Vivemos em uma era onde o ato de raciocinar é mal visto e que mesmo o ativismo deve ser mais divertido do que inteligente, embora garanta aos seus simpatizantes uma aura de "inteligência" que lhe garante o rótulo gratuito de "intelectual" sem ser de fato.
Um ato cometido pelo jogador de futebol (sempre eles - em vésperas de copa, isso é ótimo...) brasileiro Daniel Alves, que joga no Barcelona (mesmo time de Neymar, o desejável "Presidente" do Brasil), está sendo visto como um ato de "conscientizado" ativismo social pela maioria das pessoas.
Foi o seguinte: é hábito de torcedores racistas europeus jogarem uma banana no campo para dizer que não-brancos (negros, índios, palestinos, mestiços) são "macacos", já que a banana é estigmatizada como principal alimento desta espécie de animal. É uma maneira de dizer que não-brancos são inferiores, já que primatas se assemelham aos seres humanos em alguns aspectos (como "humanos" inferiorizados"). Um desrespeito, mesmo que não gere danos a jogadores de futebol (que continuam ricos, casados e populares, mesmo com estas atitudes reprováveis).
O jogador Daniel Alves, ao ver uma bana sendo lançada em sua direção, simplesmente a pegou e comeu. Nada demais, até porque bananas, além de extremamente nutritivas são muito deliciosas e práticas de se comer. Deveria ser estigmatizado como comida de ser humano, um alimento completo devido a sua vastidão de propriedades nutricionais, indispensáveis a nossa saúde e sobrevivência.
Mas o ato foi entendido como "protesto anti-racista" pelos torcedores brasileiros, que habituados a atribuir falso heroísmo a jogadores de futebol, se aproveitou do episódio para transformar Daniel num ativista. Um ativista quixotesco, mas um "ativista".
Isso me fez pensar bastante e cheguei a conclusão que o ato de Alves merecia ser ignorado. Não é a atitude dele que vai acabar com o racismo em qualquer lugar do mundo. O combate ao racismo, extremamente cruel (eu, como mestiço, também sou vítima constante) merecia uma atitude mais e´ria e responsável. Mas como a maior parte da população não dá ouvidos a intelectuais, acharam melhor que um jogador de futebol, normalmente a político e de escolaridade baixa, sem ideias surpreendentes, fosse "dar o recado". Atrai maior simpatia popular.
E um festival de asneiras se sucedeu ao episódio com um monte de celebridades repetindo o gesto em fotos e videos pela internet, endeusando o jogador como "ativista anti-racismo", um cara incapaz de ter a consciência e a atitude de um Steve Biko, Nelson Mandela, Malcolm X e Martin Luther King, estes sim, grandes combatentes que escreverem seu nome na história do ativismo anti-racismo. Tolice querer acrescentar o nome de um ingênuo Daniel Alves a esta lista de ativistas. Mas em tempos de mediocrização cultural, há quem queira juntar o jogador a esses grandes nomes.
Para mim, isso foi um episódio banal que serviu mais para transformar o combate ao racismo em uma diversão fútil. Não vai eliminar o racismo e muito menos o elitismo. O episódio também servir de uma empolgada apologia proselitista ao futebol nas proximidades da copa. Não sei dizer se ele será chamado pelo Felipe Scolari, mas creio que os patrocinadores da "seleção" desejarão vê-lo jogar na copa para se aproveitar do episódio.
Mas tenho absoluta certeza que o fato de Daniel Alves ser jogador de futebol influiu muito mais na repercussão do episódio do que o fato dele ser um não-branco. Se em seu lugar, o mesmo ato fosse cometido por um negro que seja um intelectual daqueles que vivem em bibliotecas de universidades, o caso teria morrido ali, sem atrair qualquer simpatia popular.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.