quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Papagaio come milho, periquito leva a fama

As pessoas perderam a noção do que é arte. Para a maioria, arte virou sinônimo de entretenimento e "artista" é todo aquele que aparece na televisão. Além disso, a submissão à televisão e a outros meios de comunicação faz com que as pessoas tomem como "mestres da arte" não os artistas que vazem a melhor arte mas os que aparecem mais nos meios de comunicação, com a reputação construída estrategicamente e artificialmente por estes meios.

Antes que digam que é coincidência, hoje é realmente o aniversário de Michael Jackson, tido erroneamente como "gênio" e "mestre" da música, quase como um semideus, uma quase unanimidade que só a falta de conhecimento musical (inclusive dos bastidores da indústria musical) e a falta de senso estético podem justificar.

Sabem aquele ditado famoso, que ilustra o título desta postagem? Significa que uma pessoa é responsabilizada naquilo que outra é que fez de fato. É quando alguém é substituído nos créditos de algum feito realizado por outro, que acaba caindo no esquecimento.

E justamente este é o caso entre Michael Jackson e Peter Gabriel, ambos em evidência nos anos 80, com carreiras iniciadas praticamente na juventude (Gabriel começou quando adolescente) e que disputam a alcunha de "Gênio da musica" defendido cada um por um lado da questão.

Gabriel havia lançado em 1986 o álbum So, que na opinião de quem realmente conhece e entende de música (e não apenas gosta), é o melhor disco lançado na década de 80. Eu concordo com esta conclusão. E só conhecendo mesmo as intenções e a trajetória de Gabriel para concordar com isso.

Gabriel, então com mais de 20 anos de carreira e 4 álbuns de grande qualidade musical, decidiu fazer um álbum mais acessível ao grande público. pelo menos o que ele julgava ser "acessível ao grande público", pois o álbum pode ser considerado um dos que chegaram ao extremo do que a arte pode fazer com o rock, um álbum produzido com esmero e muita informação musical. 

So é um álbum para ser dançado, sim (é a primeira vez que Gabriel aderiu a sons mais "black" como no carro chefe Sledgehammer e em Big Time), mas também ouvido e - o que é extremamente raro nos dias de hoje - pensado, raciocinado, pois suas canções mantém a intelectualidade genial consagrada por Gabriel, um dos maiores intelectuais da música.

Mas Gabriel, pelo menos para o grande público que ele queria atingir, foi esnobado. Mesmo com faixas sacolejantes, So caiu no esquecimento e o fundador do Genesis reduzido a um one-hit wonder como outros quaisquer. Tanto esmero para movimentar os cérebros das massas e nada. Uma pena.

Enquanto isso, um álbum sacolejante, mas nada intelectualizado, com letras falando sobre amenidades, se consagrou com a fama que seria merecida ao álbum de Peter Gabriel, gravado por um cantor dançarino que teve a sorte de ter uma grande equipe lhe apoiando. Gabriel também teve muita gente junto na produção de seu So, mas não dependia deles para ganhar visibilidade, como aconteceu com o jovem garoto de Gary, cidade do estado de Indiana.

Thriller é um álbum feito para dançar. me arrisco a classificá-lo como uma festa portátil, pois a distribuição das faixas é perfeita para ser tocada na ordem durante qualquer festa. Talvez isso é que tenha feito com quer Michael Jackson tivesse melhor aceitação popular: ele, por não ter compromisso intelectual com a arte, soa menos tedioso para as grandes massas.

Jackson teve como trunfos muita gente envolvida. Sem eles, Jackson não seria nada, pois como criador de músicas é mediano e claramente comercial, ganhando e torrando dinheiro até o último dia de sua vida, numa estranha momento de 2009. Mas tendo a assessoria de muitos produtores de renome e tendo clipes dirigidos não por diretores de clipes, mas por cineastas, somada a muita propaganda midiática, cresceu mitologicamente de maneira assustadora, parecendo muito maior do que realmente era, numa falsa imagem infelizmente consagrada até hoje.

Não que Jackson não tivesse seu valor. Mas sua missão estava direcionada a pura diversão, muito longe do estigma de "genialidade" que quase todos querem lhe dar, como se o intelectuial da música fosse ele. Sua música até tem qualidade, dentro do que se espera de uma música comercial. E a missão de divertir foi muito bem executada - a maior qualidade de Jackson foi saber aproveitar isso - se levarmos em conta sua verdadeira trajetória midiática que a mídia expôs até a exaustão. Podemos até que ele foi de fato um gênio nas relações com a mídia. O que nada tem a ver com criação musical e evolução cultural.

Jackson soube muito bem se utilizar de sua imagem, principalmente, nos seus clipes. Foi o fundador da nova fase da música de mercado, cada vez mais visual, onde a imagem se sobrepõe a musica, transformando esta em coadjuvante. Foi o primeiro a encher os palcos de seus shows com muitos dançarinos, algo banal e rotineiro na música atual. As suas coreografias - ele fazia música para dançar, mesmo! - nos clipes dirigidos por cineastas foram cruciais para a construção do mito de "gênio da música", já que a aparência é muito mais percebida do que a essência.

Gabriel também lançou mão de vídeos para promover So. Mas com o diferencial de que ainda a música era a protagonista, se valendo da imagem apenas para ilustrá-la, do contrário que Jackson, mais interessado em se promover através de sua imagem.

Mas o ex-Genesis é "complicado" demais para representar a genialidade musical para a maioria de pessoas de educação mal recebida, de discernimento atrofiado, muito mais interessada nos rebolados e nos escândalos, de Jackson, que até por isso, parece muito mais próximo da grande massa do que qualquer intelectual "distante". Jackson é o legítimo representante do povo, semelhante a qualquer cidadão em qualidades, defeitos e fazendo a música que todos podem cantar no chuveiro, sem ter nenhum talento especial.

Jackson, o bezerro de ouro moderno, o "gênio" que raciocina com os quadris, sendo ovacionado pelas grandes massas como o "gênio incontestável", consagrado artificialmente pela mídia. mesmo com um repertório e atitude típicas de um produto midiático que não tem muito a dizer de realmente relevante.

Peter Gabriel, desprezado como qualquer intelectual costuma ser, segue quieto no seu ramo, discreto como um verdadeiro gênio tem a sensatez de ser. Pois sabe que não precisa da consagração midiática, nem de popularidade ou dinheiro em excesso, para ser gênio de fato: sua riquíssima obra lhe permite essa consagração natural. 

E ainda vivo e atuante, Gabriel continua aproveitando muito bem o merecido sossego, enquanto as atenções populares seguem direcionadas a outro ídolo, que mesmo morto ainda atrai atenções.

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