Uma das coisas que mais me intrigou desde a minha infância e que com absoluta certeza é a raiz da decadência humana, é o costume da maioria seguir sempre ideias, costumes e gostos da maioria.
O ser humano é um ser social e por isso há benefícios que só podem ser adquiridos através de uma boa relação com os outros. É sabido e comprovado que pessoas com facilidade de conquista social costumam se dar melhor em vários setores na vida.
Sendo a sociabilização e os benefícios oriundos dela a principal meta de qualquer pessoa, uma grande maioria abre mão de sua espontaneidade (forte na infância, fraca na adolescência e quase nula da vida adulta) com o objetivo de agradar aos outros e obter favorecimentos que nunca conseguiria sozinho.
Não raramente agradar aos outros envolve inclusive situações ridículas (escrevo este texto ao som de berros grotescos de torcedores de futebol ensandecidos), desde que socialmente aceitas.
As pessoas que optarem por uma personalidade mais diferenciada encontram problemas para se sociabilizar, não apenas pela escassez de pessoas afins como também passa um esterótipo de arrogância e desobediência, pois quem é diferente ou é considerado maluco, antipático ou delinquente. O medo de estar em quaisquer das situações faz com que muitos abram mão das convicções pessoais e absorvem o senso comum em seu repertório individual de opiniões.
O Espiral do Silêncio: quando a maioria está sempre correta, mesmo estando errada
Há estudos sobre isso e uma intelectual, a cientista política alemã Elizabeth Noelle-Neumann, os esquematizou sobre uma teoria conhecida como Espiral do Silêncio. Trocando em miúdos, é uma teoria que afirma que opiniões da maioria, estimuladas pela difusão midiática, tendem a se sobrepor e virarem "verdades" absolutas, fazendo com que as pessoas que tenham opinião própria se isolem ou mudem de opinião para agradar a maioria, que pensa de acordo com o que é vinculado nos meios de comunicação.
Além da influência midiática, a adesão a ideias defendidas ela maioria se baseiam na necessidade de sociabilização e na ideia de que a opinião da maioria sobressai sobre a do indivíduo. Se milhares pensam em uma ideia, ela parece correta, mesmo que as evidências lógicas demonstrem que ela está totalmente errada.
Noelle-Neumann concluiu que a opinião majoritária tem muito a ver com a influência midiática, sobretudo da televisão. É sabido que a televisão exerce uma influência poderosa na mentalidade dos cidadãos, moldando até mesmo o seu caráter e o modo de enxergar a realidade, sendo um excelente instrumento de manipulação mental que faz com que multidões satisfaçam os interesses das autoridades que controlam e patrocinam os meios de comunicação.
O Espiral do Silêncio anti-esquerdista
Nunca o termo "Espiral do Silêncio" despertou tanta atenção quanto os últimos tempos, onde uma sucessão de boatos a respeito dos governos petistas e da esquerda em geral fez renascer uma espécie de "anti-comunismo" tupiniquim, que além de fazer com que as pessoas sigam a mídia e a maioria, sigam também as elites, baseadas no equivocado provérbio "una-se aos fortes que serás um deles".
Sem saber de fato o que são realmente os ideais de esquerda e se basear em estereótipos, distorções e boatos como únicos meios para defini-los, surge uma distorção de conceitos que acaba por inverter o papel social do Socialismo e do Capitalismo, ignorando que o primeiro é humanista e o segundo anti-humanista, preocupado mais em salvar empresas, sistemas econômicos e patrimônios materiais ou imateriais (valores, sobretudo os moralistas) do que salvar seres humanos.
Quanto menos intelectual, mais um povo tende a pensar igual
Essa inversão de conceitos, beneficiada pela péssima qualidade intelectual do povo brasileiro em geral, foi reforçada pelo Espiral do Silêncio, pois muitos preferiram ficar do lado da maioria que está do lado da elite que possui prestígio e meios financeiros para satisfazer os interesses de quem a apoia.
Somando os interesses das elites com a opinião da maioria, cria-se o cenário perfeito para que uma ideia equivocada se estabeleça como "verdade". E assim o anti-esquerdismo se firma, estimulando o egoísmo e a ganância, propondo que a felicidade e o bem estar dependem de uma torturante luta pela sobrevivência com regra criadas pela mesma elite que exige o sucesso após a tortura imposta.
Somente esta necessidade de pensar como a elite e como a maioria pode justificar a defesa de pontos de vista equivocados e algumas atitudes e medidas sadomasoquistas que visam a prejudicar a sociedade como um todo para preservar os interesses das classes mais privilegiadas.
Ainda mais uma sociedade como a brasileira, acostumada a seguir cegamente a vontade da maioria, recusando a sua vocação pela diversidade que tanto marcaria os habitantes desse imenso território. O Espiral do Silêncio é algo que não combina com os brasileiros.

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