sábado, 27 de junho de 2009

A morte de Michael Jackson

Eu quase não ia escrever sobres esse tema, tão falado na imprensa desde a noite da última quinta, mas as circunstâncias e a repercussão me obrigaram a tocar no assunto.

Michael Jackson, o mais popular ídolo dos últimos tempos, faleceu quinta-feira, dia 25, de um ataque cardíaco, muito provavelmente de um consumo exagerado de remédios, tomados na perspectiva de se preparar fisicamente para a turnê de 50 shows que iria se iniciar daqui a uns tempos na Inglaterra. Turnê, que teria dois objetivos: iria ajudar a gerar receita para pagar dívidas e devolveria o astro à mira dos holofotes da mídia, recuperando sua reputação de "grande astro da música".

Muito se está falando sobre a morte e a trajetória do ídolo. Por isso não é conveniente falar nisso aqui. O que vou falar sobre ele é algo que quase ninguém falou, visto a cega devoção de um ídolo super-exposto pela mídia, resultante do choque recebido por muitos com a notícia da morte do cantor.

MICHAEL JACKSON: O SÍMBOLO MAIOR DO SHOW-BUSINESS

Sei que a morte de alguém muito querido causa comoção, mas em muitos casos, sobretudo num país católico e sentimentalóide como o nosso, isso acaba causando muito exagero.

Parece que virou moda de uma hora para a outra de tratar Michael Jackson de gênio para cima, como se fosse a melhor coisa que apareceu na música em todos os tempos. E não é. Só para se ter uma idéia, todos os artistas nos EUA e na Inglaterra que estavam em atividade entre1966 e 1969 juntos são muito melhores que o recém falecido cantor-dançarino.

Jackson era, acima de tudo, símbolo máximo do show-business, sistema em que há uma associação homogênea entre dinheiro e cultura, uma associação em que o dinheiro age muitas vezes como um parasita, tornando a arte e a cultura reféns das regras do hit-parade e das vendas de discos.

É perigoso para a música essa associação com o show-business, pois em muitos casos, não todos, há a perda da espontaneidade ao mesmo tempo que dá oportunidade para medíocres serem vistos como "artistas respeitáveis", apenas seguindo a bula do show-business.

E isso favoreceu o surgimento da mediocrização cultural surgida no início dos anos 90 e que praticamente matou a arte, roubando o seu rótulo e entregando de bandeja aos entertainers, nomes pouco preocupados com sua própria obra e que cantavam apenas para divertir os outros e ganhar uns trocados com isso. Jackson era um entertainer.

Mesmo que haja qualidade na obra de Jackson, ele nunca pode ser comparado a alguém como Bob Dylan ou Leonard Cohen, esses sim, verdadeiros gênios, mas que são vistos como chatos por não oferecerem aos olhos da platéia, ritmos, pirotecnia e passos de danças que tanto marcaram Jackson em sua carreira. Infelizmente, hoje em dia, as pessoas usam os olhos e não os ouvidos, para "ouvirem" música.

IGNORA-SE A ARTE E PÕE O ENTRETENIMENTO NO LUGAR

Com a queda vertiginosa e incessante da qualidade musical gerada pelo mercenarismo musical, um fenômeno interessante passa a acontecer na segunda metade da década de 90: a nívelação por baixo. Ou seja, mede-se a qualidade de um intérprete usando como referência não o melhor, mas o pior intérprete. Explicando, admite-se a qualidade em um intérprete mediano, porque ele "não é como o pior". E é isso que acontece agora e que fortalece Jackson como "gênio", mesmo sem ser. Jackson é considerado gênio por que não é tão ruim como, por exemplo, os Backstreet Boys.

E o desprezo à arte pura faz com que artistas que eram considerados os melhores, passem a ser considerados chatos, difíceis e deslocados para um patamar inferior aos piores, que agora são considerados "medianos".

Por isso que agora, os gênios não são mais Bob Dylan, Leonard Cohen, Cat Stevens, Laura Nyro e sim os medianos Abba, Bee Gees, Carpenters e o próprio Michael Jackson, esses, que apesar de alguma qualidade musical, estavam compromissados exclusivamente com o entretenimento puro, a diversão simples de quem vai à boate dar uns passinhos pra depois voltar para casa. O papo-cabeça dos intérpretes puramente artísticos acabou por chatear muita gente. Pelo jeito ninguém quer ficar conscientizado o tempo todo, com exceção de mim e uns gatos pingados. Um pouco de letargia disco não faz mal a essa maioria.

Claro que eu gosto também de música de entretenimento. Muitas faixas disco são muito bem arranjadas e até "massageam" os meus ouvidos. Até cd dos românticos Carpenters eu tenho. Mas isso apenas é gosto e gosto não garante importância artística, do contrário que muitos pensam. Nunca achei e nem vou achar Carpenters geniais. Eles foram feitos para divertir, e nada mais.

O que eu estranho é que esses entertainers substituam, no imaginário popular, os intérpretes puramente artísticos. Não dá para comparar Bee Gees com Bob Dylan, pois pertencem a setores muito diferentes. Tente fazer uns passinhos de Tony Manero ao som de "Like a Rolling Stone", que vai ficar estranho. E mais risível ainda é fazer uma tese seríssima "analisando" a pueril letra de "How Deep is your Love", dos irmãos australo-americanos, supondo um engajamento social nela.

O que não pode acontecer é o que está infelizmente acontecendo, com aquilo que deveria ser visto como mera diversão passageira sendo visto como "importante e transformador". O divertido tomando o lugar do artístico. Gente, vamos parar para pensar. Michael Jackson não é Leonard Cohen, apesar de contratados pela mesma gravadora, a Sony Music. O que Cohen canta é para gente pensar, e o que Jackson canta é para gente dançar, só isso. Cohen não precisa de bailarinos e clips ultra-produzidos para divulgar sua música, mas Jackson sim.

Quero só ver a reação dos mais incautos se desde o início Michael Jackson cantasse as mesmas músicas, só que sem clips e sentado num banquinho, só ele e banda num pequeno palco com pouca iluminação. O povo não quer música, quer espetáculo e nisso, Jackson foi mestre.

O mérito de Jackson é de ser um entertainer puro, talvez o maior de todos. Com certeza o maior dos que já surgiram. Mas dizer que a "música dele permanecerá", que a música dele têm "importância", é um exagero, coisa de gente que já vive cega com o brilhantismo de Seleção Amarelão. Pessoas que costumam ver nas coisas excessivamente populares uma importância maior do que realmente existe.

Portanto eu digo que devemos parara um pouco e reconhecer nele não o cantor, mas o excelente showman, que a mídia americana exportou para o mundo. Dizer que ele têm importância para a música usando efeitos visuais como justificativa é incoerente. Ele no máximo foi um cantor e compositor correto, que lançou boas canções, que por melhores que sejam não combinam com o rótulo de "obras primas". Até porque obras primas, no caso dele, são os concertos espetaculosos e os clipes, quase filmes de curta-metragem.

A idolatria exagerada a Jackson combina muitíssimo com a mediocrização cultural em que vivemos. Basta aparecer um que não cometa os erros de quem não gostamos , para ser rotulado de gênio. Enquanto que os verdadeiros gênios são obrigados a cantar para as paredes, já que aqueles que deveriam fazer parte de seu público, carentes de educação e senso-crítico, vão sendo hipnotizados com o sacolhejar de um menino magro e transparente com voz afinada e seu espetacular jogo de luzes e danças, maravilhas para os olhos de quem não faz questão nenhuma que o mundo e a cultura melhorem.

A música de Jackson vai permancer sim, mas somente enquanto durar essa festa de luzes e dança. Quando a festa acabar e a boate fechar, vai amanhecer e aí teremos que aguentar sóbrios, Cat Stevens sentado no seu banquinho, só ele e sua voz, com suas melodias maravilhosas e suas letras de rara beleza.

Publicado originalmente em 27/06/2009.
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Comentários:

Grand Valley disse...

Meu medo é que, se as coisas continuarem como estão, um dia vão dizer que a música do Chitãozinho e Xororó vai continuar para sempre, a do Chiclete com Banana vai continuar para sempre e até de umas tais de Sexy Dolls vai continuar para sempre.

Como é cruel essa nossa era da mediocridade.
27 de junho de 2009 12:09

Marcelo Delfino disse...

Xará, eu também gostava do Michael, mas apenas como um talentoso compositor e intérprete de suas canções, jamais como gênio ou revolucionário. Ele era apenas uma peça na engrenagem do showbiz, e é provável que ele soubesse e concordasse como esse papel. Não é à toa que me referi às suas presepadas, na postagem do meu blog Brasil, um País de Tolos. Tudo que Michael fez extra-música, dos clipes, das danças até os escândalos, não passou de presepada.
27 de junho de 2009 15:49

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