segunda-feira, 15 de outubro de 2012

A Tristeza na Música Brasileira

OBS: O meu melhor amigo, Márcio, que é psicólogo, me mandou esse texto após ler uma postagem que coloquei neste blogue sobre a tristeza na música brasileira, que além de ausente é hipócrita.

Márcio, que é um cara inteligente e sensível, soube mostrar a sua indignação com o fato de não termos em nosso país uma música que possa traduzir a carência afetiva de muitos homens brasileiros, surgida por causa das rígidas regras de conquista e da alta competitividade para se arrumar uma mulher, algo que só vem aumentando.

Enquanto isso, vamos estudando inglês e ouvindo as músicas escritas por ianques e principalmente por britânicos. Eles entendem a dificuldade pela qual passamos.

A propósito, em 2012 fará 20 anos que conheci esse cara. Não é qualquer amizade que dura tanto tempo.

A TRISTEZA NA MÚSICA BRASILEIRA

Márcio Ribeiro dos Santos - 38 anos,psicólogo - Via e-mail

Ao ler o artigo sobre “tristeza na música” do blog “planeta laranja”, do meu caríssimo amigo e irmão, Marcelo, fiquei refletindo sobre esse tema. Realmente é difícil falar sobre esse sentimento, pois ele remete a algo que os seres humanos buscam fugir desesperadamente: o confronto com a melancolia. O ser “alegre” é o objetivo final de todo ser humano, e essa alegria, na maioria das vezes, se reflete nas conquistas mais festejadas culturalmente pela sociedade: o sucesso profissional e a conquista amorosa. Ser “triste” é o oposto disso, é ser derrotado e cidadão de segunda classe.

Até onde essa verdade absoluta nos é imposta? Isso gera uma angústia existencial muito grande. Eu tenho que” ter”, eu tenho que ”ser”. Quantas pessoas não escutaram isso: “olha esse sujeito nerd esquisito, só anda triste, não pega ninguém..”

Será que ser alegre é isso mesmo? Como já dizia o célebre Raul Seixas: “...mas foi tão fácil conseguir e agora eu me pergunto e daí?..”. Encarar a superficialidade dessas conquistas para o crescimento humano é uma dificuldade que a própria sociedade impõe. Então, pelo menos em nossa civilização ocidental, ser triste é sinônimo de ser derrotado. Temos que ser alegres, o tempo todo. Mesmo que essa alegria possa terminar no final de uma “balada” com o meu carro zero quilômetro no poste da esquina. Mas a ordem é: tenho que ser alegre.
Na verdade essa imposição entra em conflito com a própria existência humana. Filosoficamente, o ser humano é obrigado a se defrontar com os seus maiores medos. A própria existência humana exige o confronto com a decadência do corpo, com a brevidade da vida, com as frustrações geradas pelo contato com o outro, pela desilusão e o vazio do existir.
Negar a tristeza que está implícita em toda essa condição é negar o seu próprio existir. Então falar da nossa tristeza, não é sinal de derrotismo, mas sim de amadurecimento por reconhecer suas debilidades.

Na música estrangeira podemos perceber a capacidade dos artistas de se apropriarem desse sentimento e transformarem em poesia suas experiências melancólicas de frustração. É difícil falar de tristeza sem ser piegas.

Na música brasileira consigo lembrar de poucas, mas boas músicas que refletem a tristeza humana. Músicas bonitas, poesias em forma de canção. Não estou falando aqui daquelas músicas de corno que falam da mulher que me chifrou, mas que ainda amo de paixão.

Posso citar: “A lua e eu” de Cassiano. Esse trecho: “..quando olho no espelho, estou ficando velho e acabado..” nos mostra como essa música é realmente triste, mas não por isso menos bonita.

Gosto também de “Maurício” do Legião Urbana. “.....já não sei dizer, se ainda sei sentir o meu coração...”. Essa canção é tão melancólica e ao mesmo tempo tão bela.

Existem muitas outras canções que poderia citar aqui, mas essas duas ilustram bem, como é interessante se defrontar com esse sentimento que faz parte de nossa existência. Ser triste é ser humano. Não existe alegria absoluta e eterna. Acho que o ser humano mais triste é aquele que está o tempo todo alegre e com um sorriso estampado no rosto. Essas pessoas me deixam desconfiado.

Já que estamos falando de música e tristeza, não existe coisa mais vazia do que correr embriagado atrás de um trio cantando: “.....quero chiclete, quero chiclete..”.

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