Quando a arte vai mal, a tendência é colocar o entretenimento no lugar, como se houvesse algo de cerebral numa coisa feita apenas para passar uns minutos de distração. E isso acontece hoje em dia.
Steven Spielberg, o mais comercial de todos os diretores, voltou a moda por causa de um filme sobre Lincoln, excessivamente elogiado. Pode até ser um filme bom, mas como diversão e não como reflexão. Essa não era e nem é a vocação de Spielberg, um mero contador de histórias. Como qualquer pai que conta uma história para os filhos dormirem.
Para quem não sabe - e muitos nem querem saber - Spielberg é o mais típico diretor de blockbuster (filmes feitos para gerar renda). Sem qualquer compromisso artístico, a meta dele é entreter e ganhar dinheiro. Para isso, faz um cinema sem uma proposta definida e seguindo rigorosamente as regras do show business, garantindo assim a alta bilheteria que paga os seus faraônicos gastos particulares.
Não que Spielberg fosse ruim. Dentro da proposta de diversão pura ele é mestre. Faz cinema de entretenimento como ninguém. Mas se quiser colocá-lo na lista de grandes diretores cerebrais como Glauber Rocha, Manoel de Oliveira, Truffaut, Fellini, Buñuel, Godard e Costa Gavras, aí se comete um grave engano.
Os dois únicos americanos que podem entrar sem medo na lista de diretores de arte (que prefiro chamar de diretores cerebrais, já que seus filmes eram na verdade bem filosofais, questionadores) são Woody Allen e David Linch. Somente eles, já que o cinema deles foge rigorosamente de qualquer regra imposta pelo showbiz. Spielberg, pelo contrário, é showbiz puro, na mais pura essência.
Comparo Spielberg com Michael Jackson: Spielberg é a versão cinematográfica de Jackson, comercial, sem compromisso artístico, embora bajulado como "mestre da arte" sem ser. Os dois se parecem tanto que chegaram a trabalhar juntos, como mostra a foto do lado. Feitos um para o outro.
Somente a falta de discernimento pode ver intelectualidade em obras feitas exclusivamente para diversão. Spielberg faz o mesmo no cinema o que Jackson na música, ganhou muito dinheiro dando uma noção errada do que significa a palavra "arte" para a população.
Numa sociedade cada vez menos exigente em matéria de lazer e cultura, ambos representam a genialidade máxima, colocando muitos gênios de verdade no esgoto, abandonados, sufocados pela mercenária avalanche do showbiz, em que coisas cada vez piores surjam para transformar os medíocres do passado em gênios do futuro, sem mover uma só palha de suas obras. Sim, medíocres que se tornam gênios sem mudar as suas capacidades e características.
Não endeuso Spielberg, como faz a maioria. Ele só serve para divertir. Seu cinema existe para isso. Não esperem muitas análises de Lincoln. Preferível correr para a internet ou para uma biblioteca para saber mais a respeito. Spielberg não quer fazer pensar. Quer que todos se entretenham com uma história interessante e nada além disso. E isso não faz de ninguém um gênio, pois qualquer um sabe como divertir os outros. Nas conversas descontraídas entre amigos estamos acostumados a saber disso.
Não é Spielberg que irá compensar os grandes mestres que se foram e os que envelhecem. O cinema dele, por mais que valha a pena, é outro, bem diferente: é o da diversão, como num parque de diversões cinematográfico. Gostaria de ver as pessoas parassem de se referir a Spielberg como se ele fosse cerebral, como se tivesse algo realmente sério a dizer. Não é.
Spielberg é como Jackson. Pura diversão e mais nada. Ou acham que as dancinhas de Jackson são capazes de fazer com que todos reflitam sobre a vida e resolvam todos os problemas da humanidade?

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