ENCORPANDO A VITAMINA: Escrevi este texto para o meu extinto site em 2016. Ficava incomodado que no Brasil, a produção cinematográfica se limitava a contar estórias sobre pobres, com a maioria esmagadora enxergando a pobreza ou de forma positiva, ou como algo sem solução, que deve ser perpetuado.
Eu desejava pelo menos uma variação temática, que não focasse o estilo e as condições de vida dos pobres, pois tinha a certeza que a simples aparição nos cinemas seria inútil para acabar com as injustiças e tirar os mais pobres da pobreza, que de fato é uma condição indigna.
Na época fiquei feliz em saber que Jorge Furtado, um cineasta que gosto bastante (e que sempre foi progressista, para a nossa felicidade, estando do lado certo da orientação política - o que justifica a trama interessante de ter um empresário corrupto e um político honesto, indo contra os mitos consagrados pela opinião pública), estava fazendo um filme que fugia desta tendência.
O cinema brasileiro precisa de variedade e nos últimos anos, no meio underground, sei que há boas produções que fogem desta temática repetitiva que só serve para consagrar a pobreza seja como algo positivo (??!!) ou como algo insolúvel.
Parabéns para Jorge Furtado por esta e outras obras, sempre em busca da criatividade e de formas mais atraentes, ao mesmo tempo reflexivas e divertidas, de cinema. Leiam abaixo o texto que escrevi na época de divulgação do filme.
Enfim, um filme brasileiro que não faz apologia da pobrezaMarcelo Pereira, Planeta Laranja, 18/08/2016
No final de 2011, tive a felicidade de assistir a mais um filme produzido pela Casa de Cinema de Porto Alegre e dirigido pelo criativo Jorge Furtado (Saneamento Básico, O Homem que Copiava, Meu tio matou um cara, todos excelentes), para mim o melhor diretor brasileiros na atualidade.
O filme foge da mania dos outros diretores brasileiros de fazerem filmes exaltando a pobreza. Furtado, homem de esquerda, sempre procurou fugir desse tema, favorito de 7 entre 10 cineastas brasileiros. Para estes, o sofrimento dos pobres "rende boas histórias".
Homens de Bem é um filme feito para a televisão. Algo raro no Brasil, mas comum nos EUA (embora telefilmes tenham status menor, são menos valorizados por lá). Fala de um rapaz, interpretado com talento por Rodrigo Santoro, que é contratado pela Polícia Federal para armar um flagra contra um empresário corrupto que quer subornar um deputado honesto. Todos os atores atuam com maestria, mas aproveito para destacar o baiano Luiz Miranda, conhecido mais por comédias, que está magnífico num papel dramático.
Os filmes da produtora Casa de Cinema de Porto Alegre são marcados pela grande criatividade e agilidade no roteiro, seguindo um estilo que se assemelha mais a filmes europeus. São bem inteligentes e não se prendem a padrões.
Apesar de fazerem parceria com a Globo Filmes, esta se limita apenas a distribuição, dando total liberdade para que a equipe da produtora possam manter viva a chama do cinema nacional, maculado pelo comercialismo da maioria dos filmes, que acabou criando padrões, estes negados sabiamente pela produtora gaúcha.
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