Quando eu morava em Salvador, havia o monopólio "cultural" (o que é cultura afinal?) conhecido como axé-music. Era uma jeremiada cantando musicas com letras sem sentido que basicamente faziam elogiosa a cidade, puxava o saco da negritude e fazia apologias meio infantiloides ao sexo. Uma verdadeira bobagem, tratada como "patrimônio cultural".
Como era algo de gosto duvidoso, para se manter ele teve que impor um domínio que resultou numa monocultura. Para evitar comparações com rudo que fosse mais consistente, o que poderia deixar claros os defeitos da axé music e de ritmos relacionados, foi imposta uma espécie de censura a tudo que fosse estranho ao meio.
Grupos de rock nacional até poderiam tocar, desde que na condição de coadjuvantes, fazendo curtos shows de abertura para axezeiros. Estrangeiros, quando muito, só hasbeens (nomes fora de moda, esquecidos pelo público em geral). Popstars do momento seriam vetados, mesmo fazendo música comercial de tantã. Se fizer música intelectual? Xiiiii...
Mas com a decadência da axé-music, que se limitou nos últimos 10 anos a correr atrás da própria bunda, o mercado teve que abrir. A capital brasileira da diversidade se lembrou de sua vocação e deu um estridente "NÃO!" para a monocultura, exigindo a diversidade cultural. pelo jeito foram atendidos, já que não fazia mais sentido impor um embargo para favorecer um gênero musical em evidente processo de deterioração, como um cadáver apodrecido e fedorento.
Maroon 5: um nome em alta chega aos palcos baianos
Eis que é anunciado para março do ano que vem a turnê brasileira da banda de soul-rock Maroon 5. A banda incluiu salvador entre as cidades onde irá tocar. Uma banda altamente popular, que faz musica comercial de qualidade e cujo vocalista, Adam Levine considerado o galã do momento na música e casado com uma das mais caras modelos do mundo, além de ser jurado do show de calouros mais popular da atualidade, o The Voice.
Um show de uma banda assim em terras baianas, sem o mico do playback da fraca A-Ha, cerca de 20 anos atrás, é um bom sinal de mudanças. Claro que as últimas edições do Festival de Verão, após anos de edições só com gringos hasbeen, se esforçou em levar para a capital baiana alguns nomes relativamente populares com a Kesha. Mas o Maroon 5 tem gigantesca popularidade e visibilidade na mídia e ainda por cima faz boa música, mesmo radiofônica.
É um grande salto no mercado de shows em Salvador, que aos poucos se livra dos entulhos da modorrenta axé-music, uma invenção tosca do governo baiano que serviu para imobilizar o criativo povo após fim da ditadura, evitando que uma nova cena cultural intelectualmente forte como a que houve nos anos 50 e 60 ressurgisse e impedisse os poderosos de manobrar as massas.
Sinal de novos tempos na cultura baiana? Espero que sim. Que cheguem shows de nomes ainda melhores para Salvador. Maroon 5 já é um bom começo.

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