Tanto a Letícia Sabatella quanto seus defensores falaram bastante em liberdade quando argumentaram a defesa da embriaguez da bela atriz. Mas se esqueceram que esta bebedeira nada tem a ver com liberdade. É na verdade outro tipo de escravidão: uma escrevidão alegre, festiva e aparentemente voluntária: a escravidão das regras sociais.
O povo brasileiro é muito rígido em relação às regras sociais. Por valorizar excessivamente a vida em grupo, cria um conjunto de exigências e conduta que obrigam a pessoa a se comportar de maneira "adequada" diante de muitas pessoas. O consumo de álcool faz parte dessas regras, liberado apenas para religiosos e para portadores de problemas de saúde. Fora essas situações, o consumo é praticamente obrigatório. E quem recusar, caso não esteja nas exceções citadas, é solenemente humilhado ou tem que carregar rótulos desagradáveis.
Interessante que todos falem em liberdade e uma sociedade que não é livre, como a brasileira. Somos obrigados a tudo. Nossos gostos, nossas opiniões, nossas convicções são todas condicionadas. Há a obrigação de gostar de futebol e ter uma religião (recusar esses dois é falta quase ofensiva e punida com rótulos pejorativos e exclusão do grupo). A mídia, reguladora das regras sociais, nos direciona até mesmo ao que vamos comprar e ao que vamos fazer em nosso cotidiano.
Não, não somos livres. Pensamos que somos livres. Mas como vivemos para agradar aos outros, abrimos mão da liberdade verdadeira e a trocamos pela "liberdade" de obedecermos a vontade alheia, seja de nosso grupo social, seja da mídia televisiva.
E vocês acham que no caso, Sabatella foi livre? Não, nem ela foi livre. A própria justificativa dada por ela sobre seu ato equivocado, deixa subentendida uma falta de liberdade. Ela agiu para parecer "gente como a gente". Ela preferiu agir como o que ela achava que a plebe agia. Ela não queria ser a Sabatella e sim a "gantalha" a quem ela pensava agradar.
Os alucinados aplaudiram. Até porque ela estava cumprindo uma regra social, de encher a cara em uma festa. Sobreviver a uma embriaguez é ato de "heroísmo" para grande parta da população, segundo relatos que tive a infelicidade de ouvir pessoalmente. Mais regra social. Somos livres?
Que liberdade é essa que tenho que agir como a maioria, para me sentir incluído socialmente? Que liberdade é essa que se eu fizer algo por decisão própria, sou humilhado, desprezado, recebo rótulos pejorativos e no fim, sou excluído da sociedade, sem direito a benefícios sociais? Somos livres?
É uma liberdade estranha. A "liberdade" de não ser livre. A "liberdade" de obedecer aos outros, de seguir "tradições" de se comportar de maneira "adequada", mesmo que seja errada. "Liberdade" de perder o controle da mente, de cair no chão, passar vergonha e justificar isso de forma arrogante e antipática, só porque um representante da elite agiu dessa forma. Somos livres?
Não, não somos livres. Pelo jeito, o único tipo de liberdade que temos é a de nos libertarmos do bom senso, da coerência, da lógica. Brasileiros são famosos por serem contraditórios. Aqui na Terra Brasilis, as coisas são e não são ao mesmo tempo.
Algo que normalmente incrimina bandidos durante julgamentos está virando nosso maior direito: o direito à contradição. O direito de sermos corretos, errando. De sermos inteligentes, defendendo asneiras. De sermos bondosos, prejudicando os outros. De sermos livres, presos a regras que não ajudam a melhorar nada.

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