No Brasil, as regras sociais, apesar de não escritas na Constituição Federal, são rigidamente cobradas como se estivessem na Carta Magna da nação. Quem não as segue é imediatamente punido com a negação dos benefícios que só a vida social pode dar. Até mesmo nos direitos mais básicos como o de emprego e a vida afetiva, já que a sociabilização favorece muito a aquisição desses direitos. E para se sociabilizar, é preciso seguir rigorosamente determinadas regras, legisladas e reguladas pela mídia, que trabalha incessantemente pela manutenção dos costumes sociais mais corriqueiros.
Uma dessas regras sugere que as conquistas afetivas tenham que surgir de maneira mais lúdica possível. Apesar de acabarem em relacionamentos sérios, a sociedade entendeu que - contraditoriamente - esses relacionamentos tem que iniciar de maneira "descontraída" e através de "brincadeiras" conhecidas como "jogos amorosos".
Eu sempre detestei jogos amorosos. As intenções dos envolvidos nunca são claras, pois há muita ironia, mistério e contradição em suas regras. Para mim esses jogos só servem para quem não quer levar as relações a sério. Mas para quem está procurando uma relação estável e com confiança, esses jogos acabam prejudicando mais do que ajudando.
Até desconfio que esses jogos existem para filtrar concorrentes, fazendo com que apenas os que entendem as regras tenham direito a uma vida afetiva, eliminando da concorrência aqueles que não se adaptam ou não concordam com as regras do jogo.
E o que a lógica comprova é que boa parte dos relacionamentos surgidos através de joguinhos se tornam fracassados, sem amor ou até não levados a sério. Principalmente para os homens, ducados socialmente a não levar nenhum relacionamento a sério, agindo feito crianças por quase toda a vida. Isso tem feito com que a maioria dos relacionamentos chegasse a falência ou na melhor das hipóteses, numa estabilizada relação sem amor, mantida forçadamente para agradar a sociedade e/ou para manter interesses sobretudo financeiros.
Aquele tipo de conquista gerado pelo carinho e por conversas sadias tem estado muito fora de costume. As pessoas, talvez por terem desaprendido a amar ou por submissão as regras sociais ("as coisas são porque tem que ser assim", não é o que pensam?), preferem agir desta forma, através de joguinhos "descontraídos" que na verdade servem para acrescentar uma falsa descontração a algo que terminará ainda de forma mais triste, pois o bom senso mostra que falsas alegrias nunca substituem as verdadeiras alegrias. Se uma emoção não vem do coração, é inútil esperar que venha de uma brincadeirinha fútil.
Continuo detestando joguinhos. Não vou me submeter a uma regra social absurda. A Constituição me dá o direito de fazer o que a lei não proíbe. E não sou obrigado a aderir a uma brincadeira que eu não concordo.
Posso até sair prejudicado em desobedecer a tão rígida regra social - aliás, como tem sido, visto que ainda não pude entrar em um relacionamento estável. Mas tenho a consciência de que para que algo aconteça, deve estar de acordo com a minha personalidade, com a minha vontade e minhas aptidões. E se exijo confiança em um relacionamento, é preciso que o processo de conquista permita que eu crie uma confiança na pessoa a ser conquistada.
E joguinho, cá para nós, é uma brincadeira fantasiosa, onde rodam mais mentiras que desviam os relacionamentos da confiança tão desejada. Até porque não dá para se confiar em alguém se ela enrola sobre seus verdadeiros objetivos. Se quer confiança, esqueçam joguinhos. Eles só servem para quem quer se divertir com as emoções alheias.

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