Vivemos num sistema sem valores. Na verdade cada um constrói o seu, mas seguindo direitinho as "orientações" da grande mídia (legisladora e reguladora das regras sociais) e das tradições sociais. E mesmo assim, ainda continuamos perdidos na hora de definir quais os nossos valores.
Em muitos casos, há até inversão de valores, onde o correto e visto como errado e vice-versa, só por causa das aparências e dos estereótipos. Brasileiros adoram seguir estereótipos, mas isso é assunto para uma futura postagem. Vamos nos ater em como a ética se torna dispensável, se depender de interesses.
Muitas pessoas abrem mão de honestidade, hora e até de respeito humano quando os interesses estão em jogo. Pessoas desonestas, cruéis ou simplesmente bullies (que gostam de humilhar os outros), que deveriam ser desprezados pela sociedade, com direitos sendo reduzidos, continuam atraindo amigos e favores, desde que o prejuízo que eles causem, não atinja quem os admira.
Vi casos onde pessoas com índole duvidosa passam a integrar grupos prestigiados, mesmo tendo gerado danos a terceiros. A própria "seleção" brasileira roubou tanto para entrar na copa de 2002 quanto para vencer e ninguém falou e nem fala nada. Roubar para os outros é sempre ruim, roubar para nós não é? Cadê a ética? Estranho.
Os próprios direitistas e simpatizantes do Capitalismo agem dessa forma, pois não importam se a ganância dos ricaços lhes tragam grandes limites em seus direitos."Desde que o ricaço deixe cair uma migalhinha, está bom demais", acreditam os entusiastas e personalidades de direita. Sobre se algum rico cometeu alguma atrocidade para se tornar rico, seus admiradores fazem vista grossa: "os fins justificam os meios".
Esta famosa frase escrita no livro O Príncipe, de Maquiavel, poderia muito bem ser o lema de nossa sociedade, com direito a estar escrito na nossa bandeira. Apesar de Comte, autor da frase "Ordem e progresso", estimular a mediocrização do país com a falácia de que "nada regride", a frase escrita na bandeira, assim como a letra de nosso hino, está muito longe de nossa realidade prática.
A memória curta estimulada por esta mediocrização é outro fator que faz com que haja a impunidade para os anti-éticos que são adotados como "gente boa" por grande maioria da sociedade. Nossa cúpula, não apenas política, mas empresarial (incluindo os setores de entretenimento e religião, onde a corrupção é maquiada pela imagem positiva que estes setores exalam) é altamente desonesta e tudo que vemos em nossa sociedade é resultado de manobras ocultas feitas para favorecer uma minoria de abastados, se aproveitando do desinteresse da sociedade como um todo por bastidores de qualquer tipo. Também, estimulados pela "fé" até mesmo nos assuntos laicos, preferem acreditar nos mitos do que em fatos. Mitos contam as estórias de forma mais bonita, apesar de irreal.
E os vilões? Claro que a sociedade não vai acreditar que não existam problemas em nosso cotidiano. Mas legal é responsabilizar aqueles que não tem a ver com a gente. Políticos e bandidos "de carreira" são os bodes expiatórios perfeitos para tudo que está errado em nossa sociedade. Os corruptos que não pertencem a essas citadas classes seguem impunes e até admiradas como se "heróis" fossem. Muitas pessoas eté se irritam quando os corruptos "de cara limpa" são acusados como tais, já que a sociedade brasileira sempre foi sedenta por "heróis", colocando falsos "mestres" no lugar.
Em muitos casos, as pessoas aderem a corruptos, criminosos, pessoas de má índole e bullies por questões de sobrevivência, ou porque estes crápulas garantem favores essenciais ou porque poderão se tornar ameaças se forem denunciados ou contrariados. Pessoas honestas frequentemente se tornam "reféns" de pessoas com capacidades de gerar danos e somente a união maciça de muitas pessoas de bem (o que nunca acontece) podem aniquilar o poder sombrio que os maldosos ainda tem em nossa sociedade. Mas até as pessoas se conscientizarem e foram mais altruístas (pensando mais no benefício coletivo da sociedade como um todo), os malvados seguem impunes e cada vez mais influentes.
Estamos perdidos. A ética virou uma utopia. A sociedade elege seus heróis e vilões não pelo que eles são capazes de fazer, mas pelos interesses que eles são capazes de atender. Favorecida, a sociedade se recusa a eleger como corrupto alguém que lhes dá um benefício aparente. Enquanto confiramos nos crápulas que nunca são denunciados, enquanto chamarmos para a nossa turma os pilantras que adoram estragar a vida de terceiros, a sociedade continua na mesma, transformando a impunidade numa estranha forma de "perdão" que estimula cada vez mais a prática de erros danosos, que se perpetuam sem qualquer previsão de prazo para se encerrar.

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