Hoje, não damos bola às ideias, a não ser que sejam lançadas por alguém com fama e prestígio. Uma ideia só ganha aceitação se for defendida por "aquele fulano" que todos respeitam e admiram. Mesmo que esta ideia seja a asneira mais imbecil.
As ideias e fatos passam a não ter mais valor por causa de sua coerência, mas pela autoria. Se um Zé Ninguém for mais coerente que um desses grandões da mídia, o que vai valer não será a ideia coerente, mas o que o grandão defender. E com a influência que tem, a asneira defendida pelo grandão, se consagra e se transforma em acerto, se convertendo rapidamente em regra social aceita e seguida por uma gigantesca parcela da sociedade.
E foi exatamente isso que aconteceu com Letícia Sabatella, atriz consagrada, considerada por muitos a mulher mais linda do Brasil (eu discordo pois para mim Isabelle Drummond é a brasileira mais linda, mas, opinião é opinião) e ativista política e social, que foi pega embriagada em uma festa. Até aí nada anormal, até que os comentários dela e de seus simpatizantes enxergassem nesse episódio mais um ato de "ativismo social" da agora polêmica atriz.
Mas porque quase todos se deram de defender um ato tão repugnante como ficar embriagado? Primeiro: seus defensores são ratos de festas, frequentadores assíduos de bebedeiras cada vez mais irresponsáveis. Segundo: quem se embriagou não foi uma Zé Ninguém ou uma celebridade detestada: foi a "deusa" Letícia Sabatella, ativista de todos!
O prestígio de uma mulher considerada inteligente, culta e de bom gosto (embora ela tenha dito meses antes que adorava "funk" carioca, num prenúncio de sua decadência intelectual) favoreceu com que um ato como esse, normalmente reprovável, fosse aplaudido com empolgação por boa parte da sociedade.
A "Rainha" desceu do trono e foi "bebericar com a ralé". Pelo jeito, para Sabatella e seus simpatizantes, a "ralé" (gente como eu e você" só vive enchendo a cara, como se fosse a única coisa que é capaz de fazer quem não pertence a admirada nobreza da qual pertence a bela atriz.
Mal sabe a atriz metida a ativista que o povo não vive embriagado o tempo todo. Só alguns realmente o fazem, e por erro. E que isso é muito mais comum na sua nobreza, cara Rainha, e por isso mesmo gente nobre como você, aplaudiu sua atitude de perder o controle de sua própria mente, eliminando de vez o bom senso, o auto-respeito e a simpatia, esta última a qualidade com que você foi consagrada antes desse episódio.
Por ser integrante da nobreza tirando um sarro da "gente como a gente", como se a plebe fosse formada por um bando de alcoólatras, a atitude de Sabatella foi "louvável". Lula (oriundo da "gente como a gente", foi muito criticado por beber de vez em quando (ele não é alcoólatra e não há relatos de embriaguez por parte do ex-presidente), mas Aécio, representante da mesma nobreza real que pertence Sabatella, foi filmado embriagado e não resultou em repercussão. Parece que para a nobreza, o ato que ela atribui a "ralé" é muito mais comum dentro dos mais ostentosos castelos e mansões, pátrias das orgias de sexo, bebidas e drogas.
Mas a elite é sempre respeitável. Ninguém imagina aquele sisudo empresário "responsável" dando um dinheiro a um moleque adolescente para enfiar seu órgão genital no traseiro do jovem rapaz. Ninguém imagina o elenco de uma novela trancafiado em uma mansão em uma orgia digna do mais chulo filme pornográfico. Ninguém imagina aquela galã elegante cheirando um pó branco para elevar a baixa auto estima. Isso tudo acontece, mas todos fingem ser absurdo. Aos olhos de todos, a nobre elite parece sempre correta e feliz.
Tão correta, que mesmo errando, graças ao seu prestígio inabalável, tem o poder de transformar qualquer atrocidade em atitude respeitável e por consequência, regra social. Muitos de nossos costumes errados originam de atitudes consagradas por pessoas famosas e prestigiadas. Se alguém da nobreza erra, está correto. Vamos todos imitar o que os nobres fazem, seja certo ou seja errado.
Citei essas coisas meio fortes para provar que o que Sabatella fez é muito normal na elite. Não, ela não foi "gente como a gente". Ela agiu igualzinho a gentalha que fica trancafiada em sua caríssimas mansões de luxo ou de solitários castelos, desesperada pela falta de privacidade e pelo desejo mórbido de querer ser melhor que os outros.
A nobreza sabe muito bem perder a classe na hora que bem entende. E os seus súditos adoram.

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