Tudo começou com uma medida "boba", como a pintura padronizada nos ônibus, anunciada no final de 2009 de forma arbitrária pelo prefeito carioca Eduardo Paes e implantada no meado do ano seguinte. Em vez de cada empresa de ônibus exibir sua identidade visual própria, elas seriam amarradas a uma espécie de camisa-de-força político-administrativa chamada "consórcios" e apresentariam uma mesma pintura correspondente a cada um destes grupos empresariais politicamente arrumados.
Já era uma discriminação por "ajuntamento", porque diferentes empresas não podiam mais exibir sua diversidade visual, que, longe de ser uma questão de estética ou publicidade, garantia maior transparência para o sistema de ônibus, porque permitia ao passageiro comum identificar a empresa de ônibus por sua própria pintura, podendo assim diferenciar empresas boas das ruins. Com a pintura padronizada, a identificação de empresa praticamente tornou-se um privilégio privativo de autoridades, políticos, tecnocratas e busólogos simpatizantes da causa. Até repórteres de TV e jornais passaram a confundir as empresas de ônibus, em noticiários sobre os diversos acidentes que acontecem hoje com os ônibus cariocas.
Mas isso é apenas a "cobertura do bolo". Junto ao "fardamento" dos ônibus que agora enfatizam em sua mesmice visual o logotipo da Prefeitura do Rio de Janeiro - com o Secretário de Transportes "turbinado" com poderes extraordinários, não mais o de fiscalizar mas de mandar e desmandar no sistema de ônibus - , vieram também a dupla função do motorista-cobrador e a mutilação de itinerários de ônibus funcionais.
A dupla função do motorista-cobrador traz desemprego às empresas, tirando o emprego de milhares de cobradores de ônibus e sobrecarrega o trabalho do motorista de ônibus, agora promovido a cobrador, sobrecarga esta que os deixa estressados e doentes, causando acidentes de ônibus que provocaram várias mortes e deixam uma média mensal de 30 feridos só em toda a cidade do Rio de Janeiro.
A mutilação dos itinerários, que causou incômodo aos passageiros com a extinção de trajetos funcionais e sem concorrência como 465 Cascadura / Gávea (antiga 755), 676 Méier / Penha, 910 Bananal / Madureira e 952 Penha / Praça Seca, substituídas por "alimentadoras" que só reproduzem parcialmente os trajetos originais, dependendo de baldeação para o BRT Transcarioca, já indica uma sutil segregação social na medida em que o fim desses trajetos já causa dificuldades no deslocamento da população suburbana, sem dinheiro para obterem o Bilhete Único e, na sorte de obtê-lo, não têm como arcar com a segunda tarifa, porque o cartão eletrônico só tem validade de duas horas e meia, praticamente o tempo médio de 95% do trajeto do primeiro ônibus.
A situação se agravará no próximo mês, quando o esquema será implantado para a Zona Sul e linhas tradicionais da Zona Norte, como 455 Méier / Copacabana, 474 Jacaré / Jardim de Alah e 484 Olaria / Copacabana passarão a ter fim de linha na Candelária, tumultuando as já bagunçadas estações de transbordo, que incluem também linhas intermunicipais.
Pode parecer coincidência que as ocorrências policiais contra moradores do Jacarezinho que embarcam em ônibus das linhas 474 e 476 (esta ligando o Méier ao Leblon pelo Túnel Rebouças e pela Lagoa) tenham se dado pouco após o subsecretário de Planejamento e ex-secretário municipal de Transportes, Alexandre Sansão, ter anunciado as alterações que serão implantadas nos ônibus em outubro.
Nem o "consolo" da criação de uma praia artificial em Madureira - o que a prefeitura carioca arranjou para "compensar" a não ida da população suburbana para as praias da Barra da Tijuca e da Zona Sul - , projeto demagógico de Eduardo Paes alegando "melhorias" para os subúrbios, marcados por intensa insegurança e decadência urbana, conseguem mascarar o projeto de separatismo sócio-cultural de pobres e ricos no Rio de Janeiro, que a partir da própria medida de padronização visual nos ônibus (que discrimina zonas de atuação das empresas) e, antes, por meio da degradação sócio-cultural do "funk carioca" e do "pagode romântico" (que parodia o samba).
É o Rio de Janeiro de dois lados, dividido entre a legalidade política reservada apenas para a "gente boa" das áreas mais abastadas (Zona Portuária, Zona Sul, Barra da Tijuca e Recreio), enquanto as periferias e favelas (mesmo as da ZS, como Pavão-Pavãozinho e Rocinha) ficam desprotegidas diante da desordem de banqueiros de bicho, traficantes e milicianos e seus respectivos pistoleiros.
O "funk carioca" e o "pagode romântico" eram tentativas de promover o controle social através desses ritmos musicais caricatos que trabalham a imagem estereotipada do pobre feito um bobo-alegre e que "sentia orgulho de viver em sua favela". Já era um processo perverso de manipulação das classes populares e sua desmobilização social, isolando-as nas periferias degradadas através de um ufanismo suburbano, um "orgulho de ser pobre" que fazia os pobres terem mais consumismo e entretenimento para que se esqueçam de que também merecem cidadania e qualidade de vida.
Muitos dos "geniais artistas" de "funk" e "pagode" são empresariados por pessoas ricas, com fazendas no interior fluminense, gente amiga de bicheiros e dirigentes esportivos (o fanatismo no futebol também é uma ideologia dominante no RJ), que não tem qualquer relação natural com as classes populares nem sequer como identificação paternalista com as suas necessidades.
E se os conflitos já começam a ocorrer em Copacabana, com os arrastões que colocam pobres e ricos em pé-de-guerra nas suas areias, e que já inserem justiceiros suburbanos na ação truculenta das ruas do bairro, já existe, no outro lado da poluída Baía da Guanabara - as autoridades querem "limpar" a Zona Sul, mas nunca agiram para limpar a Baía de seus entulhos sólidos e líquidos - , um movimento neo-nazista nos moldes do estadunidense Klu Klux Klan.
Os anúncios "revoltados" foram colados em vários pontos de Niterói, a apelavam para a "reação" contra comunistas, homossexuais, judeus e outros grupos sociais normalmente hostilizados por essas organizações de extrema-direita.
Ás vésperas das Olimpíadas de 2016, uma catástrofe pode acontecer no Rio de Janeiro, alvo de profundos retrocessos sociais, políticos, econômicos e urbanos nos últimos 25 anos. Tragédias podem ocorrer no período, e é estarrecedor que muitos cariocas, niteroienses e outras pessoas no Grande Rio permaneçam felizes e despreocupadas com os problemas ao seu redor, Jovens contam piadas no calçadão da praia e pessoas diversas brincam com o WhatsApp a procura de mensagens alegres e vídeos engraçados, sem saber do perigo que se aproxima.


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