Dois assuntos envolvendo rádio estavam em evidência nesta semana: a transferência de toda a programação AM para o FM e a volta da versão supostamente roqueira da Rádio Cidade do RJ.
Em ambas as notícias, mostram um retrocesso do rádio, que amarga audiências cada vez piores e é claramente ameaçado pelo mp3, este permitindo que cada ouvinte faça a sua própria programação. No desespero de alavancar as audiências, medidas como essas são tomadas.
A transferência para o FM pode sinalizar fim do AM
Foi anunciado que toda a programação de emissoras de rádio AM serão transferidas para a FM. Argumentam os que decidiram pela medida que é para favorecer a recepção em aparelhos de celular. Mas o verdadeiro motivo é algo que os empresários de rádio estavam ansiosos desde os anos 90: matar o AM.
Não vai adiantar o FM ser composto com toda a programação duplicada com o rádio AM. A ideia mesmo é matar o AM por ser este mais caro para manter e de sonoridade um pouco mais fraca. Apesar de ter um alcance maior que o FM, o AM gasta muito dinheiro com manutenção e aperfeiçoamento. Dá para ter uma sonoridade igual ao FM, mas um gigantesco investimento seria necessário para melhorá-lo, o que não é de interesse dos donos de rádio.
Desde os anos 90, os empresários de qualquer setor visam gastar menos possível para lucrar cada vez mais. E gastar pouco, em muitos casos, significa abrir mão de qualidade, fato favorecido pela mediocrização cultural que predomina nos dias de hoje. As pessoas passaram a ser menos exigentes e empresários abusam sempre deste fato.
Mesmo com a pouca potência, o FM é mais barato e sua sonoridade mais límpida, é atraente para os ouvintes. Os donos de rádio com certeza, não vão abrir mão de matar o subestimado AM, enterrando de vez uma preciosa historiografia radiofônica que orgulhou muito quem participou tanto das transmissões quanto das recepções das conhecidas emissoras do já saudoso AM.
Rock para quem se contenta com pouco
Outra notícia radiofônica da semana é a volta da Rádio Cidade. Embora não confirmado, a sua volta gerou um festival de especulações. Uma delas é a volta da programação "rock" da Rádio Cidade. "Rock" está entre aspas porque não é uma programação engajada e sim um mero vitrolão onde o gênero é hegemônico.
Quem conhece a história da Rádio Cidade, como eu, sabe muito bem que a vocação dela é o pop hit-parade. Tanto é que considero dois auges da emissora: a primeira metade da década de 80 e o ano de 1992. Neste último, a Cidade se tornou uma excelente rádio de dance-music, bastante informativa e com variedade dentro gênero, com direito a remixes raríssimos, muito hoje difíceis de se encontrar pela internet.
Mas em 1995, a rádio cismou em virar filial carioca da 89 FM, uma rádio que finge ser especializada em rock e que na verdade não passa de um vitrolão a executar apenas sucesso do gênero. Como uma espécie de rádio jovem que só toca aquilo que os jovens entendem como "rock". Ou seja, uma "Jovem Pan com guitarras", nas palavras de meu irmão Alexandre.
A volta dessa rádio infelizmente está sendo comemorada, já que muitos jovens, nesta época de mediocrização, se contentam com uma lista de músicas que possa se encaixar no gênero, sem representar algo realmente essencial. Para os fãs desse tipo de rádio, tocar apenas sucesso do rock está bom demais, o que não é coerente com a verdadeira atitude rock, questionadora, pesquisadora e exigente. A cultura rock perde com rádios como a Cidade. Lamentável.

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