Eu cresci acreditando que no século XXI, não somente a tecnologia se evoluiria, como a espécie humana também. Me enganei redondamente. As máquinas e robôs seguem na sua evolução predestinada, enquanto nós, os seres humanos...
Uma vez, o líder da banda de new wave Devo, Mark Mothersbaugh, havia brincado com uma teoria imaginada por ele chamada "Teoria da Devolução", onde os seres humanos regrediriam ao primitivismo na contramão da evolução tecnológica.
Quando a banda veio ao Brasil, um reporter brasileiro se lembrou disso e perguntou ao líder da banda o que eles estava achando de ver a sua teoria sendo posta em prática, de forma séria, através da decadência da humanidade, cada vez mais burra e egoísta. Mothersbaugh lamentou que algo criado como uma brincadeira tenha sido involuntariamente levado tão a sério.
Pois é nesta humanidade em que vivemos. Cada vez mais burra, ridícula, egoísta e até gananciosa, sem medir esforços nem moral, para defender o direito de ser e ter mais do que os outros. Teimamos em defender nossa ignorância como um patrimônio valioso.
Nossa estupidez, na verdade, tem muito a ver com a lei do menor esforço, algo bem instintivo para nós. Somos preguiçosos por natureza e se condenamos a preguiça, isso é muito mais por inveja daquele que se esforça menos do que para reprovar a preguiça em si. Que bom se pudermos ser bem remunerados por estar deixados numa cara e confortável poltrona.
Valores antigos, vida social, reputação e benefícios particulares
O fato também de nos prendermos a valores antiquados como religião, bebedeira e futebol, demonstra ainda mais a nossa preguiça, no caso, a de raciocinar. Não sabemos porque aderimos a estas três formas de ilusão, mas teimamos em nos agarrar a elas. Afinal, são os nossos maiores agregadores sociais. Nosso medo da solidão é o medo que nos faz largar estas três coisas.
O medo da solidão é outro de nossos instintos. Temos medo de perder a nossa reputação social e ficar sozinhos em um canto. Sabemos que a vida social facilita muitos benefícios. Num país falido como o Brasil, é importante que outras pessoas nos ajudem em uma nação cujas leis nunca favorecem a conquista do necessário. Isso nos faz lutar para melhorar a nossa reputação, custe o que custar.
Com a reputação cada vez mais alta - especialidade das classes média e alta da sociedade - ganhamos mais admiradores, mais amigos e todos se aproximam para nos ajudar, mesmo que não precisemos de ajuda. Tudo graças a reputação.
Beleza, bom humor, "inteligência" (a acadêmica, não a nossa capacidade de raciocinar), "bondade" (aquela que reserva migalhas aos menos favorecidos), entre outros valores que mais servem para aumentar a nossa reputação do que realmente gerar benefícios coletivos. Embora pensemos que realmente gere benefícios coletivos, após conquistar benefícios particulares, estes reais.
Engraçado que nós, batemos no peito de que nos esforçamos, adoramos ser considerados inteligentes e altruístas. Aí chega o tempo livre para o ócio e arrancamos o cérebro e o coração de nossos corpos e como zumbis alegres, vamos a enlouquecida farra ou a alucinada louvação, se esquecendo do mundo triste, injusto e falido que está ao nosso redor.
Multidões fazendo a mesma coisa. Peraí! Isso não é gado?
Isso é ainda pior se imensas multidões fazem a mesma coisa. Por instinto, tendemos a acreditar que o que a maioria faz está correto. A maioria se embriaga? Correto! A maioria berra por causa de uma bolinha que entra na trave? Correto! A maioria louva o ar pensando ser seu pai celestial? Correto. Errado, para eles é não seguir a maioria, que age perfeitamente como o gado de que tanto fala mal.
Um gado obediente, que vai seguindo o líder escolhido - escolher líderes é outro de nossos instintos - deixando que ele pense por nós enquanto os nossos cérebros repousam na mais tranquila estupidez, sem o esforço chato de pensar para mudar. Exatamente como um gado a aceitar silenciosamente o que o vaqueiro determina, sem saber para onde de fato estamos indo...
Na verdade, somos bichos aprendendo a ser humanos. Do contrário que os místicos e religiosos dizem, estamos muito longe do progresso. Somos brutais como no começo da humanidade. Apenas polimos a nossa brutalidade, que segue adormecida até a primeira manifestação de discordância.
Por instinto, sempre nos acreditamos corretos e os outros, errados. Como diálogo vai contra a lei do menor esforço, partimos para ofensas, agressões e se permitido, assassinatos. Para que a ideia tola que acreditemos continue viva e vigente, é preciso matar o responsável pela ideia oposta, mesmo que esta esteja mais correta. Para o orgulhoso, só o ponto de vista dele vale e merece permanecer.
Mundo tolo. Creio que vai levar trilhões de anos para que a humanidade comece a raciocinar para valer, revendo todas as suas tolices que acreditaram ser verdadeiras e sábias. Pois no fundo, a mediocridade faz parte de nossos instintos e é o que mais desejamos preservar.

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