Nos últimos dias, a Rádio Cidade, aquela FM com tradição na disco music e na dance music que encasquetou de ser "roqueira desde criancinha", anunciou que entra em numa nova fase prometendo "melhorar" e ficar "mais roqueira". É como se os misteriosos donos da Coca Cola (mais misteriosos do que a fórmula da mesma) resolvessem virar socialistas e agora se tornassem "mais socialistas". Só porque são vermelhinhos?
Estranho isso acontecer justamente nas proximidades do Rock in Rio, a verdadeira razão de ser da volta da rádio. O Rock in Rio, que é um festival de rock sem rock, sempre foi suspeito pela volta de rádio como a Cidade e sua irmã-gêmea, a 89 FM, pois rock esta cada vez mais impopular e não mais representa uma cultura, reduzida agora a um estereótipo de língua pra fora, mãozinha de capeta e rebeldia sem causa, tudo isso com uma trilha sonora ruim que se limita a guitarras pesadas e berros animalescos.
Mais interessante isso acontecer justamente quando a Kiss FM, fraca, mais um pouco melhorzinha que a Cidade, anuncia a sua retirada definitiva do Rio de Janeiro, A Cidade enfim encontrou um cenário para impor seu pedantismo roqueiro pelas ondas do Rio de Janeiro.
Mas apesar a pose de vitoriosa, a Cidade na verdade é uma grande otária. Administrada e operada por uma equipe de analfabetos em rock, ela surgiu na segunda metade dos anos 70 como radio de disco music, desenvolveu seu prestígio tocando o melhor da dance music, mas em 1995 enlouqueceu e cisou que queria virar roqueira, tornando-se "especialista" em algo que ate hoje nunca conseguiu entender. A Cidade chegou a acabar em 2006, dando lugar a excelente OI FM, que eu era fã, e retornou em 2014, numa fase ruim para o rock.
Com o fim da Fluminense FM, uma rádio de rock comandada por conhecedores e militantes da cultura rock, a Rádio Cidade acabou sendo referência para roqueiros estereotipados e que se contentam com os hits do passado e do momento. Os farsantes tomaram lugar dos autênticos e a memória curta comum a essa garotada acabou por soterrar definitivamente tanto a referência correta da Fluminense FM como o passado disco-dancer da Cidade, que completará 40 anos em 2017 sem poder falar do seu passado contraditório.
Mas porque a rádio insiste com um formato que desconhece justamente numa época em que o rock está cada vez mais impopular e sem capacidade de criar novos clássicos? Seria muito melhor que a Cidade largasse essa tolice de ficar tocando rock para as paredes ouvirem e retomar a boa dance music que tocava. Pois a dance music sempre foi e sempre será a vocação natural da Rádio Cidade.
Ou poderia acabar novamente e devolver o seu espaço para a volta da OI FM, que era pop, mais ousava mais que a Cidade. Até porque prefiro uma FM eclética que traga diversidade e ousadia do que uma FM roqueira que fique presa em hits e nos estereótipos que só fazem sucesso para quem detesta rock. Até o rock era mais respeitado pela OI FM do que pela Cidade.
Concluindo, a Cidade não passa de uma FM roqueira feita para quem não gosta de rock, comandada por quem detesta o gênero. Desligada a luz dos estúdios, os radialistas da Cidade retornam fielmente a breguice santa de todos os dias.

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