As indústrias de cerveja lançaram recentemente versões sem álcool da bebida mais popular em nossa sociedade: a cerveja. Com que objetivo lançaram essa versão não se sabe, pois tirar álcool da cerveja é como tirar o motor de um carro. Não dá certo.
A cerveja é uma bebida peculiar. Ninguém toma por gosto ou para matar a sede. Ela tem um gosto horrível e embora todos finjam que ela é deliciosa, é um fato de que sua amargura incomoda. Mas porque uma bebida de gosto tão ruim é tão popular? Simples: eu falei que ela é uma bebida peculiar. E vou dizer a sua peculiaridade.
Cerveja é bebida feita para rituais sociais
A cerveja é na verdade uma bebida social. Ela é feita para rituais sociais. Tanto é que cada país tem a sua cerveja típica. A cerveja, na verdade foi feita para descontrair as pessoas, já que o álcool, de início, traz uma sensação de extroversão e de relaxamento. Mas só no início, pois a partir de determinada dosagem (que varia de pessoa para pessoa), ela age como dopante, nocauteando literalmente que a bebe.
As pessoas tomam cerveja mais pelo efeito que ela dá e pela obrigação social (é antipático se recusar a beber - obrigação liberada apenas para doentes e para religiosos - o que leva a crer que os segundos são o público alvo da cerveja sem álcool, para que não se sintam socialmente excluídos).
Existe uma variedade de bebidas muito mais deliciosas, nutritivas - e sem os efeitos nocivos - do que a cerveja. Mas o poder socializante da cerveja é muito forte em nossa cultura. Um amigo meu, que não vou dizer quem é, entrou no Facebook para postar inúmeros memes sobre cerveja, num verdadeiro culto quase religioso (como se a cerveja fosse uma religião). Ninguém vai tomar, por exemplo suco de groselha para se socializar, para aparecer para os amigos.
Álcool mata neurônios, mesmo em quantidades moderadas
Mas a cerveja tem o seu lado ruim. Ela danifica o sistema nervoso, matando neurônios e atrofiando a partes cerebrais que atuam no discernimento e na atenção. O dano é bem sutil. Mesmo pessoas inteligentes poderiam ser ainda mais inteligentes se não consumissem cerveja.
Além do dano cerebral, a cerveja acelera o envelhecimento físico e destrói o fígado. As pessoas que tem o hábito de beber com mais frequência, normalmente chegam aos 40 bastante envelhecidos, parecendo vinte anos a mais do que a idade que realmente possuem. Como acham natural chegar acabados aos 40, eles não se importam e continuam se auto-destruindo, pois manter um suposto compromisso social é mais interessante.
Eu tentei tomar cerveja em uma edição do Festival de Verão, em Salvador. Foi só uma latinha, tomada lentamente. Mas foi uma das piores experiências de minha vida. Entrei numa depressão incontrolável, pior do que a mais tristonha que passei sobriamente. Fiquei antipático e não conseguia sorrir nem um pouquinho. Uma reação que é bem oposta a esperada pela maioria das pessoas. Hoje eu não tomo álcool e elejo caldo de cana e mate como minhas bebidas favoritas.
Para quem é direcionada a cerveja sem álcool?
Boa pergunta. Se o atrativo da cerveja está no efeito que o álcool causa, para quem então é direcionada a cerveja sem álcool? Difícil imaginar.
Seria para evangélicos? Bom, tive a oportunidade de conhecer (em ocasiões diferentes) duas garotas evangélicas que não se recusaram a tomar "todas". Uma delas ficou bêbada em uma festa e narrou esta experiência como se fosse um ato de heroísmo. Como se fosse ótimo estar embriagada.
Seria para os doentes? Pode ser. Mas é meio difícil acreditar que alguém iria tomar uma bebida de gosto ruim sem o tão desejado efeito de "amimação" que o álcool traz.
Então para quem? Para crianças irem treinando para quando crescerem (não muito, adolescentes driblam a lei para iniciar lá mesmo o seu irritante vício) seguirem direitinho os mandos e desmandos dessa sociedade hipócrita? Parece que só isso mesmo, embora acredite que até mesmo crianças, estimuladas pelos pais que bebem diante delas, prefiram a versão com álcool.
O que significa que a cerveja sem álcool pode se tornar um verdadeiro fracasso, a desagradar gregos e troianos. É como eu disse, tirar o motor de um carro para que ele não rode. Pois ninguém toma algo de gosto tão ruim como dipirona se não for para ficar "doidão" e se dar bem nessa sociedade a cada dia mais fútil, vulgar, hipócrita, ignorante e extremamente submissa em relação às regras sociais.

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