Sabemos que os brasileiros são uma população que gosta da vida em grupo, como um boi a seguir a boiada em prol de um suposto benefício. Por isso que o isolamento proposto pela quarentena anti-pandemia já começa a incomodar brasileiros, doidos para retornarem às ruas e fazer o que estavam acostumados a fazer, sobretudo a santíssima trindade das zonas de conforto: cerveja, futebol e religião.
Além dos loucos estereotipados que começam uns a negar a pandemia, outros a berrar para não serem obrigados a se retirarem da rua durante uma atividade considerada não-essencial, temos aqueles que, saudosos das atividades que faziam, começam a exaltar seus vícios nas redes sociais, desesperados em não poder retomar a sua rotina.
O isolamento, para uma pessoa caseira, não soa problemático. Eu estou conseguindo suportar o período, embora tivesse saudade de passear para alguns lugares e ver paisagens diferentes. Mas estou conseguindo fazer isso virtualmente, de forma satisfatória. Mas para quem tem uma vida social, seguindo a manada para a onda do momento, o isolamento já começa a incomodar e os primeiros sinais de surto psicológico já começam a aparecer.
Além do aumento das brigas entre pessoas conviventes, nesta claustrofobia moral que se tornou a quarentena para os que vivem na gandaia das ruas ou nas ilusões das igrejas e templos, pessoas já começam a exaltar nas redes sociais seus "brinquedinhos", como se estivessem se desesperando de saudade mórbida pela vida ao ar livre que tinham antes de se isolarem.
Muitos, ao começarem a ter a consciência de que os amigos só estão presentes virtualmente e não presencialmente, enlouquecem com a real ausência da "galera" querida, não raramente desejando romper com o isolamento na marra para retomar a velha rotina de fazer parte de um grupo real, com 10 a 30 pessoas andando juntas feito siameses para os lugares mais fúteis de uma cidade.
Já tivemos dois casos de suicídio, um de um roteirista da Rede Globo e outro de um comediante menos famoso. Me surpreende que não temos mais suicídios. Talvez ainda ocorram mais, caso o isolamento se prolongue para um período mais duradouro. Se bem que só o fato de querer se divertir nas ruas com o alto risco de contágio, já é uma boa oportunidade de suicídio.
Hoje mesmo eu vi dois episódios que mostram algum enlouquecimento. Uma conversa entre dois trabalhadores fumantes que desmentiram a epidemia, provavelmente orientados por algum bolsonarista ou líder religioso. Outro caso foi o de duas patricinhas de classe média sendo presas, na praia de Icaraí, por desobedecerem a recomendação de voltarem para as suas casas. As suas fizeram escândalos para tentar não entrar nas viaturas, chamando a atenção de quem viu a cena.
Isso é só o começo. Muita gente mais vai surtar. Brasileiros não aguentam a solidão. Não são como europeus, que além de mais educados, estão acostumados com isolamentos periódicos durante os congelantes invernos. Se não se matarem, muitos brasileiros enlouquecerão e viverão estes novos tempos como verdadeiros zumbis a sugar os cérebros alheios, em busca não da inteligência que não possuem, mas em busca de comida para sobreviver neste Brasil apocalíptico.

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