Para começar, o comercialismo musical foi tão hegemônico nestas últimas quatro décadas que a nossa noção de cultura anti-comercial é justamente esta cultura comercial, pois é a que temos, é a que nos chega aos olhos e ouvidos e a única que conhecemos.
Na falta de um exemplo de anti-comercialismo, escolhemos o que foi mais esquisito ou que atenda algum estereótipo de rebeldia como exemplo de anti-comercial. Mesmo que o cara esteja lá só por dinheiro e repita como um papagaio o que os comerciais de outra sempre fizeram.
Mesmo que decidamos fazer por conta própria as nossas músicas, gastando pouco para alugar algum estúdio semi-profissional, estamos contaminados pela cultura comercial. Só conseguimos reproduzir o que aprendemos através dos meios de comunicação. E nestes meios, a cultura de mercado é hegemônica.
Idiotice achar que com o fim da hegemonia das grandes gravadoras estamos livres do comercialismo musical. Pelo contrário. Sem estereótipos, a cultura comercial ganha asas para voar ainda mais alto. Sem o estereótipo de comercial, mas mantendo o mercantilismo em sua essência, ele pode vender mais, pois pode falsamente ser oferecido como uma alternativa ao comercialismo, mesmo fazendo a mesma coisa.
Muita gente pensa que a pequena mídia é sinônimo de mídia diferenciada, alternativa. Mesmo antes da onda atual, na Itália por exemplo, gravadoras reduzidíssimas se empenhavam a oferecer o mesmo pop juvenil que as multinacionais ofereciam. Você ouvia exatamente aquele mesmo pop comercial dançante vendo um selo com nome desconhecido girando na vitrola. O mesmo som.
Algo a observar e que é frequentemente ignorado é que existem empresas locais poderosíssimas que aos olhos dos de fora parecem empresas pequenas, como a paraense SomZoom e a gravadora que contratou a onda coreana do momento, BTS. Só porque a sua atuação é local não significa que uma empresa seja menos rica, poderosa, influente e mercenária.
Mas porque as pessoas insistem em achar que só porque não é produzido por uma multinacional conhecida, algo pode ser considerado "alternativo", "diferente" mas soando exatamente igual ao que vemos e revemos através dos meios gigantescos de produção e divulgação?
Temos que parar com a crença de que o comercialismo musical acabou. O fim da hegemonia midiática apenas tirou o estereótipo de comercialismo da cultura que é feita apenas para gerar renda. Este fim do estereótipo foi benéfico para atrair quem procura algo supostamente diferenciado, mesmo sem ter as condições intelectuais de distinguir o que é realmente cultural do que é puramente mercenário.
Sem os estereótipos, o som do produto comercial parece "mais espontâneo" e "mais autêntico" e por isso o público se sente identificado com o "artista", naquele esquema do "gente como a gente", e compra mais, pensando ser ele o diferencial para a aos produtos culturais hegemônicos de outrora.
Mas tudo é uma enganação. O comercialismo segue forte, formando novos magnatas, criando tipos culturais cada vez menos espontâneos e sempre aproveitando da queda do nível intelectual do público receptor, que sem discernimento, aceita qualquer coisa como revolucionária.
Assim, continua a engordar os cofres, não mais das antigas gravadoras , mas do de novos produtores, formando novos magnatas e novos "artistas" de proveta a oferecer o mesmo tum tum tum de outrora, com nova roupagem e sem o estereótipo de quem está nesta só para ganhar dinheiro. Nunca foi tão fácil oferecer um produto fajuto com a embalagem linda de autenticidade.
Emburrecer as massas faz muito bem para a cultura de mercado. Faz as pessoas comprarem mais.

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