Mas porque ninguém assume uma aversão ao álcool, a não ser nos casos de imposição médica ou religiosa? Simples: sendo um agregador social, o álcool não raramente virou uma condição sine qua non para uma pessoa obter os benefícios da sociabilização.
O ser humano é social por instinto. Mas isso não significa que o ser humano seja altruísta por instinto, o que causa confusão. Nada disso. A vida social existe para que a pessoa possa obter benefícios e não oferecer. Todos nós sabemos que o contato com.outras pessoas, sobretudo as mais influentes facilita muito na aquisição de benefícios que dependem de decisões alheias, como no emprego e na vida amorosa. Por isso que a vida social é mais importante.
Culturalmente somos instruídos a nos simpatizar pelos outros não pelo caráter, mas pela afinidade de gostos e atividades. No Brasil, isso é muito forte e até rigoroso. Serve de controle para uma população gigantesca e diversificada, com.grande vocação para a discórdia. O rigor da vida social serve para criar este falso consenso que nos mantém nesta paz negociada.
É aí que o álcool entra. Mas porquê o álcool e não outras coisas. Eu teria que escrever um texto longo demais só para explicar isso. Mas em resumo o fato do álcool ser um estimulante no início (na verdade, álcool é um dopante) e também algo que é proibido a crianças e adolescentes também reforçam a magia em torno das bebidas alcoólicas.
A busca por uma alegria artificial que nos faça ser vistos como pessoas agradáveis aos outros e a consagração da vida adulta pelo consumo de algo proibido para quem "não tem maturidade" elegeram as bebidas alcoólicas, junto com o futebol e a religiosidade como os maiores agregadores sociais no Brasil.
A importância social do álcool é tão grande que a sua aversão por motivos de gosto ou de intolerância orgânica são mascarados. O álcool, suposto amigo de todas as horas, na alegria e na tristeza, não pode fazer mal. Por isso trataram de inventar que a aversão ao álcool só poderia ser coisa de moralista, de gente quadrada, careta e antissocial.
Mas o álcool faz mal, mesmo em dozes moderadas. Altera o comportamento humano e limita o discernimento. Acelera o envelhecimento e causa cirrose hepática. Mas porque algo tão simpático pode fazer tão mal. Vou lhe falar de um fato que apesar de óbvio, ainda vai te surpreender: as bebidas alcoólicas são bebidas estragadas. Sim, você está tomando bebida podre e não percebe.
Sim, porque o processo de fermentação ou de destilação é um processo de estrago. Claro que as indústrias controlam este processo para que o estrago, mesmo que ainda continue nocivo, se mantenha tolerável. Mas de fato é um processo de apodrecimento controlado que torna a bebida capaz de alterar o nosso organismo, como um narcótico.
Mas pela sociabilização somos capazes de tudo. Até abrir mão da saúde. Ainda mais em um Brasil desigual e com problemas que nunca se resolvem, cujos benefícios tem que ser obtidos através do "jeitinho" envolvendo ajudas informais de contatos influentes.
Importa, para os brasileiros, mais do que se divertir e se desenvolver, é ter contatos, amigos ou não, mas gente capaz de nos ajudar e dar aquilo que precisamos.
Deixemos para sermos nós mesmos após a vida feita, após os benefícios conquistados. Até então, é importante sermos parte do organismo social, um a mais na multidão. E nada como o álcool, amigo para todas as horas para nos facilitar as coisas. Mesmo que o preço pago seja uma saúde debilitada com um cérebro bastante confuso, incapaz de entender o que está ao redor.
