Brasileiro é povo submisso. Aceita tudo que as autoridades fazem com ela, por achar que quem possui poder também possui sabedoria (o que é um mito bem falso). A confiança cega em nossos sistema nos faz acreditar que ele é justo e correto. E isso faz com que os problemas nunca se resolvam e se fortaleçam a cada ano, se transformando em certos.
Salários baixos, carga excessiva de trabalho, injustiças, má infra-estrutura, entre outras coisas desagradáveis que as pessoas pensam fazer parte de nossas vidas, não se incomodando de suportá-las, ao invés de eliminá-las, o que seria ideal.
Uma das coisas desagradáveis que as pessoas aceitam sem contestar, é o nosso sistema educacional. Baseado em conceitos equivocados (como memória como sinal de inteligência e a teoria da "tábula rasa", por exemplos), ele é exclusivamente focado no mercado de trabalho, apesar de seus gestores fingirem que é para formar cidadãos.
Todos sabem que uma educação perfeita não é interesse de nenhuma autoridade, pois população intelectualizada é sinônimo de político sem poder. Por isso o sistema educacional tem que respeitar um limite para manter sua mediocridade, para que a população se mantenha obediente, atrofiando sua capacidade de discernimento.
Considerado um direito infantil, aquilo que é se chama de"educação" é na verdade uma obrigação. Um dever que se negligenciado, impedirá a pessoa de conquistar a vida profissional que lhe dará acesso a direitos básicos. Mas continuam insistindo em tratar a matricula em escolas como um direito tão "fofo" quanto se divertir, o que de fato não é verdade.
E como o nosso sistema educacional não pode ser perfeito, mesmo que o discurso diga que a sua -utópica - perfeição seja a meta, o foco das autoridades está na aplicação de provas. O Ministério da Educação foca tanto a parte de provas que deveria mudar de nome para o Ministério das Provas.
E hoje, ocorre o ENEM, criado supostamente para avaliar, através do desempenho dos alunos, a qualidade das escolas de ensino médio. Mas infelizmente foi transformado no "novo vestibular", filtrando a entrada de muitos alunos nas universidades, num sistema que exige diploma de nível superior até para vender salgadinho em porte de hospital.
Para quem não sabe, o ENEM deveria ser provisório, uma medida apenas para analisar o desempenho de professores e escolas para verificar sua qualidade. Se a escola atingisse a meta do governo, o ENEM seria descartado. Mas os governos petistas, com aquela mania de transformar o provisório em permanente (vejam as esmolas conhecidas como "bolsas"), resolveu transformar o ENEM na nova forma de entrar em faculdades, exigindo o conhecimento inútil de todo o ensino médio. O legal disso (sarcasmo) é que quem quer entrar para faculdades de Letras é obrigado a decorar complicadas fórmulas de física e química só para descobrir qual o adjunto ad-nominal de uma frase curta.
Meu ponto de vista quanto ao acesso ao ensino superior se basea em duas opções:
- Limita-se a entrada nas universidades desde que o discernimento, o senso crítico e a capacidade de questionamento sejam levadas em conta no vestibular (o quer não ocorre, já que provas exigem apenas memória e raciocínio matemático);
- Ou libera o acesso no esquema "quem chega primeiro fica com a vaga", já que os vestibulares não conseguem impedir que pessoas de nível intelectual medíocre entrem e consigam adquirir os seus diplomas.
Nota-se que o aumento de exigências para o acesso ao nível superior não tem melhorado a qualidade intelectual dos seus alunos. Embora professores ainda se esforcem em transformar as faculdades em únicos redutos de debates inteligentes, os alunos tratam esses debates como mero dever, e em seus cotidianos fazem questão de manter ainda a sua mediocridade que deveria ter sido abandonada na infância, se mantendo na plena ignorância quando deixam os ambientes acadêmicos. Adiantou filtrar? Claro que não.
Por isso eu alerto: provas são meios de excluir da sociedade aqueles que são considerados como "excesso de contingente" para a obtenção de um direito. Governos petistas que fingem ser includentes, mas que obrigatoriamente tem que agradar a empresários que pagam sua campanhas entre outras coisas, não pode recusar as regras capitalistas de exclusão, fazendo somente que uma reduzida minoria tenha seus direitos reais conquistados, fazendo com que o resto seja a grande massa de excluídos a ser bajulada em todas as eleições, e que vive eternamente mergulhada na miséria cotidiana que nem um celular e uma TV de plasma conseguem disfarçar.
Boa sorte aos que fizerem a prova. Aos que passarem, espero que aproveitem a vida acadêmica para contestar esse sistema injusto, para que outros não precisem passar inutilmente pela mesma desagradável experiência de prestar uma prova excludente que só serve para manter as injustiças que se arrastam décadas e mais décadas em nossa sociedade.

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