quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Axé Music, a música infantil feita para adultos completa 35 anos na UTI

Não sei a data exata e muito menos quero saber qual. Mas neste carnaval se comemora 35 anos daquilo que foi chamado - de início, pejorativamente, de axé music (para quem não sabe, "axé" é alegria em iorubá). Apesar do nome de origem africana, a axé music nada tem de africana, não passando de uma rumba mal tocada. Mas aí eu falei isso para um amigo baiano - que estranhamente detesta axé music - que disse que rumba era africana. Rumba é tão africana quanto o rock. Então segundo ele, os roqueiros "fazem música africana". Aff!

A axé music na verdade, não passa de um chamariz turístico. O verniz de cultura é colocado para tentar "encorpar" esse caldo aguado que pensa que é a "mistura de todos os ritmos". Todos? Eu senti ausência de muitos ritmos nesse engodo. E você?

Oficialmente, o "pai" da axé music foi um tal de Luiz Caldas, que estourou com a racista canção - detalhe: o cantor é mestiço, mistura de pardo com indígena, mas com jeitão de hippie alienado - "Fricote", que era uma merda, mas vendeu como pipoca na porta de cinema. Embora os axezeiros mais antigos sejam o Chiclete com Banana, então liderados por um mau caráter mercenário conhecido como Bell Marques, hoje em (decadente) carreira solo.

Mas de fato, nenhum desses dois merece ser considerado "pai" da axé music. O verdadeiro progenitor e gestor dessa palhaçada chamada axé music foi o político Antonio Carlos Magalhães, o "dono" da Bahia e então ministro da pasta das Comunicações, o que justifica o surgimento e crescimento do gênero musical na época, levando a degradação cultural brasileira para ocorrer mais cedo na Bahia.

ACM, como é conhecido o político, utilizou a axé music como uma isca para atrair tolos para visitarem a Bahia. O estado realmente possui muitas belezas e opções de lazer, não precisando da tola axé music para atrair turistas. Na época, o estado tinha o turismo como única fonte de renda.

Claramente alienante, a axé music recebeu o verniz de cultura, fazendo muitos incultos e incautos tratarem o gênero como se fosse "cerebral", inteligente. Isso dava prestígio aos seus criadores além de impedir uma verdadeira evolução que tirasse a mediocridade da axé music. Mediocridade que é o motor da axé music, pois se ela fosse muito boa, não atrairia tanto público.

E que mediocridade! As letras, alem de bastante pueris - nada que não possam ser criadas por uma criança de 4 anos de idade - eram meio enroladas, mudando de tema antes do fim de cada verso. Por exemplo, uma musica em que um cara faz uma cantada para uma mulher, pode, no verso seguinte, fazer um elogio à cidade e depois exaltar a negritude ao menor pular de linhas. Tudo na mesma letra de música. Mistureba total.

O interesse é explicitamente comercial, já que a meta era justamente usar a música para ganhar dinheiro. Há quem diga que a axé music traduziu a dance music para a a realidade brasileira, algo perfeitamente capaz de ser provado.

Música infantil para adultos

A axé music, por suas características, pode tranquilamente ser definida como uma musica infantil feita para adultos. Nunca espere alguma mensagem positiva ou útil de alguma musica de axé que você não irá encontrar. Não há motivo para a axé music ser um tipo de música bem feita.

O comercialismo inerente faz como que o axé seja uma oportunidade para celebridades sem talento usarem a musica como profissão, já que para muitos pobretões, é melhor ficar rico pulando nos palcos cantando asneiras do que ganhar uma miséria carregando saco de cimento nas costas. 

E esse excesso de profissionalismo tem contribuído para que a axé music piorasse a cada verão, com dancinhas da moda cada vez mais ridículas que viram piada logo após sair da moda. E essa piora gradativa da axé music tem como prejuízo transformar tendências mais antigas do axé em "clássicos da boa música" só porque não são tão ruins quanto tendências mais recentes. 

Os empresários donos do axé sabem disso e tratam de piorar o axé para que o idiota do passado se transforme, sem mudar nada, no gênio do futuro. Isso tem sido a lógica de toda a música no Brasil e responsável por reabilitar muitos modismos tolos do passado, hoje convertidos em "gênios incompreendidos", enquanto os verdadeiros gênios da musica, ou caem no ostracismo, ou amargam crescente impopularidade.

Tudo bem que músicas de carnaval costumam ser bem idiotas. Carnaval, como "festa do avesso" foi criada para ser imbecil mesmo, transformando pessoas sérias em verdadeiros panacas - se bem que o brasileiro está mal acostumado com isso, se imbecilizando o ano todo - o que é compreensível se fosse só no carnaval. Mas o caso da axé music incomoda porque embutiram uma muleta de "cultura superior oficial da Bahia". 

Durante um bom tempo, acreditou se ser a axé music a "verdadeira cultura" da Bahia, sufocando outras formas de música feitas na terra, caracterizando uma monocultura. Hoje tenta-se simular um pseudo-ecletismo no carnaval baiano, naquele papo hipócrita de "todos os ritmos". Isso, só para quem acha que 60% é 100%.

Hoje a axé está em decadência. Ainda tenta outros "rincões" como o Rio de Janeiro e a praia de Jurerê (Jururu?) Internacional, em Santa Catarina. Mesmo assim, já vive na UTI. Seus ídolos servem mais para fontes de piadas do que para tentar representar uma suposta evolução cultural. Os axezeiros, que nunca tiveram o que dizer, já não conseguem convencer ninguém. Muitos estão bem velhos, outros aposentados e os novos conseguem ser muito mais panacas do que os panacas de 35 anos atrás.

Axé music chega aos 35 anos. Mas apesar da idade, está cada vez mais infantilizado. Logo ele que desde o seu surgimento nunca passou de uma criança abestalhada*.

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* NOTA: Abestalhado: gíria baiana que significa "idiota".

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