O órgão Conar, que regula a publicidade no Brasil, quer proibir a propaganda da cerveja Devassa, da Schincariol, estrelada pela "sei lá o quê" e herdeira da mega-rede de hotéis Hilton, Paris Hilton. O órgão faz diversas alegações, uma delas é que a propaganda incentiva muito o consumo de cerveja. Será?
Não adianta nada censurar propaganda de cerveja para inibir o consumo. Já tentaram lançar essa ideia antes, mas acabou só no papel. Não são as propagandas que incentivam as pessoas a consumirem bebidas alcoólicas. São as tradicionais regras sociais.
Bebidas alcoólicas representam aquilo que podemos chamar de "bebidas rituais". A função dessas bebidas não é matar sede, refrescar ou dar um gostinho bom na boca. Nada disso. A função é auto-afirmar o caráter adulto de quem bebe. Trocando em miúdos, quem bebe está na verdade dizendo "eu sou adulto e estou incluído na sociedade". A importância das bebidas alcoólicas na sociabilização é tanta que cada país tem a sua bebida típica, sempre alcoólica.
Somente isso explica a gigantesca popularidade de uma bebida com gosto de pão dormido e que dopa, ao invés de alegrar (a euforia é apenas no começo - quem bebe com a intenção de alegrar não sabe o que está dizendo).
O consumo de bebidas alcoólicas é um fato arraigado pela sociedade e nenhuma propaganda tem condições de incentivar ou desincentivar esse consumo. O que poderá mesmo fazer com que as pessoas não bebam tanto é educação, somada a uma revisão dos valores sociais.
E nem adianta dizer que o não-consumo tem a ver com religião. As religiões impõem o não-consumo, mais por compromissos dogmáticos e moralistas (é feio beber) do que por motivos de saúde, o que é verdadeiro.
O que me intriga é que os defensores do consumo de bebidas alcoólicas falam em liberdade, que quem bebe é um ser livre e quem não bebe só faz por submissão religiosa ou por causa de doença que impeça o consumo. Mas o consumo não é imposto pelas regras sociais? Chamar quem não bebe de "submisso religioso" também não é uma forma de censura. Xingar quem não bebe não seria uma forma de preconceito? Vivemos numa democracia (em tese) e não beber também deveria ser visto como um direito que deveria ser respeitado. Afinal a quantidade de bebidas não-alcoólicas é muito maior que as alcoólicas.
O Conar, ao invés de censurar propagandas (muitos anúncios de cerveja são até criativos e muito divertidos), deveria estimular um projeto educacional em que possa ser feito uma revisão das regras sociais e acabar com a obrigatoriedade do consumo de bebidas alcoólicas na sociabilização dos adultos.
Porque o álcool dopa, entristece, deixa preguiçoso e pode gerar muitos danos, inclusive o temido AVC, que transforma qualquer um em um retardado mental.
Deixemos que a alegria venha de dentro de nossos corações, não em um copo com um líquido amarelo, espumoso e de gosto ruim.
Alegria de verdade é a que vem de nosso interior. Quem depende de outra coisa, sobretudo bebida, para se sentir feliz, com certeza, está numa imensa fossa, tristonho demais. Cuidado para não se matar.

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