ENCORPANDO A VITAMINA: Essa é uma grande notícia para quem estuda a linguagem. O normal é que línguas desapareçam, sufocadas pelos idiomas mais utilizados. isso é importante, pois junto cm as línguas, vem uma nova cultura, um novo estilo de vida. Tomara que estudos se aprofundem a respeito desta língua, ara que não desapareça como muitas outras.
E ainda tem gente que chama os povos tribais de "selvagens" e "ignorantes". O surgimento desta nova língua, para mim, é uma verdadeiro sinal de sabedoria e inteligência, pois línguas não nascem do nada.
Linguista revela o nascimento de uma língua
Por Nicholas Bakalar- The New York Times - 2013
Há muitas línguas que estão morrendo pelo mundo. Porém, ao menos uma parece ter nascido recentemente, criada pelas crianças que vivem em um vilarejo remoto do norte da Austrália.
Carmela O’Shannessy, linguista da Universidade do Michigan, tem estudado a fala dos jovens há mais de uma década e concluiu que eles não falam nem um dialeto, nem uma mistura de línguas conhecida como crioulo, mas uma nova língua com características gramaticais exclusivas.
A língua, chamada warlpiri rampaku, ou warlpiri leve, é falada apenas por pessoas com menos de 35 anos em Lajamanu, um vilarejo isolado com cerca de 700 pessoas no Território do Norte da Austrália. Ao todo, cerca de 350 pessoas falam o idioma como língua nativa. O’Shannessy publicou diversos estudos sobre o warlpiri leve, o mais recente na edição de junho da revista Language.
“Muitos dos primeiros falantes dessa língua ainda estão vivos”, afirmou Mary Laughren, pesquisadora do departamento de linguística da Universidade e Queensland, na Austrália, que não estava envolvida no estudo. Uma das razões pelas quais a pesquisa de O’Shannessy é tão importante, afirmou, “é que ela foi capaz de gravar e documentar um ‘novo’ idioma em um estágio muito inicial de sua existência”.
Em Lajamanu todo mundo também fala Warlpiri “forte”, um idioma aborígine que não tem relação com o inglês e é falado por cerca de 4.000 pessoas em diversos vilarejos australianos. Muitos também falam kriol, um crioulo baseado no inglês que foi desenvolvido no fim do século XIX no norte da Austrália por aborígenes de diferentes idiomas.
Os pais de laja Manu gostam que os filhos aprendam inglês para poderem se comunicar com o restante do mundo, mas também desejam preservar o Warlpiri como língua de sua cultura.
O isolamento de Lajamanu pode ter algo a ver com a criação do novo idioma. O vilarejo fica a 880 quilômetros ao sul de Darwin, e o centro comercial mais próximo é Katherine, a cerca de 540 quilômetros ao norte. Não existem vias completamente pavimentadas.
Um avião, um dos sete que pertencem à linha aérea comunitária Lajamanu Air, pousa duas vezes por semana na pista de terra do vilarejo, trazendo o correio de Katherine, e uma vez por semana um caminhão traz comida e suprimentos que são vendidos na única loja do vilarejo. Um gerador a diesel e uma usina de energia solar fornecem eletricidade.
O vilarejo foi criado pelo governo australiano em 1948, sem o consentimento das pessoas que viveriam nele. O setor de relacionamento com os nativos do governo federal, preocupado com a superpopulação e a seca em Yuendumu, removeu 550 pessoas à força e as levou para Lajamanu. Ao menos duas vezes o grupo caminhou de volta até Yuendumu, apenas para ser novamente carregado depois de chegarem.
O contato com o inglês é bastante recente. ‘Essas pessoas eram caçadores e coletores, caminhando através do território’, afirmou O’Shannessy. ‘Mas então vieram os brancos, as fazendas de gado, as minas, e assim por diante. As pessoas foram forçadas a parar de caçar e coletar alimentos’.
Nos anos 1970 os aldeões já haviam aceitado a nova casa e o Conselho de Lajamanu foi criado como uma autoridade comunitária de autogestão, a primeira no Território do Norte. No censo de 2006, quase metade da população tinha menos de 20 anos e o governo australiano estima que em 2026 o número de indígenas com idades entre 15 e 64 anos passará de 440 a 650 pessoas.
O’Shannessy, que começou a estudar o idioma em 2002, passa entre três a oito semanas por ano em Lajamanu. Ela fala e entende tanto warlpiri, quanto warlpiri leve, mas não é fluente.
Os habitantes de Lajamanu frequentemente fazem o que os linguistas chamam de alternância de códigos, ou seja, a mistura de mais de um idioma ou a troca de idiomas durante a fala. Além disso, muitas palavras do warlpiri leve são derivadas do inglês ou do briol.
Porém, o warlpiri leve não é apenas uma combinação de palavras de idiomas diferentes. Peter Bakker, professor associado de Linguística da Universidade Aarhus, na Dinamarca, que tem inúmeras publicações sobre o desenvolvimento de idiomas, afirmou que o warlpiri leve não pode ser considerado um pidgin porque pidgins não possuem falantes nativos. Ele também não é um crioulo por que todo crioulo é um idioma novo que combina duas línguas distintas.
‘Esses jovens desenvolveram algo inteiramente novo’, afirmou. ‘O warlpiri leve é claramente um idioma nativo.’
O’Shannessy oferece o seguinte exemplo, falado por uma criança de quatro anos: Nganimpa-ng gen wi-m si-m worm mai aus-ria. (Nós também vimos vermes na minha casa.)
É fácil perceber a presença de diversos substantivos derivados do inglês, mas o sufixo -ria em ‘aus.’ (casa) significa ‘em’, ou ‘na’, e vem do Warlpiri. A terminação -m no verbo ‘si’ (ver) indica que o evento está acontecendo ou aconteceu no passado, um tempo verbal ‘presente ou passado, mas não futuro’ que não existe nem no inglês, nem no warlpiri. Essa é uma forma de falar tão diferente do warlpiri e do kriol que constitui uma nova língua.
Segundo O’Shannessy, o desenvolvimento da língua foi um processo que ocorreu em duas etapas. Ele começou como a fala infantilizada usada pelos pais com seus filhos, em uma combinação de três idiomas. Então, as crianças adotaram esse como seu idioma nativo, acrescentando inovações radicais na sintaxe, especialmente no uso das estruturas verbais, que não estavam presentes em nenhuma das línguas iniciais.
É difícil saber por que uma nova língua se desenvolveu nesse lugar, justamente nesse momento. Esse não era o caso de pessoas que precisavam se comunicar em um idioma comum, uma situação que pode levar ao surgimento de um pidgin ou um crioulo.
Bakker afirma que novas línguas são descobertas de tempos em tempos, mas que essa é a primeira vez que foi possível acompanhar o desenvolvimento de um idioma a partir da fala das crianças.
O’Shannessy sugere que forças sutis podem estar em ação. ‘Acho que a identidade tem um papel importante’, afirmou. ‘Depois que as crianças inventaram um novo sistema, ele se tornou um marcador de sua identidade como warlpiri jovem da comunidade de Lajamanu.’
A língua se estabeleceu tão bem entre os jovens que já se levantam questões sobre a sobrevivência do warlpiri forte. ‘Por quanto tempo as crianças falarão tantas línguas? Eu não sei’, afirmou O’Shannessy. ‘Os mais velhos desejam preservar o warlpiri, mas não sei se é isso que vai acontecer. O warlpiri leve parece ser bastante robusto.’
Por Nicholas Bakalar- The New York Times - 2013
Há muitas línguas que estão morrendo pelo mundo. Porém, ao menos uma parece ter nascido recentemente, criada pelas crianças que vivem em um vilarejo remoto do norte da Austrália.
Carmela O’Shannessy, linguista da Universidade do Michigan, tem estudado a fala dos jovens há mais de uma década e concluiu que eles não falam nem um dialeto, nem uma mistura de línguas conhecida como crioulo, mas uma nova língua com características gramaticais exclusivas.
A língua, chamada warlpiri rampaku, ou warlpiri leve, é falada apenas por pessoas com menos de 35 anos em Lajamanu, um vilarejo isolado com cerca de 700 pessoas no Território do Norte da Austrália. Ao todo, cerca de 350 pessoas falam o idioma como língua nativa. O’Shannessy publicou diversos estudos sobre o warlpiri leve, o mais recente na edição de junho da revista Language.
“Muitos dos primeiros falantes dessa língua ainda estão vivos”, afirmou Mary Laughren, pesquisadora do departamento de linguística da Universidade e Queensland, na Austrália, que não estava envolvida no estudo. Uma das razões pelas quais a pesquisa de O’Shannessy é tão importante, afirmou, “é que ela foi capaz de gravar e documentar um ‘novo’ idioma em um estágio muito inicial de sua existência”.
Em Lajamanu todo mundo também fala Warlpiri “forte”, um idioma aborígine que não tem relação com o inglês e é falado por cerca de 4.000 pessoas em diversos vilarejos australianos. Muitos também falam kriol, um crioulo baseado no inglês que foi desenvolvido no fim do século XIX no norte da Austrália por aborígenes de diferentes idiomas.
Os pais de laja Manu gostam que os filhos aprendam inglês para poderem se comunicar com o restante do mundo, mas também desejam preservar o Warlpiri como língua de sua cultura.
O isolamento de Lajamanu pode ter algo a ver com a criação do novo idioma. O vilarejo fica a 880 quilômetros ao sul de Darwin, e o centro comercial mais próximo é Katherine, a cerca de 540 quilômetros ao norte. Não existem vias completamente pavimentadas.
Um avião, um dos sete que pertencem à linha aérea comunitária Lajamanu Air, pousa duas vezes por semana na pista de terra do vilarejo, trazendo o correio de Katherine, e uma vez por semana um caminhão traz comida e suprimentos que são vendidos na única loja do vilarejo. Um gerador a diesel e uma usina de energia solar fornecem eletricidade.
O vilarejo foi criado pelo governo australiano em 1948, sem o consentimento das pessoas que viveriam nele. O setor de relacionamento com os nativos do governo federal, preocupado com a superpopulação e a seca em Yuendumu, removeu 550 pessoas à força e as levou para Lajamanu. Ao menos duas vezes o grupo caminhou de volta até Yuendumu, apenas para ser novamente carregado depois de chegarem.
O contato com o inglês é bastante recente. ‘Essas pessoas eram caçadores e coletores, caminhando através do território’, afirmou O’Shannessy. ‘Mas então vieram os brancos, as fazendas de gado, as minas, e assim por diante. As pessoas foram forçadas a parar de caçar e coletar alimentos’.
Nos anos 1970 os aldeões já haviam aceitado a nova casa e o Conselho de Lajamanu foi criado como uma autoridade comunitária de autogestão, a primeira no Território do Norte. No censo de 2006, quase metade da população tinha menos de 20 anos e o governo australiano estima que em 2026 o número de indígenas com idades entre 15 e 64 anos passará de 440 a 650 pessoas.
O’Shannessy, que começou a estudar o idioma em 2002, passa entre três a oito semanas por ano em Lajamanu. Ela fala e entende tanto warlpiri, quanto warlpiri leve, mas não é fluente.
Os habitantes de Lajamanu frequentemente fazem o que os linguistas chamam de alternância de códigos, ou seja, a mistura de mais de um idioma ou a troca de idiomas durante a fala. Além disso, muitas palavras do warlpiri leve são derivadas do inglês ou do briol.
Porém, o warlpiri leve não é apenas uma combinação de palavras de idiomas diferentes. Peter Bakker, professor associado de Linguística da Universidade Aarhus, na Dinamarca, que tem inúmeras publicações sobre o desenvolvimento de idiomas, afirmou que o warlpiri leve não pode ser considerado um pidgin porque pidgins não possuem falantes nativos. Ele também não é um crioulo por que todo crioulo é um idioma novo que combina duas línguas distintas.
‘Esses jovens desenvolveram algo inteiramente novo’, afirmou. ‘O warlpiri leve é claramente um idioma nativo.’
O’Shannessy oferece o seguinte exemplo, falado por uma criança de quatro anos: Nganimpa-ng gen wi-m si-m worm mai aus-ria. (Nós também vimos vermes na minha casa.)
É fácil perceber a presença de diversos substantivos derivados do inglês, mas o sufixo -ria em ‘aus.’ (casa) significa ‘em’, ou ‘na’, e vem do Warlpiri. A terminação -m no verbo ‘si’ (ver) indica que o evento está acontecendo ou aconteceu no passado, um tempo verbal ‘presente ou passado, mas não futuro’ que não existe nem no inglês, nem no warlpiri. Essa é uma forma de falar tão diferente do warlpiri e do kriol que constitui uma nova língua.
Segundo O’Shannessy, o desenvolvimento da língua foi um processo que ocorreu em duas etapas. Ele começou como a fala infantilizada usada pelos pais com seus filhos, em uma combinação de três idiomas. Então, as crianças adotaram esse como seu idioma nativo, acrescentando inovações radicais na sintaxe, especialmente no uso das estruturas verbais, que não estavam presentes em nenhuma das línguas iniciais.
É difícil saber por que uma nova língua se desenvolveu nesse lugar, justamente nesse momento. Esse não era o caso de pessoas que precisavam se comunicar em um idioma comum, uma situação que pode levar ao surgimento de um pidgin ou um crioulo.
Bakker afirma que novas línguas são descobertas de tempos em tempos, mas que essa é a primeira vez que foi possível acompanhar o desenvolvimento de um idioma a partir da fala das crianças.
O’Shannessy sugere que forças sutis podem estar em ação. ‘Acho que a identidade tem um papel importante’, afirmou. ‘Depois que as crianças inventaram um novo sistema, ele se tornou um marcador de sua identidade como warlpiri jovem da comunidade de Lajamanu.’
A língua se estabeleceu tão bem entre os jovens que já se levantam questões sobre a sobrevivência do warlpiri forte. ‘Por quanto tempo as crianças falarão tantas línguas? Eu não sei’, afirmou O’Shannessy. ‘Os mais velhos desejam preservar o warlpiri, mas não sei se é isso que vai acontecer. O warlpiri leve parece ser bastante robusto.’
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