Burrice virou moda. Mas uma burrice enrustida, resultante da maior de nossas ignorâncias: a de que somos suficientemente inteligentes. Quem se acha sábio certamente não vai querer adquirir mais conhecimento por acreditar, na sua visão limitada, ter atingido o máximo da inteligência. O acesso a tecnologias complexas e o acúmulo de informações desconectadas entre si nos dão a ilusão de que oje sabemos tudo. Mas na verdade nada sabemos.
Numa burrice que hoje nem tem classe, pois os coxinhas e o sucesso da "cultura" popularesca entre os ricos e graduados (Chopada de Universidade? Xiii...) provam que até mesmo os privilegiados sociais tem colocado seu cérebro em stand-by, preferindo usar o seu dinheiro para curtir a vida, limitando o uso de seu diploma como escudo para exibir quando alguém realmente mais sábio o acusar de ignorante (aqui sem aspas, propositadamente).
Mas a burrice tem chegado a níveis assustadores. Estimulados por pseudo-intelectuais e por celebridades de baixíssima-escolaridade como artistas e jogadores de futebol, os jovens agora desprezam o esforço intelectual, preferindo deste apenas o rótulo. "Legal, se já somos inteligentes, para quê se tornar inteligente?". Inteligência é ruim porque exige esforço e abnegação. Mas o rótulo de inteligência é bom porque atrai prestígio e respeito e serve como fonte de influência social. Para os tolos, é muito bom usar o rótulo de "inteligente" para autenticar as besteiras que difundem.
E numa inversão de valores, uma famosa intelectual, falecida há tempos e consagradíssima, foi chamada de "burra" pelos burros que não conseguira entender a metáfora de seu brilhante ensaio "O Segundo Sexo", acusando-a de não entender Biologia. Isso aconteceu numa prova de ENEM, mas foi estendido pelas redes sociais na internet.
Os burraldos que acusaram a sábia filosofa de "burra" não sabem que a filosofa se referia não aos aspecto biológico, mas a essência feminina. Mas uma sociedade que não sabe a diferença entre essência e estereótipo, que acredita que o que é de fato supérfluo (Por exemplo, futebol: BRASIL-IL_IL_IL!...) é "essencial", fica complicado para entender um texto que se refere metaforicamente a uma essência do ser.
O que é mais estranho é que a Filosofia é dada no ensino médio atual, algo que não existia no tempo em que minha geração estava neste nível educacional. Ou seja, era para esta geração entender mais de Simone de Beauvoir do que a minha. Mas pelo jeito as aulas que falam sobre Beauvoir e suas ideias têm sido dadas de forma mais maçante possível, por professores despreparados e/ou desestimulados.
Não sabemos até onde a ignorância vai chegar. A volta de valores retrógrados (mesmo os positivos), a má qualidade da educação e o desprezo de pais e tutores, somados a influência midiática (a verdadeira "educadora" dos brasileiros) cada vez mais forte, tem criado uma geração de jovens ao mesmo tempo burros e sádicos, transformados em espantalhos móveis sem cérebro e sem coração a imporem na marra seus pontos de vista equivocados e contribuírem para uma sociedade que piora a cada dia, preservando problemas, injustiças, preconceitos e toda forma de erros.
Simone de Beauvoir não previu que a decadência social chegasse a esse nível.

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