domingo, 24 de maio de 2020

É Brasil, mas pode chamar de Abilene

Vi em um programa sobre estudos da mente que o ser humano tende a imitar a maioria dos integrantes de seu grupo com fins de sociabilização. Não importa o que estejam fazendo, importa é que se a maioria faz, está correto, mesmo que seja a maior gafe. E claro, ninguém vai rir de uma gafe que todos cometem, principalmente se quem poderia rir também comete.

Se os seres humanos tem essa tendência, por serem animais sociais, os brasileiros mais ainda. Brasileiros são educados desde pequenos a seguir a maioria. É o povo mais Maria-vai-com-as-outras que conheço. Esteja certo, esteja errado, melhor sempre é estar com a maioria. A solidão apavora mais do que qualquer coisa e todo risco é válido para se escapar da solidão. 

Eu sempre observei essa tendência do brasileiro imitar a maioria, desde a infância. Mas não tinha um embasamento teórico que pudesse me fazer entender porque isso acontece. Mas, lendo um livro sobre gestão, encontrei algo que explica de forma teórica esse costume tão comum de nossos brasileiros de topar fazer algo inútil, ridículo ou até nocivo em prol da sociabilização: o Paradoxo de Abilene.

Esta tese foi contada pelo estudioso na área de gestão e dinâmica de grupos Jerry Harvey, e conta uma pequena estória acontecida na cidade texana de Abilene, o que justifica o nome do paradoxo.

O conto ocorreu da seguinte maneira:

Uma família recebe a sugestão do pai em fazer uma viagem até Abilene, distante de sua casa, para conhecer um restaurante que a família nunca tinha visitado. A viagem é arriscada, as condições precárias e nem se sabia se o restaurante era bom para justificar o esforço. Mas os integrantes da família, com o objetivo de manter a união familiar, aceitam sem questionar, mesmo sabendo das possibilidades do risco, para que a tranquilidade dessa união grupal pudesse ser mantida. Em caso da viagem fracassar e os problemas se confirmarem, basta achar um bode expiatório para assumir a culpa (no caso, o pai) e tudo fica bem.

Não parece o que acontece no Brasil?: 

- Porque gostamos de músicas ruins, com letras e danças ridículas? 
- Porque uma bebida que tem gosto ruim e é nociva a saúde é a mais popular? 
- Porque nos matamos por causa de meros escudos de times de futebol, comemorando por algo que não vai nos trazer benefício? 
- Porque a religiosidade, que se caracteriza pela crença em fatos e seres sem existência confirmada é cada vez mais alta em nossa sociedade? 
- Porque temos o hábito de fazer tudo que a maioria faz (fazer filho, comprar carros, morar em casas ou apartamentos enormes), mesmo que atrapalhe o nosso cotidiano? 
- Porque se alguém compra "aquele" produto cobiçado, passamos a querer comprar também, mesmo que não tenha qualquer tipo de serventia para nós?
- Porque modismos pegam aqui com tanta facilidade? 

O Paradoxo de Abilene responde a todas essas perguntas acima.

Se pararmos para pensar, as vidas de maior parte dos brasileiros é exatamente igual. Poucas diferenças ocorrem. Daria para fazer um ciclo de vida comum do brasileiro, já que nada muda pois o paradoxo citado faz qualquer brasileiro aceitar as coisas de forma natural, para não quebrar a união social da população.

E a mídia, reguladora das regras sociais, tem um papel enorme na manutenção desse paradoxo, pois embora ninguém goste de assumir - muitas vezes isso está arraigado no subconsciente, agindo de forma imperceptível - a mídia controla de maneira implacável as mentes das pessoas, que passam a achar correto o que é vinculado nela. É o chamado pensamento único, que transforma em leis, costumes que não estão escritos em nossa Constituição Federal, dando a ilusão daquilo que deve ser feito em nosso cotidiano. 

A mídia oficial (jornais, revistas, rádio e sobretudo a televisão) tem há muitas décadas legislado a respeito dos costumes sociais. A regionalidade das regiões brasileiras tem desparecido aos poucos. Mesmo que haja reduzidas diferenças, sabemos que os brasileiros do norte, sul, leste, oeste, no seu todo, agem da mesma forma nos aspectos gerais, graças a intervenção midiática. 

Brasileiros que resolvam criar a coragem para romper com o paradoxo, acabam se isolando, tem maior dificuldade de adquirir benefícios e frenquentemente são objeto de chacota, como punição de não "obedecer as regras da coletividade", que integram o Paradoxo de Abilene.

Por isso que para a maioria, é salutar fazer o que a maioria faz (desculpem o pleonasmo). Um entusiasta de ônibus, fã de rock pesado um dia me disse que ia a rodas de pagode pornográfico, que ele detestava, porque se não fosse, iria ficar sozinho. É esse o pensamento comum de quem segue sem questionar as ordens do sistema. Se pudéssemos fazer uma comparação, o papel do "pai" da família que estava indo a Abilene, poderia muito bem ser da mídia, das regras sociais ou do próprio sistema que vivemos. 

E é por isso que temos que aguentar os erros e problemas que temos em nossa sociedade há mais de 100 anos. A sociedade brasileira, calada e submissa a tudo que vem do alto (líderes, autoridades, celebridades), prefere mesmo ficar "vivendo em Abilene", confiando cegamente em qualquer um que pudesse fazer o papel de tutor e em caso de fracasso, é só procurar um bode expiatório para assumir a culpa e ser punido por um erro cuja real responsabilidade é de todos os envolvidos. 

Assim funciona a nossa sociedade. Não há nada mais tipicamente brasileiro do que desejar fazer uma viagem a Abilene. Mesmo que tudo dê errado.

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