe para beneficiar a todos. Comprovadamente fracassado, o Capitalismo ainda é defendido porque continua a satisfazer com certa plenitude os interesses de homens poderosos, com poder de fazer as regras e leis agirem sempre a seu favor.

Entre os maiores mitos do Capitalismo está a Meritocracia, uma espécie de legitimação da ganância. Sua tese é a de que todo rico é um pobre que deu certo. Que apenas o esforço, e nada mais que o esforço, é capaz de fazer um pobretão sem nenhum tostão no bolso se tornar um poderoso magnata em um período relativamente curto.

O mito da Meritocracia ainda leva em conta que existe dinheiro suficiente para que todos fiquem bilionários - e que só é pobre quem quer, sejam os preguiçosos, sejam os incapazes. Mas a realidade mostra que a Meritocracia é uma farsa criada apenas para justificar as desigualdades, permitindo que ricos, seres humanos como outros quaisquer, tenham mais que o resto da população.

O Capitalismo tem muitas regras que favorecem a ganância, e tem como maior dano a miséria. Não dá para manter o Capitalismo sem miséria. O sistema tem características inerentes que tem a miséria como seu dano inevitável. Com o fracasso do Capitalismo, deveria haver outro sistema. Mas os ricaços não querem. O Capitalismo lhes beneficia.

Mas como o Capitalismo se mostrou fracassado e aumenta a cada dia a urgência de outro sistema, os capitalistas, donos dos meios de comunicação, lançam mão de mentiras e mais mentiras sobre os sistemas concorrentes, para impedir que o Capitalismo morra e que magnatas deixem de ser magnatas. 

É preciso convencer as massas, mesmo de mentirinha, de que o Capitalismo é o melhor sistema e que um dia, nem que seja em um futuro remoto, todos se darão bem no sistema. Muito esforço e muito dinheiro é gasto para que esta ideia seja difundida e consagrada, para que todos se conformem com o Capitalismo, mesmo tendo que se virar para conviver com a inevitável miséria.

Por isso, defensores insistem em tirar do Capitalismo o rótulo de ideologia, para que este sistema seja visto como algo que faz parte da natureza biológica, que se estabilize e continue a gerar renda excessiva a magnatas que se auto-definem como "vencedores de uma competição biológica". 

Isso sinaliza espécie de darwinismo que os capitalistas querem ver na economia e não na biologia, já que o próprio Capitalismo apoia as religiões, estigmatizadas como tutoras dos pobres, mesmo se limitando a oferecer migalhas. As religiões, servindo como compensação à ganância capitalista, acabam tendo a função de forjar justiça social em um sistema onde a mesma é solenemente reprovada.

Sim, defensores do Capitalismo! O Capitalismo é uma ideologia. Não faz parte de nenhuma natureza e foi criada para beneficiar alguns. Não é um sistema justo, legitima a ganância e usa a competitividade para criar guerras e ondas de ódio, fazendo pessoas se matarem por um pequeno pedaço de pão.

Livre será o mundo quando o Capitalismo for extinto e outros sistemas, muito mais justos e sem a ganância como base ideológica, o substituírem, se esforçando para repartir benefícios a um maior número de pessoas, sem exigir delas um esforço descomunal que as impede do acesso a dignidade e a direitos mais essenciais, hoje inalcançáveis graças as estúpidas regras do ganancioso Capitalismo.

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

A esquerda mudou e não te avisaram

A eleição acontecida ontem mostrou uma novidade que poucos perceberam e mesmo assim não comentam: a esquerda mudou seus parâmetros. E mudou muito. Por isso, pode aumentar a sua popularidade e conquistar corações antes temerosos com o suposto radicalismo atribuído ao seu estereótipo tradicional.

Para começar, o esquerdismo, que se afastou das classes populares - hoje facilmente seduzidas pelo discurso belicoso da extrema direita - conquistou as classes médias, eliminando de sua pauta as reivindicações por melhores salários e por uma distribuição de renda mais justa, causas alheias a uma classe que se não chega a ser rica, se situa numa situação bastante confortável.

As esquerdas hoje se tornaram mais festivas e as suas reivindicações agora tem muito a ver com esta classe média que não está nem aí se a maioria das pessoas está ganhando salário justo ou não. São o que se chama de causas identitárias, que tem muito mais a ver com empoderamento e com auto-estima do que com qualidade de vida, quando pessoas supostamente excluídas passam a ser ouvidas.

Claro que a classe média, hoje responsável pelo reerguimento da esquerda, nunca iria votar em sindicalistas feios, sujos e zangados. Tanto é que partidos sindicalistas como PCO - partido apoiado pela equipe deste blog - e a parte tradicional do PT - apenas a parte moderna do partido, conivente com a psolização da esquerda brasileira, obteve algum êxito - ficaram de fora desta festa da esquerda.

A nova esquerda, além de priorizar causas identitárias -  que além de defender os interesses de classes excluídas como gays, mulheres, negros, etc., estimula o consumo de maconha e álcool e a abstenção de alimentos de origem animal - se mostra alegre, festiva e excessivamente otimista. 

Inverteu-se a antiga imagem de uma esquerda zangada - com razão, devido às más condições trabalhistas - e uma direita alegre, confortável em sua fartura. Hoje, a esquerda deve ser alegre, estimular festas e defender atividades lúdicas como se estas fossem direitos imutáveis e independessem de salários justos e condições dignas de trabalho.

Esse desprezo não-assumido pelas causas trabalhistas é um sintoma da mudança de público da esquerda brasileira, que abandonou a classe trabalhadora - hoje carente, graças a reforma trabalhista de Temer, nunca questionada pelos esquerdistas - e resolveu conquistar a classe média, sobretudo os professores universitários, grande maioria dos formadores de opinião da nova esquerda.

A nova esquerda está aí e retomou a sua força. Mas para isso, teve que mudar. Enquanto a abandonada classe trabalhadora tem que escolher entre os charlatães das religiões e os trogloditas da extrema direita, a classe média, outrora apoiadora do golpe, agora enxerga na domesticada esquerda psolista a sua voz ativa, pronta para satisfazer os seus mais supérfluos interesses.

Afinal, em um mundo distópico, onde a lei da sobrevivência nos obriga a sermos mais egoístas, já que os bens e direitos, mal distribuídos, se tornam escassos para a maioria, esse negócio de causas trabalhistas se torna algo chato de se defender. Cada um que se vire para ganhar dinheiro. E se ganhar, guarde para si e vá curtir a vida. 

A festa da nova esquerda está de braços abertos para quem estiver disposto a pagar por ela. Ninguém melhor que a confortável classe média, preocupada no seu direito de fumar maconha e algum tipo de proteína que não tenha origem animal, além das emoções mais baratas o possível, para patrocinar a volta das esquerdas, senão no poder, no imaginário político brasileiro.

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