segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Nelson Mandela, a luta contra o apartheid de lá e o caso do apartheid de cá

OBS: O apartheid brasileiro não é bem igual ao da África do Sul, mas é cruel e real. Ele não se baseia em separar etnias, mas em separar economicamente e intelectualmente. 

Pobres e de baixa escolaridade são privados por diversos meios de usufruírem uma vida digna que possa ajudá-los a acrescentar bons valores ao seu cotidiano. Suas conquistas são limitadas ao consumismo e a meios de diversão não-intelectualizados onde os ricos e graduados podem participar. 

Só não podem participar dos eventos criados para que somente os ricos e graduados podem estar, fazendo com que as classes mais carentes percam uma grande oportunidade de crescerem como seres humanos.

Sigamos o exemplo de Mandela e acabemos também com este tipo de apartheid, para que a s classes mais carentes possam se intelectualizar, desenvolver a cultura e lutar pelos seus direitos reais, evitando confundir consumismo com qualidade de vida.

Nelson Mandela, a luta contra o apartheid de lá e o caso do apartheid de cá

Alexandre Figueiredo - Mingau de Aço

Nelson Mandela foi um dos raros homens que marcaram sua vida com importantes realizações. Com coragem e perseverança, tentou lutar contra o separatismo da África do Sul - cujo regime do apartheid era abertamente inspirado pelo nazismo alemão - , chegando a perder sua batalha ao ser preso durante 27 anos, mas depois a venceu em outra rodada, tornando-se até presidente do seu país.

Mandela é dos tempos de que o ativismo social era um ato de coragem, em que se unia a sabedoria, seja livresca ou vivencial, com a coragem, a paciência e a habilidade de tentar romper com limitações sociais sérias.

Mandela e a luta contra o racismo

O ativista sul-africano já estava em evidência, quando, nos EUA, ainda vigorava a segregação racial que separava negros de brancos até mesmo nos assentos de ônibus. Um incidente de 1955, em que a costureira e ativista social, então grávida, Rosa Parks, se recusou a ceder um lugar para um branco e foi presa, causou intensa revolta nacional naquele país.

Anos depois, ativistas criaram os "Viajantes da Liberdade" (Freedom Riders), para pressionar diversos Estados dos EUA a cumprirem um dispositivo constitucional que previa o fim do separatismo racial nas estações rodoviárias. Isso foi em 1961. Dos dois ônibus usados, um foi queimado por um grupo racista, mas o movimento surtiu efeito.

A luta contra o separatismo racial ainda foi muito sangrenta, violenta, com vários ativistas mortos. Mas, do lado dos racistas sul-africanos, destaca-se o assassinato do primeiro-ministro Henrik Verwoerd, em 06 de setembro de 1966, pelo negro Dimitri Tsafendas, que era um caixeiro do parlamento da África do Sul.

As conquistas dos negros de hoje

A situação mudou muito nos últimos anos e os negros tiveram conquistas sociais significativas. O regime do apartheid foi extinto na África do Sul num processo que culminou com a eleição de Nelson Mandela em 1994. Mandela saiu da prisão em 1990, onde estava detido desde 1962, e o então presidente sul-africano Frederik De Klerk revogou as leis do apartheid.

Hoje temos negros em diversas posições sociais, em diversos postos de trabalho. A beleza negra, masculina e feminina, tornou-se reconhecida amplamente. E hoje discute-se a negritude de forma imparcial, numa nova situação que até mesmo figuras negras podem ser criticadas, sem que isso soasse racista.

Podemos criticar Barack Obama e a política externa dos EUA. Ou o tendenciosismo jurídico-midiático do presidente do STF, Joaquim Barbosa. Mas por outro lado reconhecemos o valor inestimável de figuras como Nelson Mandela e o geógrafo brasileiro Milton Santos tiveram em suas vidas.

O apartheid brasileiro

Há muito ainda o que fazer. No Brasil, por exemplo, a grande mídia ainda explora uma negritude caricata, seja pela mercantilização da sexualidade das mulheres negras, seja pela glamourização dos problemas vividos pelos negros pobres, como a ignorância e a miséria.

Muitos homens negros não aparecem sequer nos dados do Censo, porque vivem em lugares inacessíveis, são nômades no seu êxodo rural que os impele na busca incessante de alguma qualidade de vida, e vários negros só aparecem nos necrotérios e nas ocorrências policiais, muitas vezes vítimas da violência, anos depois de nem sequer poderem ser meros números estatísticos.

As negras pobres são impelidas a ter desejos sexuais e afetivos surreais, interpretando muito mal a ideia de diversidade sócio-racial já deturpada pela mídia. Em vez de terem estimulada a liberdade de escolher o homem que quiserem, independente de ser negro ou não, são "impelidas" a desejar homens de classe média, geralmente brancos, mais pela conveniência social do que por qualquer diversidade social.

O apartheid cultural brasileiro

Dessa forma, como se observa em Salvador, várias negras pobres, já incitadas a superestimar seus impulsos sexuais através de uma "cultura" popularesca ditada pela mídia local, se tornam vulneráveis à sedução de traficantes de mulheres, que integram redes de prostituição internacionais, e que muitas vezes se escondem na aparência de "turistas inocentes" de fala "simpática" e jeito "gentil".

A pseudo-cultura "popular", patrocinada pelos barões da grande mídia, e que transforma as classes populares como um todo, sejam negros, brancos, índios ou mestiços em geral, sejam os muito pobres ou a classe média baixa emergente, em verdadeiras caricaturas de si mesmas, deturpa a negritude em estilos que mais fazem pelo racismo anti-negros do que pela defesa da negritude brasileira.

É o "pagode romântico" que primeiro promove um samba caricato e malfeito, lançando ídolos que primeiro aceitam fazer a imagem de ridículos e se tornar sucesso às custas disso para depois bancarem os "artistas sérios" por meio de uma maquiagem sonora, técnica e visual.

É o "pagodão" da Bahia que promove o negro como se fosse um misto de bobo-alegre e tarado, forjando um sensualismo grosseiro e caricato que acaba ofendendo a luta do povo negro baiano, não pela aparente descontração do ritmo, mas pela imagem patética que o ritmo explora da negritude baiana.

É o "funk" que, com seu complexo de "vítima", aprisiona culturalmente a população das favelas, com seu som repetitivo e sem imaginação, com a exploração de empresários-DJs gananciosos que posam de pretensos ativistas, enquanto trabalham, à sua maneira, a imagem caricatural do povo negro, submetendo o povo negro às baixarias e grosserias promovidas pelo ritmo popularesco.

Esses ritmos chegam mesmo a trabalhar uma imagem caricatural das classes populares, e do povo negro em particular, de forma ainda mais cruel que os humorísticos mais reacionários. Para piorar, a intelectualidade cultural dominante, que defende as "senzalas" culturais em detrimento dos "quilombos", apostam numa "cultura popular" controlada pelo "falecido" mercado e pela "moribunda" grande mídia.

Esses intelectuais tentam dar a impressão contrária a seu elitismo, seu racismo e seus preconceitos. Tentam ser "sem preconceito", mas na prática tornam-se muito mais preconceituosos do que o "preconceito" que dizem combater.

No âmbito da negritude, esses intelectuais tentam exaltá-la, quando defendem uma alegria patética trazida por Psiricos, Molejos, Catras, Tchans. Falsas alegrias conformadas com a miséria, com a pobreza, com a baixa escolaridade, que a demagogia intelectualoide exalta e ainda se aproveita da ideia de cotas universitárias para inserir em seus quadros uma mentalidade brega e medíocre.

Há solução contra este tipo de apartheid?

Há muito o que melhorar. Não pela cosmética sócio-cultural que primeiro promove o ridículo para depois travesti-lo de algo "mais nobre", como se fosse fácil estimular os erros num dia e tentar resolvê-los só depois, mais para promover um suposto altruísmo intelectual-midiático do que para ajudar as classes populares.

A "cultura popular" midiática, agindo dessa forma, tenta evitar que o Brasil de grandes negros se amplie e se desenvolva, que tenha a relevância de nosso Milton Santos, cujo exemplo humanista tornou-se um equivalente brasileiro ao de Nelson Mandela, pelo desejo semelhante de progresso e democratização social.

Para a intelectualidade cultural dominante, o que interessa é manter o apartheid cultural. Cinicamente, dizem ser contra o apartheid cultural, achando que incluir a bregalização no cardápio da "alta cultura" irá resolver o problema, quando na prática só faz piorá-lo.

Para esses intelectuais "sem preconceito", mas muito preconceituosos, é melhor jogar a breguice nos salões da sociedade "ilustrada" do que defender uma real melhoria cultural para nosso povo, inclusive os muitos negros que vivem em todos os cantos do Brasil.

Que só a intelectualidade e seus pares apreciem a boa cultura, protegida por seus diplomas e por sua visibilidade. Para essa elite, o "povão" deve permanecer fiel ao consumo de suas próprias caricaturas promovidas pela bregalização cultural. Convém combatermos esse verdadeiro elitismo da intelectualidade "não-elitista"

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