OBS: No Brasil, convencionou-se a considerar "nerd" apenas pessoas aficionadas em tecnologia. O significado original, lançado nos EUA, se não está se perdendo, deverá cair em desuso. Os desengonçados de outrora, que eram chamados de "nerds", após se acostumarem com o rótulo antes pejorativo, terão agora que procurar outro rótulo para se definirem.
Lembrando do antigo sentido da palavra "nerd", facilmente nos remetemos a Charlie Brown (o personagem, não a banda pós-Mamonas e pré-emo formada por playboys metidos a humilhados), o Minduim (Peanuts no original), uma espécie de herói dos fracassados de todo o mundo. Reparem se as descrições citadas pelo famoso autor de O Nome da Rosa, não encaixam em um legítimo nerd?
O Mundo de Minduim
Trecho escrito por Umberto Eco, com tradução de Pérola de Carvalho e extraído do livro "Apocalípticos e Integrados", 1969, Ed Perspectiva
No meio está Minduim: ingênuo, cabeçudo, sempre inábil e, portanto, votado ao insucesso. Necessita até a neurose de comunicação e "popularidade", e recebendo em troca, das meninas matriarcais e sabichonas que o rodeiam, o desprezo, as alusões a sua cara de lua-cheia, as acusações de burrice, as pequenas maldades que o ferem profundamente. Minduim, impávido, procura ternura e afirmação em toda a parte: no beisebol, na construção de "papagaios", nas relações como o seu cão Snoopy, nos contatos de jogo com as meninas.
Fracassa sempre. Sua solidão torna-se abissal, seu complexo de inferioridade, esmagador (colorido pela suspeita contínua, que também atinge o leitor, de que Minduim não tenha nenhum complexo de inferioridade, mas seja realmente inferior). A tragédia é que Minduim não é inferior. Pior: é absolutamente normal. É como todos. Por isso, caminha sempre à beira do suicídio ou, na melhor das hipóteses, do colapso.: porque busca a salvação segundo as fórmulas comodamente propostas pela sociedade em que vive (a arte de fazer amigos, como tornar-se um solicitado animador de reuniões sociais, como conseguir cultura em quatro aulas, a busca da felicidade, como agradar as meninas... obviamente, o Doutor Kinsey, Dale Carnegie e Lin Yutang o arruinaram).
Mas como o faz com absoluta pureza de coração, e nenhuma velhacaria, a sociedade está pronta a rejeitá-lo, na figura de Lucy, matriarcal, pérfida, segura de si, empresária de lucro certo, pronta a comercializar uma prosopopeia falsa de fio a pavio, mas de indubitável efeito (são as suas aulas de ciências naturais ao irmãozinho Linus, uma mixórdia de idiotices que dão náuseas a Minduim - "I can't stand it", não posso aguentar isso, geme o desgraçado, mas com que armas se pode deter a má-fé impecável, quando se tem a desventura de ser puro de coração?...)

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