Nestas semanas muito se falou sobre David Bowie, falecido após uma longa e discreta luta contra um câncer. Revelou-se pouco depois que foi câncer de fígado que o matou, embora o cantor tivesse problemas cardíacos, sofrendo seis infartos em 2015.
Bowie, genial como sempre foi, sendo um cantor-símbolo da criatividade na música, por saber que iria morrer, decidiu anunciar sua morte de forma artística e mesmo visivelmente debilitado, aceitou gravar um videoclipe, coerentemente com a sua proposta "Sound +Vision" que lançou nos anos 90 e que foi inclusive o nome do pacote que trouxe o relançamento de todos os seus álbum remasterizados na época.
Em Lazarus, nome referido ao personagem bíblico que "ressuscitou" (na verdade, sofria de catalepsia e foi curado desta doença), Bowie está numa cama de hospital agonizando e no mesmo vídeo aparece dançando de forma desajeitada, com evidente dificuldade de se movimentar. Bowie aparece magérrimo, mas com o rosto inchado como uma bola. Uma cena triste de se ver. Eu vi o clipe e me senti constrangido a ver um ídolo, famoso pelo seu dinamismo, se deteriorar diante da tela.
Mas durante o anúncio de sua morte e do lançamento de seu derradeiro álbum Blackstar, composto durante o período de doença e por isso mesmo sendo todo temático sobre a morte, muita gente, sobretudo os mais jovens perguntavam: quem é esse tal de David Bowie que todos estão falando tanto?
Não faremos uma biografia dele e nem falaremos muito. Não é a intenção desta postagem. Queremos aqui nos limitar a responder essa pergunta citada, falando sobre a importância que Bowie tinha (e ainda tem, sua obra é imperecível) na música.
Nascido David Jones e mudado seu sobrenome para um estranho "Bowie" para não ser confundido com o líder da banda americana de teeny bop The Monkees, Davy Jones, Bowie iniciou fazendo o rock básico típico da segunda metade dos anos 60. Mas ainda na mesma década muda seu som para uma mistura de folk e de glitter (nome que o glam rock tinha na Inglaterra), com pitadas de psicodelismo, já lançando seu primeiro clássico, a belíssima Space Odditty, uma das musicas dele que eu, pessoalmente, mais gosto.
E daí se iniciou o que seria uma tradição na sua carreira e sua marca registrada: a mutação. Apelidado de "Camaleão", Bowie mudava de sonoridade a cada disco, mas do contrário de muitos cantores, o fazia não para aderir a modismos, mas para fugir deles. Para Bowie, que compôs e gravou uma canção chamada Changes (nome de sua coletânea no pacote Sound + Vision), as mudanças tinham a intenção clara de aperfeiçoamento, o que o tempo comprovou ser verdadeira.
Depois do glitter e do psicodelismo, passou para o rock setentista, para o eletrônico alemão (teve relação de admiração recíproca com o grupo Kraftwerk), para o soul, para o new wave, para a música eletrônica mais moderna, e o que você puder imaginar. Blackstar, seu derradeiro álbum e réquiem definitivo foi classificado como álbum de jazz. Mostrando que mesmo à beira da morte, Bowie estava a fim de mudanças. Mas desta vez a mudança foi radical, pois incluiu a sua saída do planeta Terra.
Bowie havia voltado a sucesso. Embora nunca tenha tido uma fase decadente (embora os álbuns seguintes ao seu álbum mais popular, Let's Dance (com sonoridade ora funk do tipo Chic - Nile Rodegers era o produtor - ora new wave, o som da época), sejam meio fracos, comparados a sua capacidade de criar), sua popularidade havia caído nos anos 90, embora tivesse recuperado a criatividade já os anos 90, com bons álbuns.
Recentemente, havia lançado The Next Day, pelo seu próprio selo, criado em um acordo com a Columbia (é este selo que lança Blackstar), com sucesso de crítica e de público. Bowie havia feito um álbum triste, tendo a velhice como tema, mas sem imaginar que esta velhice duraria bem pouco. A capa, a mesma do álbum Heroes mas com um quadrado branco tapando os detalhes, era uma referência de retorno, de retomada, de reinício. Mas acabou-se o que era doce.
Não teremos outro Bowie. Mesmo sendo muitos, como um Fernando Pessoa da música (além de mutante, Bowie tinha até seus personagens, Ziggy Stardust, Aladin Sane, Major Tom e outros), cada um com seu estilo e personalidade, mas era um só. Seus personagens na verdade eram fruto de sua obsessão por mudanças e por progresso. Era entusiasta da evolução artística e da tecnologia, sendo usuário assíduo de redes sociais, onde era amigo de fãs que lhes serviam de inspiração para trabalhos posteriores.
Infelizmente não temos mais Bowie. Mas ficam as suas lições, perfeitamente registradas em quase 50 anos de carreira. Ouçamos-as e tiremos proveito de um artista que era único, ao propor mudanças em um mundo que vive se recusando a mudar. Mudemos com Bowie e como Bowie, se quisermos que o nosso mundo seja cada vez melhor.



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