sábado, 2 de maio de 2020

Beber socialmente, uma prazerosa obrigação

Para grande maioria dos adultos, as bebidas alcoólicas nunca devem faltar em seu cotidiano. Sendo um tipo de bebida ritual, consagrou-se a ideia de ser um símbolo da vida adulta e do bom convívio social entre adultos. 

Tanto que seu consumo não somente é estimulado como ostentado, como prova de descontração e de simpatia, por causa do cumprimento de importante regra social, somente dispensada por motivos de saúde e religiosos. Abstêmios, como são conhecidos os que se recusam a consumir bebidas alcoólicas, costumam sofrer algum tipo de preconceito, por desobedecer esta regra social.

A obrigação social de beber álcool é uma regra internalizada de uma forma a não parecer obrigação. Para muitos o desejo de álcool parece biológico, embora nem isso é consciente. O consumo de álcool está tão naturalizado pela opinião pública que ninguém se preocupa em saber porque o consumo é quase unânime entre adultos e tão cobrado durante o convívio social.

Mas parece que esta noção de que beber álcool é uma obrigação não é tão inconsciente assim. Curioso que a maioria esmagadora dos adultos prefere colocar em seus perfis a expressão "beber socialmente" que, embora ninguém assuma, revela a semântica de que beber álcool é uma obrigação. Uma prazerosa obrigação. Isso justifica a expressão "beber socialmente". 

É por isso que as pessoas fazem questão de beber uma bebida estragada (sim, os processos de alcoolização de uma bebida são na verdade "estragos") e de sabores duvidosos (embora existam bebidas alcoólicas saborosas, a maioria não as toma pelo sabor). As regras do convívio exigem dos adultos o consumo de álcool e não se fala mais nisso.

Bebo, logo sou adulto

Uma das coisas que reforça o prazer de beber álcool, por incrível que pareça, não é o seu sabor, mas o fato de que menores não podem beber. Isso faz com que as bebidas alcoólicas sejam uma espécie de "troféu" por ter chegado à vida adulta. Sendo uma bebida para adultos (mamadeira para adultos?), tomá-lo é um sinal de consagração da vida adulta. Bebo, logo sou adulto.

Além disso, os efeitos da bebida alcoólica, no início, são aprovados socialmente. Bebidas do tipo tornam as pessoas mais extrovertidas e capazes de enxergar beleza e bondade até mesmo onde não há, pois um dos seus efeitos é a sensação de otimismo e de companheirismo, mesmo ilusória. Mas isso acontece só no início do consumo. A medida que vai sendo consumido, o álcool gera um efeito dopante, que é a verdadeira natureza das bebidas alcoólicas.

Mesmo assim, o fato de ser uma bebida adulta dá uma ilusão falsa de liberdade. Liberdade de cumprir uma obrigação? Parece estranho, mas é isso mesmo. Pois esta obrigação traz benefícios sociais. Ainda mais que boa parte dos benefícios são conseguidos socialmente, como emprego e namoro. Mesmo assim, a ideia de que beber tem a ver com liberdade, mesmo falsa, é consagrada e repetidamente manifestada.

Este orgulho de cumprimento de uma regra social, orgulho gerado pelo fato das pessoas beberem álcool faz com que pessoas ostentem o seu consumo através de fotos, vídeos ou simplesmente declarações. É normal ver pessoas mostrando imagens delas bebendo ou em bares, como se dissessem: "vejam, estou bebendo, vejam como eu cumpro com prazer a minha obrigação de adulto". Parece estranho, mas é muito comum.

Ostentar a bebedeira é um sinal que é entendido pela maioria como sinal de bom convívio social. Um sinal que embora se tratado como mera prova de simpatia e descontração, é no fundo um sinal de cumprimento de uma importante regra social. A pessoa se sente aprovada socialmente, como se tivesse preenchido um importante requisito exigido para a aceitação social.

Embriaguez como ato de heroísmo

A coisa acontece a um ponto de não raramente, casos de embriaguez estejam envolvidos com atos narrados de heroísmo. Não a embriaguez em si, mas o fato de ter se saído bem dela. Sobreviver a uma bebedeira é um feito comemorado em conversas entre amigos. 

Somente quando as consequências de uma bebedeira são ruins (levando a invalidez ou a morte) é que o consumo exagerado passa a ser malvisto. Mesmo assim, poucos se dispõem a prevenir sobre isso, preferindo se arriscar, crendo numa imaginada imunidade.

Curioso que apesar do rigor de que é cobrado o consumo de bebida alcoólica, não há um legislador ou um responsável pela cobrança. Normalmente, as próprias pessoas do convívio é que cobram, com base nas suas crenças pessoais. 

Geralmente o líder do grupo social (a pessoa com maior prestígio e influência do grupo, pois nem a liderança é declarada burocraticamente), responsável pelas regras de convívio do grupo é que faz esta cobrança, já que como hábito tipicamente adulto, acredita-se que todos os grupos sociais a cumpram, sendo estranho que um grupo a desobedeça.

Somente nos casos de fé religiosa e situação de saúde o consumo é socialmente dispensável. Entende-se que nestes casos há motivos que chocam com o consumo e que devem ser respeitados. Fora disso, o adulto se recusa a beber álcool é discriminado e recebe o rótulo de "abstêmio", considerado pejorativo. É a punição por ter se recusado a obedecer uma regra social imposta com certo rigor.

Por isso que a maioria esmagadora das pessoas toma álcool, mesmo sem gostar do sabor (a estranha imensa popularidade da cerveja, de gosto ruim, é justificada por sua obrigatoriedade social), pois o que está colocada na mesa não é o prazer de tomar um líquido, mas o ato de fazer o que a maioria das pessoas faz. 

É aí que está o prazer de se tomar álcool: o de se sentir incluído na sociedade. É isso que justifica a quase unanimidade do costume entre os adultos sadios não-impedidos pelas religiões.

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