Para começar, o esquerdismo, que se afastou das classes populares - hoje facilmente seduzidas pelo discurso belicoso da extrema direita - conquistou as classes médias, eliminando de sua pauta as reivindicações por melhores salários e por uma distribuição de renda mais justa, causas alheias a uma classe que se não chega a ser rica, se situa numa situação bastante confortável.
As esquerdas hoje se tornaram mais festivas e as suas reivindicações agora tem muito a ver com esta classe média que não está nem aí se a maioria das pessoas está ganhando salário justo ou não. São o que se chama de causas identitárias, que tem muito mais a ver com empoderamento e com auto-estima do que com qualidade de vida, quando pessoas supostamente excluídas passam a ser ouvidas.
Claro que a classe média, hoje responsável pelo reerguimento da esquerda, nunca iria votar em sindicalistas feios, sujos e zangados. Tanto é que partidos sindicalistas como PCO - partido apoiado pela equipe deste blog - e a parte tradicional do PT - apenas a parte moderna do partido, conivente com a psolização da esquerda brasileira, obteve algum êxito - ficaram de fora desta festa da esquerda.
A nova esquerda, além de priorizar causas identitárias - que além de defender os interesses de classes excluídas como gays, mulheres, negros, etc., estimula o consumo de maconha e álcool e a abstenção de alimentos de origem animal - se mostra alegre, festiva e excessivamente otimista.
Inverteu-se a antiga imagem de uma esquerda zangada - com razão, devido às más condições trabalhistas - e uma direita alegre, confortável em sua fartura. Hoje, a esquerda deve ser alegre, estimular festas e defender atividades lúdicas como se estas fossem direitos imutáveis e independessem de salários justos e condições dignas de trabalho.
Esse desprezo não-assumido pelas causas trabalhistas é um sintoma da mudança de público da esquerda brasileira, que abandonou a classe trabalhadora - hoje carente, graças a reforma trabalhista de Temer, nunca questionada pelos esquerdistas - e resolveu conquistar a classe média, sobretudo os professores universitários, grande maioria dos formadores de opinião da nova esquerda.
A nova esquerda está aí e retomou a sua força. Mas para isso, teve que mudar. Enquanto a abandonada classe trabalhadora tem que escolher entre os charlatães das religiões e os trogloditas da extrema direita, a classe média, outrora apoiadora do golpe, agora enxerga na domesticada esquerda psolista a sua voz ativa, pronta para satisfazer os seus mais supérfluos interesses.
Afinal, em um mundo distópico, onde a lei da sobrevivência nos obriga a sermos mais egoístas, já que os bens e direitos, mal distribuídos, se tornam escassos para a maioria, esse negócio de causas trabalhistas se torna algo chato de se defender. Cada um que se vire para ganhar dinheiro. E se ganhar, guarde para si e vá curtir a vida.
A festa da nova esquerda está de braços abertos para quem estiver disposto a pagar por ela. Ninguém melhor que a confortável classe média, preocupada no seu direito de fumar maconha e algum tipo de proteína que não tenha origem animal, além das emoções mais baratas o possível, para patrocinar a volta das esquerdas, senão no poder, no imaginário político brasileiro.

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