Todo mundo já deve ter ouvido falar em Espiritismo. Mas sinto dizer que quase ninguém sabe o que realmente é. Para muitos é esta seita construída com moralismo religioso acrescido da crença em espíritos e em vida pós morte. Mas definir Espiritismo desta maneira é muito simplório.
Na verdade, o que os brasileiros entendem como "Espiritismo" é na verdade uma farra resultante na má interpretação da doutrina lançada por Allan Kardec na frança do século XXI. Uma doutrina que era para ser uma ciência que estuda tudo aquilo que vai além do que conhecemos como matéria e que ao chagar aqui foi totalmente deturpada, transformada numa seita igrejista cheia de enxertos, em sua maioria copiados do Catolicismo.
Na verdade, a deturpação se deu não somente por falta de um estudo detalhado das obras de Kardec, um cientista que pesquisou incansavelmente para depois tudo ficar nesta fantasia toda porque depois de morrer, sua ideologia foi completamente abandonada e trocada por outra.
Sim, porque já na França, um advogado de Bordéus, de nome Jean Baptiste Roustaing, cujo nome é desconhecido dos brasileiro, mas cujas ideias são plenamente seguidas pelo que os brasileiros entendem como "Doutrina Espírita", tratou de alterar radicalmente a doutrina para preservar religiosismo que tato acreditava. Como religiosidade é instinto e não exige esforço, do contrario do raciocínio, as ideias de Roustaing foram facilmente assimiladas por aqui, trazidas por dissidentes católicos (dentre eles, o famoso Bezerra de Menezes, roustainguista convicto) que acreditavam em vida pós morte e fundaram a FEB.
Mas como Roustaing não tinha carisma e ninguém sabe sequer a aparência dele, apesar de suas ideias, publicadas numa obra estranha chamada Os Quatro Evangelhos, serem bem convenientes, os brasileiros, já afeitos a confundir as coisas, logo trataram de criar um jeitinho: uniram a ideologia sem autor com o autor sem ideologia e foram logo atribuindo às ideias de Roustaing a autoria de Kardec. Ou seja, assimilavam a ideologia roustainguista como se ela fosse responsabilidade de Allan Kardec.
Até porque as ideias de Kardec soam maçantes para quem espera uma inerte igreja de paz e amor. Kardec era cientista e brasileiros nunca gostaram e ainda nem gostam de ciência. Mas Kardec tinha carisma, tinha imagem e mesmo um pouco complicado ara os seus seguidores, seu nome tinha que ser citado. Roustaing foi apagado da memoria dos brasileiros, embora o conteúdo de sua obra tivesse se solidificado na versão brasileira da doutrina.
As ideias de Roustaing, que para os brasileiros soa "kardecista", consistem basicamente de adaptar os mitos católicos a ideia de vida pós morte, reencarnação e comunicação com os mortos. As pesquisas são interrompidas para dar lugar a um cantochão de moralismo frouxo, caridade paliativa e exaltações à família e a grupos, já que o "Espiritismo" brasileiro despreza a individualidade referindo cultuar "falanges" (famílias espirituais).
Muito do que se vê no "Espiritismo" brasileiro são na verdade enxertos católicos, onde os nomes são devidamente trocados. Só alguns exemplos disso:
Lembrando que estes enxertos estão em total desacordo com a doutrina de Kardec, mais representando uma espécie de atualização do Catolicismo do que uma nova doutrina.
Aliás é importante enfatizar os enxertos católicos até pelo fato da versão brasileira não só ter sido fundada (e afundada) por dissidentes católicos que na prática nunca abandonaram suas crenças particulares, como atraiu mais católicos à mesma, entre médiuns, espíritos e seguidores. Todos esperando um novo Catolicismo que admitisse a vida após a morte.
E por isso mesmo a maior liderança brasileira tinha que ficar nas mãos de um católico convicto, o ultra-estimado Chico Xavier, que nunca estudou a doutrina, preferindo reforçar anda mais e consagrar definitivamente o repertório de enxertos como se fizesse parte da doutrina. Ah, nunca se esqueça que Chico Xavier era católico praticante e nunca abandonou sua crença, que foi completamente nociva para a compreensão doutrinária.
Por sua influência gigantesca - Chico Xavier tem um poder de sedução monstruosamente assustador - a doutrina brasileira virou uma bagunça. Além dos enxertos, há uma circulação bem movimentada de boatos, especulações e palpites que se contradizem e que contradizem a doutrina original. A fé cega volta sob nova roupagem (fé "raciocinada") e todo trabalho sério de Allan Kardec jogado literalmente no lixo trocado por uma religiosidade irresponsável e contagiosa.
Esqueçam "Espiritismo" brasileiro. Não é Kardecismo. Kardecismo nada tem a ver com esta bagunça igrejista que os dissidentes católicos fizeram com ela. Se estudar seriamente as obras de Kardec, vai perceber isso.


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