Anos atrás, eu tive a oportunidade de assistir ao primeiro episódio do programa Jogos Cerebrais, que estreou no Discovery Channel. É uma espécie de concorrente do programa Truques da Mente que há no National Geographic.
O episódio foi sobre a conformidade. Mostrou porque temos que seguir regras e formar gostos, hábitos e convicções só para obter aprovação social dos grupos ao qual queremos pertencer e usufruir dos benefícios oferecidos por este.
O programa é estadunidense, mas o hábito de ser submisso a regras sociais, abrindo mão de convicções pessoais e do livre arbítrio para agradar aos outros, é algo que a sociedade brasileira tradicionalmente faz melhor do que qualquer outra sociedade.
O ser humano sabe muito bem que ser aceito pelo grupo além de lhe dar satisfação cerebral, abre as portas para um conjunto de benefícios que só contando com a ajuda de terceiros para que possa ser obtido. Afinal, a união faz a força e grupos sobrevivem mais do que indivíduos.
Isso explica porque a sociedade brasileira é quase homogênea, com pessoas tendo gostos convencionais, opiniões que não chocam a coletividade e convicções sem sentido que se consagram pelos costumes. Como disse a criadora do controverso aplicativo Lulu, o povo brasileiro é muito social. Brasileiros não quer pensar nem se divertir: seu tempo livre é quase todo dedicado á socialização.
Socializar é tão importante para o brasileiro que até mesmo o uso da internet é totalmente focado no contato com as outras pessoas. Usamos as redes sociais mais do que os outros. Atividades da internet não relacionadas com a vida social são desprezados.
E a nossa preocupação em agradar aos outros é uma meta que todos pretendem alcançar. E como disse o programa, para a aprovação social, somos capazes até de fazermos algo ridículo.
Gostar daquilo que não dá prazer, acreditar em crenças absurdas, berrar insanamente por causa de futebol, fazer coisas só porque a maioria está fazendo: nada é medido quando se quer agradar aos outros e obter a aprovação social que nos favorecerá em outras conquistas, inclusive a social.
Até mesmo confiar em líderes de caráter duvidoso é válido, já que todos sabem que o prestígio de uma pessoa ajuda muito a fazer com que outras possam, senão usufruir dos privilégios do prestigiado, pelo menos obter algum tipo de favorecimento deste.
Tudo é feito para que a aceitação social seja alcançada. Por isso mesmo que o brasileiro tem fama de povo obediente. Modismos pagam aqui com muita facilidade, enquanto a cultura alternativa fracassa sempre. O que a maioria conhece como "alternativo" na verdade é o lado B do mainstream, tão popular quanto as tendências mais populares. Regras de etiqueta são seguidas rigidamente, mesmo com algumas brechas de atualização. A padronização das coisas dá uma falsa ilusão de organização, aceita sem qualquer questionamento.
Isso tudo explica porque a sociedade brasileira tem gostos, ideias, convicções e hábitos bem padronizados. Com a aceitação social como meta, não resta fazer outra coisa senão tentar agradar aos outros. E é para isso que existe o povo brasileiro, que vive e morre para isso.

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