domingo, 7 de setembro de 2014

O Hino Nacional e a realidade do Brasil

O Hino Nacional Brasileiro, apesar de não ser o nosso primeiro hino, é muito antigo. A sua rebuscada letra já não está de acordo com a realidade do país.

Mas com o hábito que o brasileiro herdou do catolicismo de divinizar os símbolos pátrios (a "seleção" também?), ele não pode mais ser mudado, já que a população não quer, talvez por pensar que "foi Deus" quem definiu os símbolos pátrios de nosso país e sua divisão territorial.

Hoje, no Dia da Pátria, resolvi analisar a letra do Hino e comparar o que aparece em seus versos, ao cenário atual de nosso país, mostrando que um de nossos maiores símbolos cívicos, por mais admirável que seja, está completamente fora da realidade que vemos em nosso dia a dia.

lembrando que patriotismo é uma farsa, que nações são artificiais e que o importante é lutarmos pelo bem estar da coletividade e não ficar parado cultuando símbolos abstratos. 

Hino Nacional Brasileiro

Letra de Joaquim Osório Duque Estrada (1870 - 1927) e música de Francisco Manuel da Silva (1795 - 1865)

Ouviram do Ipiranga as margens plácidas / De um povo heroico o brado retumbante - De "brado retumbante", a população brasileira só dá ouvidos ao que é consagrado pela mídia e pelos costumes sociais. Se alguém sem visibilidade e poder de convencimento lançar uma nova notícia, mesmo que esteja correta e verdadeira, a população não dá ouvidos, já que a posição social de quem fala algo é que dá credibilidade ao que é dito.

E o sol da Liberdade, em raios fúlgidos / Brilhou no céu da Pátria nesse instante

A liberdade, no Brasil, é relativa. E o pior que o povo gosta disso. Excesso de regras, leis, impostos. As autoridades, celebridades, grandes empresários ou qualquer tipo de liderança, fazem o que querem com o povo brasileiro e os obrigam, mesmo que de maneira subliminar, a seguir suas diretrizes e satisfazer seus interesses, mesmo sendo a nossa sociedade considerada uma "democracia". Só se for democracia de fachada.

Se o penhor dessa igualdade / Conseguimos conquistar com braço forte,

Não dá para falar de igualdade de direitos em nosso país. Estamos cansados de ver os privilégios concedidos a uma minoria. O neo direitismo surgido com as decepções com governos petistas fez ressurgir o culto ao bem estar individual, em detrimento do bem estar coletivo. E braços fortes? O nosso trabalho árduo muitas vezes só serve para adquirirmos um salário semi-escravista que não satisfaz as necessidades básicas garantidas pela Constituição Federal que, embora poucos saibam, também é um de nossos símbolos pátrios.

Em teu seio, ó Liberdade / Desafia o nosso peito a própria morte!

Correr o risco de morrer para lutar por uma utópica liberdade não parece um bom negócio. Por isso mesmo a população prefere permanecer acomodada, sorridente com os problemas que lhes apresentam ou usando o futebol, o álcool e outras formas de ilusão para fugir provisoriamente desses problemas, para encará-los logo em seguida, ainda maiores e mais difíceis de serem resolvidos. E como um circulo vicioso, quanto maior o problema, maior a necessidade de fuga.

Ó Pátria amada / Idolatrada / Salve! Salve!

O nosso patriotismo é hipócrita. Além da submissão aos ditames estrangeiros, sobretudo os vindos dos Estados Unidos, ainda achamos que a nossa "pátria" é a "seleção" brasileira de futebol, representante máxima da futilidade lúdica brasileira, a verdadeira fuga que engana a todos que pensam que uma mera jarra de ouro, conquistada após enfiar uma bola em uma rede, possa tirar a população da miséria. Como se a vitória da "seleção", que não passa de uma mera equipe de futebol, fosse mais importante que a melhoria de vida da população.

Brasil, um sonho intenso, um raio vívido / De amor e de esperança à terra desce

O povo brasileiro adora sonhar. Acreditar que no futuro as coisas vão sempre melhorar. Aí quando o tal futuro vira presente, nada melhora. Stefan Zweig dizia que o Brasil "é o país do futuro". Claro. É o país do "deixa para depois". Vamos acreditar que seremos felizes no futuro, mesmo que nunca sejamos de fato, sempre adiando tal felicidade.

Se em teu formoso céu, risonho e límpido / A imagem do Cruzeiro resplandece.

Enfim, um verso realista! Realmente a nossa maior qualidade está nas paisagens e na diversidade de nosso território, com muitas atrações naturais e artificiais que agradam a todos - mas todos mesmo! - os gostos. Pena que isso não é valorizado em nosso país, pois além da imensa orla - a maior orla de um só país de todo o planeta - muito mal explorada, ainda tiveram a audácia de organizar eventos onerosos para atrair turistas para o país, mesmo sabendo que sem gastar muito poderíamos acelerar nossa vocação turística sem a realização de eventos inúteis que só servem para encher o bolso de autoridades e grandes empresários.

Gigante pela própria natureza / És belo, és forte, impávido colosso / E o teu futuro espelha essa grandeza.

Um gigante bobão, medroso e alienado que só pensa em se divertir. E que futuro podemos esperar de uma população inerte, submissa à mídia, às regras sociais e às autoridades, interesseira e egoísta, que só ajuda quando está na moda e que coloca diversões fúteis que nada contribuem para evolução intelectual e sentimental do povo, como prioridade máxima para as suas vidas?

Terra adorada / Entre outras mil / És tu, Brasil, / Ó Pátria amada!

Mais um verso que não tem coerência com o patriotismo hipócrita da população brasileira. Mas aproveito para dar um conselho: continue esperando se um gol do Neymar irá salvar a tua vida, para ver o que acontece.

Dos filhos deste solo / És mãe gentil, / Pátria amada, / Brasil!

A "mãe" é realmente gentil, mas seus filhos ingratos. Os brasileiros nunca valorizam as verdadeiras qualidades do país, preferindo se iludir com diversões ébrias e fúteis, que existem em qualquer lugar do mundo e que tanto estragam a vida de muita gente. Curioso que os mesmos indivíduos que posam de "apaixonados patriotas" em épocas de copa, quando as férias chegam, só viajam para o exterior, para ver coisas bem menos interessantes do que as que existem em nosso país.

Deitado eternamente em berço esplêndido, / Ao som do mar e à luz do céu profundo

Outro verso realista, mesmo que metaforicamente, já que quem está deitado não é o país e sim a sua acomodada população, que prefere priorizar a diversão do que lutar para resolver os seus problemas, o que exige esforço e risco. Vai que você invada o congresso para lutar por condições melhores de vida e aí vem a polícia, os seguranças e se necessário, as forças armadas, reagindo com violência, tirando a sua vida. Melhor para você é esquecer os problemas com algo narcotizante - nem que seja uma mera cerveja - deitado numa daquelas cadeiras de praia ao som de uma horrenda música cafona, à luz do espetáculo, coisas em moda hoje em dia. Mas não se preocupe: o problema irá retornar de surpresa, após o fim do "transe" narcótico.

Fulguras, ó Brasil, florão da América, / Iluminado ao sol do Novo Mundo!

Para entender esses versos, temos que ir ao dicionário, já que foi escrito em "outro idioma", o "rebusquês". "Fulgurar" significa "brilhar" e "florão" - que não significa "flor grande" - uma espécia de ornamento em forma de flor que aparece nos tetos de edifícios bem antigos. Os versos sugerem que o Brasil se destaca no mundo. Só se for pelos seus defeitos. Os estrangeiros não se interessam pelo Brasil, país que eles pensam ser uma gigantesca selva (mito), com um povo que só quer saber de se divertir e lucrar com o menor esforço possível (fato). Estamos cansados de saber que em matéria de qualidade de vida, muitos países estão a frente do nosso.

Do que a terra mais garrida / Teus risonhos, lindos campos têm mais flores,"Nossos bosques têm mais vida", "Nossa vida" no teu seio "mais amores"

Continuamos a ignorar nossas belezas naturais, relaxando em sua conservação e deixando de usufruir o que elas dão de melhor. Triste é o país cuja população ignora as suas belezas naturais típicas, ainda mais com uma fartura de beleza e diversidade que só existe em nosso país. As apas são justificadas pelo fato de serem versos extraídos da obra Canção do Exílio, de Gonçalves Dias, num claro exemplo do que significa "trecho incidental".

Brasil, de amor eterno seja símbolo / O lábaro que ostentas estrelado,

Amor eterno? Só se for em troca de favor, já que boa parte da população é tradicionalmente interesseira, só agradando aos outros em troca de algum favor. "Lábaro", para quem não sabe, significa "bandeira". Realmente a nossa bandeira é estrelada, mantendo a nossa tradição de imitar os estadunidenses. Estrelas que para a população não significam bulhufas.

E diga o verde-louro dessa flâmula / - Paz no futuro e glória no passado.

Se o verde significa a nossa mata, não dá para entender porque a esta cor é referida a "fala" dita no outro verso que diz que teremos paz no futuro e tivemos glória no passado. Do jeito que estão acabando as nossas matas, não dá para imaginar glória ou paz, já que tradicionalmente nosso país nunca foi objeto de colonização e sim de exploração. Que tipo de paz teremos no futuro com os cataclimas que acontecerão por nossa irresponsabilidade com o meio-ambiente?

Mas se ergues da justiça a clava forte,

Justiça? Ha, ha, ha! Inocentem os ricos e prendam os pobres! Esse é o lema de nossos "grandes juristas" (felizmente os verdadeiros juristas não pensam assim - mas não podem fazer nada pois não possuem o poder dos falsos), que não por acaso, pensam e agem como se fossem "deuses". Como se um diploma de Direito fosse fazer alguém ser melhor que os outros. Precisam estudar mais não apenas as leis, mas algum manual que ensine a defender o bem estar da coletividade e não de uma meia dúzia de bandidos enrustidos.

Verás que um filho teu não foge à luta, / Nem teme, quem te adora, a própria morte.

Considero este o mais absurdo e o menos realista de todos os versos. Se fôssemos realmente um povo bravo que nunca foge a luta, teríamos aos milhões invadido o congresso e tirado na marra aqueles corruptos que vivem mentindo para nós, além de boicotarmos produtos de empresários gananciosos e compactuados com as sujeiras do poder. Mas não. O povo, feito cordeirinho, prefere ficar sentado na frente da hipnótica TV, achando que a vitória de um time de futebol - ou da "seleção" - irá resolver os seus muitos problemas corriqueiros.

Dos filhos deste solo / És mãe gentil, / Pátria amada, / Brasil!

Acho melhor nem tentar rimar este verso. Mas a obscena rima é para onde o país irá se a população não se conscientizar e lutar por melhorias reais, que não signifiquem estádios de futebol e um enorme trem sobre pneus a rodar em lugares onde moradias foram derrubadas.

Feliz Dia da Pátria. E juízo, hein?

(Texto de 2013 revisto e atualizado)

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