O sistema faz questão de impor uma carga de horário de 40 horas semanais no máximo para os trabalhadores brasileiros. É uma carga alta e eu estou percebendo danos na personalidade dos brasileiros adultos graças a essa carga enorme.
Para facilitar o entendimento desse erro, consagrado pelas leis, é preciso entender a diferença entre trabalho e emprego. O que quase todos chamam de "trabalho" na verdade é emprego. Trabalho é qualquer atividade que produza algo útil. Emprego é o trabalho feito para satisfazer interesse alheio em troca de remuneração. Ou seja, passamos a maior parte da vida satisfazendo o interesse alheio.
E quando sobra tempo para nós? Como aproveitamos a única oportunidade de decidirmos a fazer algo de nosso interesse particular? Simples: cansados, abrimos mão desse direito. Preferimos dormir ou fazer atividades que exijam o menor esforço possível. Nos tornamos mais preguiçosos, burros e insensíveis. Jogamos fora todas as qualidades que desenvolvemos na juventude para nos tornarmos adultos emburrecidos e sem amor, se unindo aos outros por mero interesse, seja financeiro ou não.
Será que o brasileiro não está com uma carga de emprego alta demais? Uma redução de 50% não seria um estímulo a preguiça. Não, não. Pelo contrário. Quanto maior a carga, maior o cansaço e a preguiça resultante dela. Reduzir a carga de emprego estimularia as pessoas a usarem seu tempo precioso e escasso para atividades mais produtivas e que pudessem ajudar a desenvolver o intelecto e o altruísmo.
As empresas não precisariam parar meio turno para isso. Poderiam pagar duas pessoas para fazer o trabalho de uma, com cada uma trabalhando 4 horas diárias. Não haveria prejuízo, a não ser para os patrões gananciosos que querem economizar nas contratações para poder gastar com supérfluos cuja única utilidade é fazer com que se sintam "melhores" que os outros.
E com uma carga menor, o ser humano não se cansaria tanto e usaria melhor seu tempo livre em atividades mais consistentes, que pudessem dar a oportunidade única de desenvolver suas aptidões, sem a interferência da vontade de patrões, sócios e clientes.
E como está, com 8 horas diárias, somos marionetes da vontade alheia até mesmo no lazer, pois acostumamos a passar a maior parte do tempo recebendo ordens, que ficamos com medo de decidir sobre nossos gostos, opiniões e hábitos, obedecendo aquilo que pensamos ser as "organizadas" regras de convívio social. Tornamos marionetes de todo mundo.
Reduzir a carga horária não significa trabalhar menos. Significa repartir o período de trabalho entre satisfazer a decisão alheia e estimular a decisão nossa. É ter um tempo livre para pensar, para amar e para se auto-conhecer. É trabalhar a própria capacidade de decisão na iniciativa de realizar trabalhos que possam realmente transformar o mundo, eliminando os erros típicos de uma sociedade burra, insensível e egoísta, que não sabe trabalhar seu intelecto e suas emoções: como um espantalho, cuja única função e espantar os outros.
Não sejamos espantalhos. Lutemos por uma carga de emprego menor e aproveitemos o tempo livre para desenvolvermos o intelecto e as emoções. Assim poderemos realmente espantar aquilo que é realmente nocivo à sociedade: a nossa preguiça de pensar e de amar. A preguiça de sermos nós mesmos.

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