Dos anos 90 para cá, vivemos uma acelerada degeneração cultural feita em prol do lucro fácil. Nos últimos dois anos, houve uma tentativa de negar o mercenarismo cultural, mas não adianta: fatos escancaram o desejo de "artistas" de usar a música como fonte de renda e submeter a qualquer tipo de regra - incluindo abrir mão da dignidade artística, hoje em franca ausência na cultura atual - para se manter "em alta" e atrair o público que sustentará financeiramente esses "artistas".
Como cultura ruim é cultura sem consistência, nos cinco últimos anos surgiu um esforço vindo de artistas sérios e intelectuais (a maioria de formação antropológica) para embutir próteses de sabedoria cultural, com o objetivo de tentar legitimar essas formas precárias de cultura. Virou moda tentar justificar essas formas precárias com a riqueza cultural que os criadores dessas formas precárias não conhecem e nem tiveram a capacidade e a oportunidade de conhecer. É como dizer que as fezes são oriundas do caviar, sem que o "cagão" soubesse disso.
Embutir próteses de cultura séria em cultura precária se tornou um hábito infeliz que só tem a sua razão de ser porque vivemos numa sociedade crédula, burra e com pouca memória cultural, que tem o costume de aceitar qualquer bobagem vinda de pessoas com séria reputação.
Intelectuais e artistas sérios querem defender deturpação cultural
Caetano Veloso foi um dos pioneiros artistas sérios a tentar legitimar a cultura não-séria. Para ele, não existe música ruim e o mercenarismo cultural, segundo ele, é "o que enriqueceu a cultura mundial", achando que o hit parade sem espontaneidade e focado nas vendagens fosse a forma mais "evoluída' de cultura.
E seus discípulos musicais, os neotropicalistas Nando Reis, Zeca Baleiro e agora Adriana Calcanhoto, curiosamente vindo de cantos bem díspares do país (o que é mal sinal - o vírus pode se espalhar) vivem se esforçando para defender essas formas deturpadas de cultura, achando que pode existir arte mercenária, inteligência burra e ovo cabeludo.
Cantora calunia o próprio sogro para defender deturpação cultural
Calcanhoto escreveu um texto que só a mediocridade cultural da sociedade brasileira permitiu que fosse publicado em um jornal consagrado como o Globo. Não vou aqui publicar o texto, pois ele é de uma infelicidade total, mas em resumo, ele tenta provar a tese absurda de que o "funk"brasileiro não existiria se não fosse Vinícius de Moraes (coincidentemente ou não, sogro de Calcanhoto).
Esta tese é completamente sem sentido. Parece dogma religioso: é impossível de ter acontecido, mas você é obrigado a acreditar nisso porque parece mais confortável. Foi resultante da opinião pessoal da cantora, que tentou associar seu sogro a um modismo na tentativa de fazê-lo parecer "muderno". Se bem que cultura ruim nada tem de modernidade, sendo na verdade um retrocesso.
Qualidade da obre de Vinícius é oposta a "qualidade" do "funk"
Quem observa as características do "funk" e compara com o trabalho rico de Vinícius, um dos primeiros multimídias da cultura brasileira, sabe que são trabalhos não só diferentes como extremamente opostos. A riqueza observada no trabalho de Vinícius, é completamente ausente no "funk", um tipo de "música" de batida monótona, letras mal construídas e atitude acomodada mas de pose de rebeldia estereotipada. O "funk" é certamente a pior forma de cultura (se é que podemos classificá-la como tal) surgida em nosso país e tem servido de oportunidade para muitos sem talento esfregarem suas caras feias e seus glúteos enormes nas câmeras e holofotes.
Para o bom senso, soou ofensiva a declaração de Calcanhoto. Ele ofendeu seu próprio sogro ao embutir nele o absurdo de ser o "patrono" do "funk". Os admiradores da belíssima obra do poetinha não gostaram nada da declaração. Mesmo que ela tenha tomado como parâmetro a musiquinha do Buchecha que ela gravou e confundindo-a com as obras infantis criadas pelo seu sogro, é visível a mediocridade da musiquinha do compositor gonçalense, por mais "bonitinha" que pareça essa canção.
De qualque forma a declaração de Calcanhoto é típica de falta de informação cultural e de deslumbre com modismos. Se ela quis agradar as classes pobres com sua declaração, por outro lado, preferiu investir em uma mentira que destrói a historiografia da cultura brasileira.
Mas o tempo, juiz justo, vai corrigir tudo, enterrando de vez o "funk" (que é ignorado solenemente por pessoas realmente evoluídas) e colocar Vinícius na eternidade sem que precise associar a sua rica e perene obra a qualquer modismo tosco produzido por gente sem vocação artística que mal sabe assinar o próprio nome.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.