segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Estelionato musical, nossa cultura em pleno caos

OBS: O radialista Marcos Niemeyer, nosso amigo, postou essa maravilha em seu blog, questionando a péssima qualidade musical de hoje em dia, onde inúmeros produtos de marketing, se travestem de "artistas", e lucram horrores enganando a população, que pensa que a evolução cultural segue esse caminho que os fatos confirmam como decadente.

Parabéns a Niemeyer e para José Cicero, autor do texto reproduzido no Cacarejadas.

Estelionato musical, nossa cultura em pleno caos

Marcos Niemeyer, in Cacarejadas & Alfinetadas

Temos falado com frequência neste espaço e nas conversas com amigos, sobre a situação de abandono em que se encontra a música brasileira. Ainda bem que não estamos sós.

O professor cearense José Cícero, estudioso da MPB, abordou o tema com muita propriedade ao discorrer a respeito da enxurrada sonora de baixíssima qualidade que toma conta do País. Tomamos a liberdade de transcrever na íntegra o brilhante artigo.

Entre muitos atributos, o Brasil é conhecido lá fora pela riqueza da sua historiografia musical. A MPB, enquanto estilo, é uma das nossas mais expressivas identidades a nos mostrar para o mundo. Algo que nos eleva e nos projeta, enquanto nação, muito além dos conceitos musical-artísticos das Américas e alhures. A música, portanto, foi durante muito tempo um legítimo produto de exportação made in Brasil. Nosso cartão-postal, tal qual um considerável passaporte para nossa intervenção e inserção na cultura e na história mundial.

Porém, diante do atual quadro de descalabro em que se encontra o movimento cultural brasileiro – e, em especial, a rica musicalidade regional –, tudo o mais inspira preocupação e cuidados. Há, por assim dizer, um claro e vergonhoso estado de calamidade a se abater por sobre a nossa música popular, notadamente a de raiz.

Aquela que, por sinal, mais nos identificava com a nossa cultura cotidiana, a história e outras manifestações significativas do imaginário poético, folclórico e do nosso cancioneiro popular. A música, diante deste absoluto caldo de contradições culturais, representa apenas a ponta do iceberg. A crise de talento e de idéias também "infecciona" diversos outros estratos do fazer cultural brasileiro, sobretudo pela inexistência de uma política de governo mais agressiva, menos excludente e que também priorize o ambiente da escola, as periferias e o interior do país.

A perspectiva de futuro grandioso

Este descuido vai aos poucos se generalizando, ferindo de morte diversos outros setores da nossa máquina cultural. Isso porque quando a sociedade se acultura, todo o resto desmorona, se fragiliza, corre perigo. Para quem acredita ser a cultura a verdadeira identidade de um povo, do jeito que vamos (anestesiados pela indiferença), daqui a pouco não teremos quase mais nada(de especial) para defender e nos preocuparmos.

É preciso conter todo este processo de substituição sistemática das nossas expressividades culturais. Como está sendo, por uma cultura alienígena, que não é nossa. Descomprometida com o belo e padronizada ante um modismo imbecil que só idiotiza nossa gente, especialmente a nossa bela juventude.

Vivemos, assim, uma realidade digna de envergonhar qualquer nação do globo que preze de verdade a sua identidade. O que estão fazendo com a nossa cultura musical (tradicional-regional inclusive) é um atentado contra a nossa inteligência. Um crime de lesa pátria para o qual todo brasileiro deveria se rebelar enquanto há tempo.

Um verdadeiro estupro cultural, algo inaceitável para uma nação que se diz pronta para ocupar uma posição hegemônica na América Latina, bem como no além-fronteiras. Cuidar bem da cultura é cuidar com carinho do presente e do futuro. Uma nação que não valoriza e nem preserva a sua cultura não tem nenhuma perspectiva de futuro grandioso.

Um desserviço à juventude

Qualquer estrangeiro que vier ao Brasil logo pensará que a nossa música é essa que toca no rádio, nos domicílios, nos clubes, nas praças e na TV. Quase tudo o que se ouve, se curte e dança pelo país afora, no momento atual constitui-se num lixo, para não dizer outro nome. Qualquer coisa, menos música... Coisa do tipo: pagode rasteiro, sertanejo choradeira e algo ainda pior – uma praga a se espalhar pelo Nordeste inteiro e por quase todos os quadrantes do Brasil: o forró descartável, descaracterizado, que de forró mesmo não tem nada. Uma poluição mental que só no futuro poderemos aquilatar todo o seu poder deletério e destrutível.

O que as emissoras brasileiras estão fazendo (com raras exceções) é um típico "arrastão" anticultural. Uma conspiração em desfavor da nossa história musical que compromete seriamente todo o nosso velho sonho de futuro.

O que ora se toca nas nossas rádios é péssimo. Nada condizente com o potencial que possuímos nesta área. Como se deliberadamente subestimassem a inteligência, assim como a paciência da nação verde-amarela. As "bandas" de forró, como são chamadas, descaracterizam nossa música e até o próprio mercado fonográfico. A pobreza é tanta que os próprios nomes destas "bandas" pecam mortalmente até na formulação dos seus títulos. Mais um atentado à gramática, à língua portuguesa, às idéias, à poesia, enfim, ao bom trato dos vocábulos poéticos.

As letras de tais composições são sofríveis. Puro mau gosto. Pura pobreza, desnudando às nossas vistas, toda a miséria da nossa música miserável. Uma droga que só entorpece, deseduca e agride tanto a ética, quanto a moral da nossa sociedade, diante de um típico show de besteirol. Inclusive pela baixaria, que também se expressa na obscenidade, palavras chulas, imorais, de baixo calão. Um desserviço prestado à juventude e à nação – e ainda por cima cobram por isso.

Passividade e indiferença

Penso que a música, como um patrimônio do Brasil, devia ser bem mais protegida, sobretudo pelo poder público. E não me digam que a culpa é do nosso povo. Porque isso não é verdade. O povo não tem culpa da educação que não recebe. O povo só pode gostar daquilo que conhece e lhe é oferecido.

E o que estão fazendo com nossa gente é uma verdadeira lavagem cerebral. Por que será que os europeus, os alemães, por exemplo, adoram tanto a música erudita? Ora, simples. Lá, a música começa como uma disciplina escolar. As emissoras (de rádio e TV) primam pela qualidade, do contrário perdem a audiência e até a concessão pública para operar.

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