Um aviso: não pronuncie a palavra ENTRETENIMENTO perto de um esquerdista brasileiro. Certamente ele vai refutar a palavra e colocar "arte" e "cultura" no lugar, enobrecendo o simples ato de querer se divertir como se alguém quisesse bancar o intelectual nas horas de ócio e relaxamento.
De fato, quando você está cansado após uma jornada imensa de trabalho mal remunerado, o que você menos quer fazer é lutar. Você deseja se divertir, se dedicando a uma atividade que exija o menor esforço possível. Necessário lembrar que não é apenas para nos escravizar que a carga horária de trabalho é grande. É para nos cansar também, impedindo a dedicação intelectual nas horas livres.
Mas para as esquerdas brasileiras, que andam muito cirandeiras ultimamente, indispostas a lutar para arrancar um fascista destruidor da sagrada poltrona situada no Palácio do Planalto, hora de brincar é hora de protestar, já que nos momentos sérios o que menos há é a inconformação de estarmos sob o jugo de alguém tão cruel e tão ignorante.
Vamos todos brincar de trotkistas revolucionários
Se não bastasse as esquerdas ignorarem a chamada Cultura de Mercado, em que a espontaneidade é jogada no lixo, trocada pela necessidade de ganhar - muito - dinheiro de forma fácil e pomposa, agora os supostos discípulos de Karl Marx e Leon Trotski resolveram achar que não somente o lazer é uma cultura cerebral como serve para manifestações políticas radicais e revolucionárias.
Os esquerdistas cirandeiros encanaram de achar que o Carnaval seria uma forma excelente de protestar contra o governo fascista que nos assombra. Mas o Carnaval é brincadeira, é pura diversão. Fora da bolha cirandeira é complicado fazer com que os gritos de "Hey, Bolsonaro, VTNC!" sejam levados a sério e tratados como palavra de ordem para a deposição do tirano neofascista.
Vocês acham que um gritinho de filiões, que serveria apenas como um desabafo bem humorado, teria a força capaz de incomodar um tirano? Bolsonaro deve estar dando risada. Direitistas em geral devem estar respirando aliviados por perceber que a "inconformação" das esquerdas se limita a um mero slogan de Carnaval. Fica parecendo que os foliões querem o Rei Momo no lugar de Bolsonaro.
Politização postiça no Carnaval
Curioso que é a mesma esquerda incapaz de clamar multidões para invadir Brasília e arrancar os tiranos de suas poltronas. Fica aquela impressão de pegar carona em uma manifestação popular não política e enxertá-la uma politização postiça que não faz parte dela. Ou seja, se não somos capazes de convocar a multidão, aproveitemos a multidão já convocada e inserimos nela aquilo que desejaríamos ouvir na manifestação.
Só que o lazer é mera diversão. Assim como ninguém está interessado em produzir cultura e arte quando quer se divertir - ou ganhar dinheiro com a diversão - não há uma santa alma interessada em fazer política no Carnaval: somente encher a cara, pular e dar "uns amassos". Nada além disso.
As esquerdas deveriam parar de brincar de ser revolucionário e criar manifestações mais sérias. Colocar fantasia de comunista em foliões pouco interessados em fazer política - apenas usá-la como objeto de chacota - é um grave erro que fará o tiro sair pela culatra.
Mas Bolsonaro está tranquilo. Assim como o "Fora Temer" da Tuiuti foi um fracasso, o "Hey, Bolsonaro VTNC" vai dar com os burros na água. Todos sabem que festa nunca mudam o mundo. Toda a falsa rebeldia virará cinzas na quarta-feira e todos voltaremos a aceitar o Capitalismo fascista santo de todos os dias, na maior alegria.

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