Noto uma não assumida e desesperada busca da população brasileira por alguém que faça o papel de herói ou de santo. Brasileiro é um povo infantilizado e como tal, vive em busca de alguém para segurar nas mãos. Como crianças perdidas a procura de um adulto para cuidar delas.
Os brasileiros por não saberem agir por conta própria, e pensar menos ainda, necessitam de alguém com visibilidade e poder para lhes dizer o que deve ser feito e/ou simplesmente servir de exemplo de sucesso a ser seguido. Em muitas situações observo essa verdadeira busca desesperada por um herói, alguém que sirva de babá da humanidade brasileira.
A morte de Chorão foi mais um exemplo dessa carência. Um simples cantorzinho, cujas letras narcisistas não traziam nenhuma lição, cuja vida desregrada acabou da forma como foi, foi ovacionado com gigantesca histeria, nunca vista em um enterro de qualquer benfeitor. Um cara que era um péssimo exemplo para a sociedade tratado como uma espécie de mártir, um herói para ser cultuado como santo. Um bom sintoma do desespero que caracteriza a sociedade brasileira.
Não foi o primeiro caso e nem o último. E não ocorre somente com mortos. Há vivos que são blindados das críticas, tomados como heróis de uma sociedade sem autoestima, infantil e incapaz de pensar com o próprio cérebro.
Apenas a visibilidade é o suficiente para forjar heroísmo
E não precisa ter feito grandes atos para que possa ser considerado como tal. Basta ter visibilidade (misto de fama e credibilidade). Dois bons exemplos são o publicitário-celebridade Roberto Justus e o jogador Neymar.
O primeiro, um veterano publicitário de visual cafona e postura conservadora que decidiu virar celebridade após muitos namoros com jovens atrizes (com idade das filhas dele), onde acabou casando com a filha de Helô Pinheiro (para "variar" bem mais nova que ele). Sinônimo de sucesso masculino, principalmente entre os jovens neomachistas, o publicitário, que nada fez de relevante para justificar (sem trocadilho) a sua imagem mitológica de herói bem sucedido, foi "agraciado" pelo nascimento de uma filha deficiente que é, infelizmente, usada como "escudo" para as críticas contra o publicitário neo-celebridade. Até mesmo a fama de papa-anjo foi esquecida pela coletividade - mesmo que ele esteja casado com um dos "anjos", já que só o fato de ter uma filha com limitações já o transforma gratuitamente em "benfeitor da humanidade".
O segundo, um jogador relativamente novato, com imagem heroica construída pela mídia, satisfazendo a tradicional mania do brasileiro em levar a sério o futebol, tratado e nosso país não como uma simples forma de lazer, mas um misto de dever cívico e regra social. E como "vencer no futebol" é considerado qualidade de vida por muitos, nada como um jogador de futebol, simples e ignorante, para fazer o papel do herói que a população vive à procura. Um modelo perfeito para a sociedade infantilizada, iludida em achar que uma mera diversão é "importante" para o país.
Outro exemplo seria o Luciano Huck e sua forjada fama de bom moço sem ser. Mas suspeitas de associação com forças políticas conservadoras, além dos secretos objetivos de entrar para a política, tiraram o direito do famoso apresentador narigudo de se tornar uma "unanimidade". pelo menos, nem todo mundo espera heroísmo por parte dele.
Ah! Huck e justus também são empresários. E os profissionais dessa classe se tornaram "heróis incontestáveis", ainda mais numa época onde o neodireitismo surge criando novos simpatizantes e devotos do Capitalismo, um sistema que nada tem de heroico e muito menos ainda de humano.
O herói-santo dos espiritólicos
Para coroar essa mania de eleger alguém como tutor, babá, santo ou herói, nada como um simples médium católico como Chico Xavier, morto em 2002 e considerado por muitos o "homem mais bondoso do planeta Terra". A carência por um tutor também foi usada pela FEB (Federação Roustainguista Brasileira) para construir o mito em torno do médium, um homem simples e honesto que não era melhor que qualquer mortal, mas foi alçado a condição de semideus reforçada pela grande vendagem de seus livros, todos fantasiosos, cuja renda engordou os cofres da FEB, que inventou que os lucros iriam para a caridade.
Xavier foi muito bem manobrado pelos dirigentes da entidade roustainguista e agiu conquistando a credibilidade perante muitas pessoas tão ingênuas quanto o médium, que acreditam que ele tenha sido um enviado privilegiado a "guiar" a humanidade.
As religiões adoram criar santos. São uma espécie de "heróis" para os fiéis, tutores de mentes frágeis que não conseguem pensar por conta própria, acreditando em tudo o que dizem, sem analisar ou confirmar fatos, confiando cegamente na credibilidade muitas vezes falsa de quem diz.
E justamente nas religiões, esse desespero na busca por um tutor é levada ao extremo. Isso está estimulando a atrofia intelectual e a dependência de um "líder" que seja capaz de raciocinar pela população que não está a fim de pensar e que cegamente aceitará as decisões muitas vezes equivocadas do líder aclamado.
Mas não é somente na religião, como foi visto nesta postagem. Mas graças a ela é que a população aprendeu a aposentar o seu cérebro entregando a outros o direito de pensar, esperando que alguma coisa de "nobre" venha deles. Alienação significa entregar ao outro o direito que é seu. E esperar que heróis e santos pensem por nós é a grande prova de que ainda somos uma sociedade totalmente alienada.
Chega de heróis. Só funcionam na ficção. Eles nunca lutarão por nós na vida real.
Um aviso: os nomes citados aqui são apenas exemplos. Nada há de pessoal contra eles, a não ser o fato de que todos não servem para o papel de heróis da sociedade brasileira. Outros exemplos de heróis e santos forjados existem, e são inúmeros, o que mostra que esta mania (que está muito longe de acabar) já é tradicionalmente secular entre os brasileiros.

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